Tenho sempre receio de reler um livro que já marcou tanto em algum momento da vida. E se a nova leitura não for tão impactante quanto a anterior? Assim foi com este livro, que causou lá atrás imensas micro-revoluções. Não tanto pelas ideias de Boff, com as quais discordo em alguns pontos (e concordo em outros), mas pela metáfora águia-galinha. Aliás, a metáfora, por si só, vale todo o livro.
Sobre a obra como um todo, em algum momento me pareceu um pouco confuso seu ponto principal. Inicialmente, Boff parece expressar a ideia da necessidade de reconciliar dualidades - corpo e alma, religião e fé, realismo e idealismo, pés e cabeça ou asas, águia e galinha, etc. É um argumento interessante, mas não totalmente coerente com a metáfora adotada. Estamos falando de uma águia sendo criada como galinha, ou seja, fora de sua natureza, e não de um ser com duas naturezas que lhe são intrínsecas, embora irreconciliadas. Se a galinha é definida por Boff como sendo as coisas materiais, qual a relação com a ideia de libertação do cativeiro? A exaltação do mundo das ideias, espiritual, idealista volta a ser dualidade, à qual o autor diz que é preciso vencer. Me pareceu contraditório, mas pode ser também que não o compreendi totalmente aqui.
A segunda parte, a partir do final do capítulo 5, é mais coerente tanto com a metáfora da águia criada como galinha, quanto da teologia da libertação de Boff. Em alguns momentos, porém, fica um pouco cansativa a constante inserção de ideias variadas e frases de efeito, que poderiam ser enxugadas.
A grande lição que fica: embora vamos sempre enxergar o mundo a partir dos lugares que pisamos e nos quais fomos criados, um pouco de asas, de idealismo e de fé podem sempre estar na ordem do dia. Temos todos em nós um pouco de águia ferida, com suas crenças limitantes, olhando para baixo e vivendo em um galinheiro fechado. Mas permanece uma esperança, a de que o voo em direção ao sol e a libertação do cativeiro pode um dia chegar para todos nós.