Em cada uma das poucas páginas deste tratado o Doutor Zeloso discorre maravilhosamente sobre o assunto mais importante da existência humana: o fim sobrenatural da alma na Glória de Deus e o caminho santificante. Porquanto está escrito “Sede santos, porque eu sou santo.” (1 Ped 1:16).
E o que seria a santidade, senão a união em vida do homem com Deus, no limite que as contingências mortais e a finitude nos permitem, até a felicidade eterna e sobrenatural no Céu após a morte do corpo?
Unir a vontade desordenada e particular do homem à santíssima e ordenada Vontade do Senhor, para querer aquilo que Ele quer e do modo que Ele deseja, de tal maneira que não haja mais vestígios do velho homem do pecado mas apenas a livre e pura vontade de um servo em perfeita congruência com seu perfeito amo. Faze-mo-lo não de forma parcial, mas total e absoluta, abraçando bens e males, infortúnios e alegrias como provindas da mesma origem na permissão de Deus, mesmo que seja contra o nosso amor próprio. Sejam sofrimentos carnais nas dores e desagrados ou espirituais nas tentações e na secura espiritual, resignar-se ao que Deus permitiu é ama-lo e reconhecer ao mesmo tempo a pequenez de si mesmo e a infinita sabedoria do Senhor. Lembremo-nos do que diz o Apóstolo: “Sabemos que Deus age em todas as coisas para o bem daqueles que o amam, dos que foram chamados de acordo com o seu propósito.” (Rm, 8,28). E como duvidar que o propósito universal da pessoa humana é a união com o seu Criador? O retorno em vida e morte para o Ser por excelência, para o Logos Eterno do qual somos partícipes em sua imagem e semelhança, que dá e mantém todos os entes na existência em perfeita Ordem ontológica.
Renunciar ao amor e à obediência da vontade de Deus, por amargura, tibieza ou desagrado seria pois, a mais sofrida e ignóbil morte da alma, seria o aviltamento supremo do próprio homem e a traição da criatura para com o Criador, esse que sofreu e padeceu para vencer a morte do pecado e nos dar a Vida na bem-aventurança.
Para que essa terrível traição não aconteça, é necessário, antes de tudo, rezar e fazer como o próprio Cristo rezou e fez: “Que seja feita a Vossa vontade assim na terra como no Céu.” Não os meus desejos mas os Vossos, para que em sofrimento eu também não te abandone: “É um amigo e companheiro à mesa, mas me deixará no dia da aflição” (Ecl 6,10).
A satisfação de amar a Deus sobre todas as coisas e viver a doutrina que Ele nos deixou, dando-lhe graças por tudo, principalmente pelas inquietações e sofrimentos, imitando a voluntariedade amorosa do próprio Deus encarnado durante a sua Paixão e morte de Cruz. Eis a paz perpétua e verdadeira felicidade do homem, não se elevar na prosperidade nem ser abatido na adversidade, mas cumprir a vontade divina como o Filho e os Santos a cumpriram.