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O Diabo foi meu padeiro

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45 anos depois do fecho do Campo de Concentração do Tarrafal, toda a sua história num grande romance da lusofonia.A Colónia Penal do Tarrafal, criada durante o Estado Novo na ilha de Santiago, em Cabo Verde, foi estreada em 1936 com centena e meia de prisioneiros políticos vindos da metrópole, que era preciso afastar, enfraquecer e usar como lição. Embora as condições em que ali viveram – esses e todos os outros que ali foram encarcerados – sejam conhecidas (quase sem água, privados de higiene, doentes e sujeitos a torturas várias), nada melhor do que ouvi-las da boca de quem as sofreu na pele ou assistiu de perto a esse sofrimento.Nos 45 anos do encerramento do campo de concentração, Mário Lúcio Sousa, nascido no Tarrafal, toma a voz de vários prisioneiros chamados Pedro e chegados em diferentes vagas de Portugal, da Guiné, de Angola e até de Cabo Verde. E, ao relatar a história desta prisão terrível e de quem a foi dirigindo ao longo dos anos, o presente romance homenageia simultaneamente os que ali perderam a vida e os que sobreviveram ao horror e ainda os vários modos de falar uma língua que foi, tantas vezes, a que os tramou e a que os viria a salvar.

328 pages, Paperback

Published September 1, 2019

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About the author

Mário Lúcio Sousa

7 books16 followers
Mário Lúcio Sousa (Lúcio Matias de Sousa Mendes) nasceu no Tarrafal, ilha de Santiago, Cabo Verde, em 1964. Licenciado em Direito pela Universidade de Havana, foi deputado ao Parlamento Cabo-Verdiano e embaixador cultural do seu país antes de se tornar Ministro da Cultura, cargo que desempenhou de 2011 a 2016. Condecorado com a Ordem do Vulcão, ao lado de Cesária Évora, foi o artista mais jovem de sempre a receber tal distinção no seu país. É autor das seguintes obras: Nascimento de Um Mundo (poesia, 1990); Sob os Signos da Luz (poesia, 1992); Para Nunca Mais Falarmos de Amor (poesia, 1999); Os Trinta Dias do Homem mais Pobre do Mundo (ficção, 2000), prémio do Fundo Bibliográfico da Língua Portuguesa; Vidas Paralelas (ficção, 2003); Saloon (teatro, 2004); Teatro (coletânea, 2008); O Novíssimo Testamento (romance, 2010), Prémio Literário Carlos de Oliveira; Biografia do Língua (romance, 2015), Prémio PEN Clube Português de Narrativa e Prémio Literário Miguel Torga.

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Displaying 1 - 22 of 22 reviews
Profile Image for Fátima Linhares.
963 reviews341 followers
June 24, 2025
Estamos com um sentimento tão atroz de que nada valeu a pena, de que os portugueses morreram aqui em vão, os angolanos, idem, os guineenses, aspas, os cabo-verdianos também que desejamos que uma cratera se abra e nos sugue para as soçobras do bojo do inferno.
Pensamos naqueles que saíram vivos daqui como a última réstia de consolo. Mas nem sequer sabemos se morreram de angústia, se mataram a cabeça, se foram fuzilados, se estão nas masmorras, se perderam o juízo, se venderam a alma... nada sabemos.


Sabia que existiu a Colónia Penal do Tarrafal porque num dos meus livros de história do ciclo aparecia lá uma fotografia do edifício. Penso que, durante as aulas, não se aprofundou muito esse tema nem o que por lá se passava, mas pelo menos foi mencionado.

Este livro dá-nos uma ideia do inferno que aquele local foi. Começou a ser construído por presos políticos portugueses em 1936. Viviam em condições miseráveis, rodeados de doenças tropicais que a maior parte das vezes não eram tratadas pois o próprio médico da prisão os dava como aptos para o trabalho e certos diretores sonegavam as medicações que lhes faziam falta. A água era salobra e racionada e a comida era uma lavadura. Quando não cumpriam as ordens eram enviados para a Frigideira, pois as condições não eram já miseráveis o suficiente. Em 26 de janeiro de 1954 encerrou mas, em 1961, voltou a receber presos, desta vez de Angola, Guiné e Cabo Verde até que, uma semana depois do 25 de abril de 1974, foi encerrado.

Muitos por lá morreram, outros, milagrosamente, sobreviveram.

Perguntei a Joaquim porque nos pedem para anotarmos sempre as datas, os nomes e as profissões de todos os falecidos. E ele respondeu-me:

- Porque não há registo dos mortos, nem identificação no cemitério. Podemos ajudar a família a fazer o luto, um dia. É nosso dever contra a indigência.
Profile Image for Cat .classics.
289 reviews125 followers
January 30, 2023
Este livro merecia 10 estrelas pela relevância do tema e pela elegância da escrita!
Por favor, leiam-no!
Profile Image for Margarida Galante.
476 reviews42 followers
November 19, 2023
Já todos ouvimos falar do Tarrafal e muitos saberão que foi uma prisão, em Cabo Verde, para onde foram enviados presos políticos durante o Estado Novo. Isto era, muito  basicamente, o que eu sabia.

A Colónia Penal do Tarrafal recebeu os primeiros prisioneiros em 1936. Os estreantes foram 150 presos políticos, vindos da metrópole. Ao longo dos anos, até 1974, muitos homens para lá foram levados. Primeiro portugueses e depois, angolanos, guineenses e cabo verdianos.

Uma história real e muito dura, contada na primeira pessoa por quem esteve preso no também chamado Campo de Concentração do Tarrafal ou Campo da Morte Lenta. Gostei muito da forma que o autor utilizou para dar voz aos protagonistas.

Uma homenagem a todos os que lá passaram, aos que perderam a vida e aos sobreviventes, mas também uma homenagem à língua portuguesa e à lusofonia.
Profile Image for Marta Clemente.
761 reviews19 followers
April 25, 2024
Que excelente livro para terminar neste 25 de Abril de 2024!
Mario Lúcio Sousa é cabo-verdiano, nascido no Tarrafal, ilha de Santiago em 1964. Viveu de perto a realidade da Colónia Penal do Tarrafal e conta-a neste livro através da voz de vários prisioneiros politicos chamados Pedro, chegados a esta terrível prisão em vários tempos, ao longo dos seus 38 anos de existência. Estes chegaram de vários pontos do Portugal da altura: da metrópole, da Guiné, de Angola e mesmo de Cabo Verde.
Este é um romance/ homenagem que retrata na perfeição os tormentos sofridos por quem lá viveu e por quem lá morreu e é uma leitura obrigatória para quem quer ter a noção do que foi feito no nosso país no tempo do Estado Novo.

"Cabe-nos um litro de água por dia por pessoa. Tecto de telhas de fibrocimento, dezassete transp irados homens fechados a quarenta graus de calor num quarto para quatro, são combinações de matar. Mas aguentamos."
Profile Image for Conceição Puga.
153 reviews27 followers
July 7, 2023
A Colónia Penal do Tarrafal, situada no lugar de Chão Bom, concelho do Tarrafal, foi criada pelo regime colonial-fascista ao abrigo do Decreto-Lei n.º 26 539, de 23 de Abril de 1936.

«Em 18 de outubro de 1936 partiram de Lisboa os primeiros 152 detidos, entre os quais se contavam participantes na revolta de 18 de Janeiro de 1934, na Marinha Grande, e alguns dos marinheiros que tinham participado na revolta, ocorrida a bordo de navios de guerra no Tejo, a 08 de Setembro daquele ano», descreve a nota referida.

Conhecido também como “Campo da morte lenta”, acabou por ser extinto em 1956, porém reativado em 1961, através de uma portaria assinada pelo então ministro do Ultramar, Adriano Moreira, começando a receber nacionalistas africanos que, nas então colónias portuguesas, lutavam pela independência nacional.
Profile Image for Vera.
15 reviews1 follower
January 27, 2023
Um relato impressionante do horror que sofreram os presos no Campo de Concentração do Tarrafal. Obrigatório ler!
Profile Image for Ines.
195 reviews11 followers
April 21, 2024
“Conversar é liberdade de preso. Para mim, parar para escutar já é um amadurecimento.”

Leiam este livro, por favor. Que obra maravilhosa. Estou deslumbrada com a capacidade de Mário Lúcio Sousa escrever de forma tão mas tão bonita sobre um lugar tão terrível…
Profile Image for Rui Fernandes.
49 reviews10 followers
April 21, 2024
Livro muito importante para dar viva vós aos acontecimentos ocorridos de 1936 a 1974 e uma homenagem a todos os que lá passaram.
861 reviews
March 2, 2020
O campo de concentração do Tarrafal abriu com prisioneiros portugueses, foi extinto em 1956 e reaberto por Adriano Moreira (como é possível louvá-lo?) em 1961. E assim estiveram presos portugueses, angolanos, guineenses e cabo-verdianos na ilha de Santiago, em Cabo Verde.
Por isso este romance, que contém nas páginas finais a lista nominativa de todos os presos, está entre ficção e realidade.
Parte da realidade e, a partir da voz dos vários presos, o leitor depara-se com a crueldade e a humanidade, duas faces do ser humano. O romance tem tantas partes como as nacionalidades dos presos. O autor, Mário Lúcio e sem acordo ortográfico, escreve nas várias línguas portuguesas. Assim, quando lemos a parte dos portugueses, é o português de Portugal, mas também o português angolano, o português guineense e o português cabo-verdiano. Uma das muitas belezas deste livro é a utilização desta língua de maneira que a nacionalidade de cada um seja diferenciada, mas que o leitor perceba que todos são seres humanos, independentemente da cor da pele. Ao partilhar uma língua partilha-se simbolicamente a humanidade.
Profile Image for Cristina Delgado.
255 reviews72 followers
May 19, 2024
Este livro é uma lição de História, infelizmente da nossa, muito triste e vergonhosa por sinal. Relato cru do que foi o campo de concentração do Tarrafal, na ilha de Santiago, em Cabo Verde, para onde eram levados alguns dos presos políticos durante o salazarismo, muitas vezes à espera de julgamento. Os testemunhos de alguns sobreviventes serviram de base à escrita desta obra. Os presos "alimentavam-se" de torturas várias, de fome e sede, de falta de higiene, de maus tratos e onde a doença que levava à morte constituía, por vezes, a libertação esperada!

Foi "inaugurado" em 1936 com mais de uma centena de prisioneiros que era urgente afastar da metrópole pelas suas ideias diferentes do regime. Relatos brutais, inumanos do que lá se viveu e se quis esconder por muito tempo. O autor enumera os nomes dos presos no final deste livro, que lhes é dedicado, onde para além de portugueses estão também cabo-verdianos, guineenses e angolanos.

Posto isto, que me parece ser prioritário referir, tenho de parabenizar o autor pela sua escrita criativa, pela beleza do seu discurso quando seria difícil fazê-lo já que o tema é tão pesado e monstruoso. A ficção e a realidade juntas num belíssimo e importante livro, que muito recomendo.

A utilização de vários narradores, todos de nome Pedro, que se expressam na primeira pessoa, não dificulta a leitura. Pelo contrário, torna-a mais interessante. Para além de uma homenagem a todos os que por lá passaram, da crueza dos relatos que não duvidamos terem sido reais, este livro transporta-nos para uma escrita belíssima e muito cuidada sem deixar de ser simples e poética, ao mesmo tempo.

Adorei!
Profile Image for Ana Sofia Filipe.
276 reviews2 followers
August 6, 2025
Citações:

Montaigne: “não há lugar na Terra onde a morte não nos encontre - mesmo que voltemos a cabeça uma e outra vez olhando em todas as direções, como numa terra estranhar suspeita… Para começar a tirar da morte seu grande trunfo sobre nós, adotemos o caminho contrário ao usual; vamos provar a morte da sua estranheza, vamos frequentá-la, acostumarmo-nos a ela; não tenhamos nada senão ela em mente… Não sabemos onde a morte nos espera; então vamos esperar por ela em toda a parte. Praticar a morte é praticar a liberdade”, p. 9.

“Quando sai um preso em liberdade, ninguém sabe qual a alegria, qual a tristeza. A diferença está em quem fica. É difícil dizer a um colega que ele vai deixar falta na prisão. Mas acontece: é o caso de Felicíssimo, que nunca perdeu o humor essencial. Aliás, ele sempre usou o próprio buraco deixado pelo dente extraído para sorrir com exagerada abertura. Felicíssimo tem limitações mentais, mas sem ele estaríamos todos doidos”, p. 141.

“Chegamos à ilha do Sal. João assinalou-me com destreza as cabras a comerem jornais papéis que vinham no vento. Logo deu para vermos qual destino nos esperava no dicionário. Tudo se resumiu ali. Lugar onde as cabras parecem imprensa nunca será bom para ser humano”, p. 190.

“São nove horas da manhã. Fugi da sala do exame, entretanto, e estou na rua a correr. Aliás, acho melhor não correr para não chamar atenção. Caminho então, turista político, comprando nada, contemplando anda, olhos no mar, aguadável surpresa!: Estar livre, mesmo por um segundo, realiza a vida. Sou preso mas estou livre é a antítese total de sou livre mas estou preso”, p. 290.
Profile Image for Joaquim Margarido.
299 reviews41 followers
March 28, 2020
Gabriel Pedro, Edmundo Pedro, Pedro Santos Soares, Pedro José da Conceição, Pedro Benge, Pedro Pacavira, Pedro Chimbinda, Preto Mancanha e Pedro Martins. A coincidência no nome e as histórias que se descobrem por detrás de cada uma destas figuras são o fio condutor de “O Diabo Foi Meu Padeiro”, romance centrado no viver e sentir dos presos políticos que, ao longo de quase quatro décadas, passaram pelo Campo de Concentração do Tarrafal, aí deixando a saúde e, em muitos casos, a vida. Centrado nos Pedros que, no “campo da morte lenta”, comeram o pão que o diabo amassou, o livro oscila entre o real e o ficcionado, convergindo na história dos perto de 340 antifascistas portugueses e dos 226 nacionalistas africanos (106 angolanos, 100 guineenses e 20 cabo-verdianos) que, por seu livre pensamento, enfrentaram condições de reclusão bárbaras e desumanas.

Preservar a memória e passar o testemunho. Tal será, porventura, a maior virtude de “O Diabo Foi Meu Padeiro”, visto os crimes cometidos no Tarrafal permanecerem como um dos mais fortes libelos acusatórios contra o regime fascista de Salazar e Caetano. O ignominioso tem como marco fatídico o dia 29 de Outubro de 1936, com a primeira leva de 152 presos políticos a inaugurarem formalmente o Campo de Concentração do Tarrafal e o seu brutal reduto: uma vasta área cercada de arame farpado e fortemente vigiada, numa zona inóspita, com condições climáticas adversas, sem água potável e cujos princípios orientadores estabelecidos para o seu funcionamento eram marcados pela violência e arbitrariedade permanentes. “Daqui ninguém sai com vida... quem vem para o Tarrafal vem para morrer”, diziam os responsáveis do Campo, sentença complementada pela afirmação do médico de que a sua função não era tratar da saúde dos presos, antes passar certidões de óbito

Numa altura em que se cumprem 45 anos do fecho do Campo de Concentração do Tarrafal, Mário Lúcio Sousa presta, com este livro, uma sentida homenagem a todos quantos passaram por esta sombria prisão do Estado Novo, recuperando histórias e memórias que dizem muito do engenho e da coragem, da solidariedade e da resiliência, destes homens que aqui cumpriram penas elevadas, muitos deles sem sequer terem sido julgados, e que, nalguns casos, lá permaneceram para além das penas determinadas. Da infame frigideira aos livros que Luandino Vieira aqui escreveu e que saíram da prisão graças à cumplicidade de uma mulher analfabeta, do fel constante na boca por conta da biliosa às “notícias da retrete” que chegavam via Rádio Moscovo, são infindáveis as histórias narradas neste livro que nos falam duma verdade que alguns teimam em querer ver apagada. Mário Lúcio Sousa é disto o oposto. Nascido no Tarrafal há 55 anos, no seio de uma família praticamente analfabeta, aprendeu a viver com parcos recursos, a conviver com a morte desde muito pequeno e a escrever histórias desde cedo. A sua escrita, forte, emotiva, visceral, é o reflexo das suas vivências e da sua forma de estar, comprometida com a justiça e a liberdade. Ler “O Diabo Foi Meu Padeiro” é percorrer, com a razão e o coração, caminhos de luta e resistência.
Profile Image for Sonia189.
1,157 reviews33 followers
March 4, 2023
Fiquei surpreendida com a escrita deste autor e lerei certamente mais alguma coisa dele.
Gostei do estilo de narrativa desta história, com capitulos curtos e gostei dos pequenos apontamentos sobre a experiência dos presos no Tarrafal, que não obstante ter sido algo impossivel de imaginar, aconteceu e não deve ser esquecido.
Profile Image for Jorge Melo Braga.
101 reviews
September 3, 2023
O que foi o Tarrafal para os portugueses, angolanos, caboverdianos e guineenses?
De uma forma literária rica Mário Lucio de Sousa conta-nos esse momento da história de Portugal.
Excelente.
Profile Image for Maria Luísa.
8 reviews
June 24, 2020
Sobre o autor:

Mário Lúcio Sousa, é cabo-verdiano e nasceu em 1964 no Tarrafal, na Ilha de Santiago. É licenciado em Direito pela Universidade de Havana, e além de ter sido deputado do Parlamento e embaixador, foi também Ministro da Cultura de Cabo Verde. É escritor, poeta, músico e compositor. Enquanto escritor foi galardoado com o Prémio literário do Fundo Bibliográfico da Língua Portuguesa, com a obra “Os Trinta Dias do Homem Mais Pobre do Mundo” (ficção, 2000), com o Prémio Literário Carlos de Oliveira, com a obra “O Novíssimo Testamento” (romance, 2010), e com o Prémio Miguel Torga e P.E.N. Clube para a Narrativa, com a obra “Biografia do Língua” (romance, 2015).

Sobre o livro:

Este livro, baseado em testemunhos dos que sobreviveram ao Campo de Morte Lenta, pelo qual também é conhecido o Campo de Concentração do Tarrafal, embora de forma romanceada, dá a conhecer ao leitor uma realidade que muitos teimam em querer apagar, e que espelha o quotidiano de cada um dos presos políticos que lutavam contra o fascismo. Por isso, este livro fala-nos da fome e da sede, da doença, da vida e da morte, do desespero e da esperança, do humano e desumano.

“Estamos a embarcar por ordem de chamada para o navio Luanda. Ir de barco para uma prisão não é um bom presságio.” P. 17

“A viagem começamos de carro lá em Angola, e depois é que vimos o avião. Ir de avião para uma prisão nunca é bom sinal, principalmente se desconhecemos assim para onde voamos.” P. 183
“Na viagem de barco nós viemos n’porão, rumados como sacos e nem um prato de comida. Comemos farelo que companheiros acharam n’porão de barco África Ocidental, farelo de arroz com água num balde, depois fizemos pupú, xixi, num cantinho do porão, de Guiné até Cabo Verde, Tarrafal.” P. 242

“Ir de barco para a prisão não é um bom agoiro, de avião não é um bom presságio, de comboio é cáustico, mas de camioneta, por essas estradas cheias de circunvalações, é terrivelmente castigante.” P.257

O livro está dividido em quatro partes, dedicando cada uma delas, aos presos políticos portugueses, angolanos, guineenses e cabo-verdianos, respectivamente. Cada uma das partes com linguagens e personagens distintas e com a particularidade em comum de a maioria se chamar Pedro.

“A terceira coincidência: o infortúnio de se chamar Pedro. Gabriel Pedro, Edmundo Pedro, Pedro Santos Soares, Pedro José da Conceição, Pedro Benge, Pedro Pacavira, Pedro Chimbinda, Preto Mancanha e, agora eu, Pedro Martins. A minha pergunta é: - Será que nos querem matar o simbolismo da construção que se ergue?” p.259

Nunca tinha lido um livro sobre o Campo de Concentração do Tarrafal. Conheci o espaço em 2016, numa viagem que fiz à Ilha de Santiago e de facto, enquadrar a narrativa do livro naquele espaço é absolutamente arrepiante. Contudo, não é preciso conhecê-lo para, com bastante precisão ser possível vislumbrar o quão tortuoso foi o dia a dia de quem por lá passou, portugueses, angolanos, guineenses e cabo-verdianos.
Um livro cuja leitura recomendo vivamente.
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421 reviews14 followers
May 30, 2022
Um relato impressionante e diversificado sobre o(s) horror(es) do Campo de Concentração do Tarrafal. Para que a memória não se perca. Formidável!
Profile Image for Sónia Santos.
182 reviews29 followers
June 21, 2024
_Morriam-nos, para não nos matarem, este era o segredo,
Afirmou: Se nos matassem, a culpa seria deles; se nos deixássemos morrer, o ónus seria levianamente nosso.


Nos 50 anos do encerramento do Campo de Concentração do Tarrafal, a pior prisão do Estado Novo, chega-me às mãos um dos mais emotivos e poéticos livros sobre o tema. E faz-me questionar: como é possível escrever de forma tão bela sobre algo tão tétrico??

Multiplicação dos pães
Há dias que escuto cânticos longínquos de mulheres no batuque. Elas dão à noite uma saudade distante, e embalam-nos como infantes em colos de esquecimento.
O frio rouba-nos a luz, o sol rouba-nos o ar. Ficamos tão desidratados que a sede grita. Pedimos água aos berros, mas este lugar é tão surdo que nem o eco nos responde. Instintivamente, aproximamo-nos da parede e lambemos as gotas da nossa respiração que pendem do tecto quais lágrimas de catacumbas.
Nunca me foi tão claro o que sempre me pareceu incompreensível: tempo e espaço são a mesma coisa. Perdemos a noção do espaço e, irremediavelmente, perdemos também a noção do tempo. O ciclo ténue do claro-escuro esvanece-se pelo cansaço dos olhos. Qualquer luz já é demasiada luz. Manhã e noite já nos parecem às avessas. Não sabemos se o crepúsculo é a aurora que se levanta, ou o ocaso que se deita. Podíamos contar o tempo pelo pão, mas não há uma réstia de tempo nesta cela, comemos toda a nossa referência.
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