Este volume reune numa mesma edicao os tres primeiros livros do poeta Mario Quintana. Com a publicacao de Cancoes, em 1946, seu nome emergiu em escala nacional, junto aos colegas da geracao modernista, como representante de um lirismo singelo, intuitivo, tingido de suave tom elegiaco e banhado de sabor local a rua, o arrabalde, a cidade de Porto Alegre.
Dois anos depois, em 1948, Quintana lancou Sapato florido, sua primeira compilacao de aforismos, pequenas prosas, cronicas e minicontos. Com ela, afirmava no cenario editorial sua peculiar mistura de prosa e poesia, que se tornaria outra de suas marcas registradas como autor. No mesmo volume, foi ainda compilada a serie completa dos sonetos modernistas que constituem seu livro de estreia, A rua dos cataventos, de 1940.
Entre a cancao e o soneto, assim comeca a proficua e produtiva carreira poetica de Mario Quintana. Da cancao singela, rimas simples, metricas consagradas, pode-se dizer que encerra a essencia, o ponto de partida do lirismo moderno ( romantico e pos-romantico). Encarnacao chaplininana de algum jovem Goethe a beira do Guaiba esquecido, o poeta ja de saida invoca a poesia como danca primaveril, no poema que abre o volume. Ao percorrer os versos de Cancoes, porem, o leitor descobre estar diante de intimidade mais o espirito dancante do lirico se deixa marcar por delicada melancolia, diante da morte como fato da vida.
E um olhar de menino que o poeta lanca ao redor. E, como tal, poroso. Aberto para os detalhes do mundo, micro/macrocosmo. Nos sonetos de A rua dos cataventos, o poeta estreante se faz catavento, se faz rua, funde-se a paisagem do bairro, e um poeta de luz e encantamentos. O dia feerico compensa os abismos da lua. Ja nas agudas prosas e aforismos de Sapato florido, Quintana revela-se pensador veloz e surpreendente do real e do surreal.
I was born in Alegrete, on the 30th of July 1906. I believe that was the first thing that happened to me. And now they have asked me to speak of myself. Well! I always thought that every confession that wasn’t altered by art is indecent. My life is in my poems, my poems are myself, never have I written a comma that wasn’t a confession. Ah! but what they want are details, rawness, gossip...Here we go! I am 78 years old, but without age. Of ages, there are only two: either you are alive or dead. In the latter case, it is too old, because what was promised to us was eternity. I was born in the rigor of the winter, temperature: 1 degree °C; and still I was premature, which would leave me kind of complexed because I used to think I wasn’t ready. One day I discovered that someone as complete as Winston Churchill was born premature - the same thing happened to Sir Issac Newton! Excusez du peu... I prefer to cite the opinion of others about me. They say I am modest. On the contrary, I am so proud that I think I never reached the height of my writing. Because poetry is insatisfaction, an affliction of self-elevation. A satisfied poet doesn’t satisfy. They say I am timid. Nothing of the sort! I am very quiet, introspective. I don’t know why they subject the introverts to treatment. Only for not being as annoying at the rest?
It is exactly for detesting annoyingness, the lengthiness, that I love synthesis. Another element of poetry is the search for the form (not of the form), the dosage of words. Perhaps what contributes to my safety is the fact that I have been a practitioner of pharmacy for five years. Note that the same happened with Carlos Drummond de Andrade, Alberto de Oliveira, Erico Verissimo - they well know (or knew) what a loving fight with words means.
Parece simples, mas é difícil, mas é para ser simples. Assim como a vida. A gente que complica. Que eu saiba andar pelo corredor escuro sem me preocupar tanto com o cotovelo. Que eu sente em cima da minha mala e aprenda a me deixar levar pois a alvorada vem. E que de vez em quando eu aja mais como um cágado querendo só um pouquinho de sol.