O ódio como política: a reinvenção das direitas no Brasil | Esther Solano Gallego
Esther Solano Gallego, socióloga, organiza essa coletânea de ensaios tão necessária nos dias atuais. Além dos textos, essa edição da Boitempo vem com Prólogo de Gregório Duvivier e com charges de Gilberto Maringoni, Laerte e Luiz Gê. Para tornar o livro ainda mais acessível a todos, os autores abriram mão de receber remuneração pela publicação de seus textos e artes. Abaixo, encontram-se comentário sobre cada um dos ensaios.
Miguel pinta um retrato da direita e como está radicalizou seu discurso no Brasil com base no liberalismo, no fundamentalismo religioso e no anticomunismo.
Almeida expõe a relação do neoconservadorismo e do liberalismo como duas faces da mesma moeda, ambos buscando a manutenção da sociedade capitalista, uma menor intervenção do estado (principalmente da sua faceta de assistência social) e a conservação de valores tradicionais.
Carapanã expõe como o fantasma atualmente propagado pela extrema direita, o “Marxismo Cultural”, se assemelha ao “bolchevismo cultural”, o qual era amplamente propagado pelo Partido Nazista ao denunciar movimentos modernistas nas artes. O autor chama a atenção para o quão perigoso é promover a normalização dessa teoria da conspiração pois ela costuma trazer consigo outras teorias herdadas de governos nazifascistas: a teoria da degeneração cultural e/ou racial, por exemplo.
Casimiro destrincha a série de aparelhos privados que servem de base para a chamada nova direita e demonstra que o crescimento e que a radicalização desse movimento tem origem ainda nas décadas de 80 e 90 com a fundação de organizações liberais e o estreitamento de laços entre membros da burguesia brasileira.
Rocha mostra que a militância da direita no Brasil tem certa organicidade e não pode ser explicada somente pela maior disponibilidade de recursos financeiros e organizacionais.
Pinheiro-Machado e Scalco estudam a maior periferia de Porto Alegre desde o auge do lulismo e acompanharam sua queda e o surgimento da onda bolsonarista. As autoras haviam identificado nos rolezinhos, fenômeno dos anos de 2011 e 2012, uma semente de insurgência e em 2016 se surpreenderam ao ver essa juventude pender para o lado conservador, especialmente os meninos que temiam a desestabilização da masculinidade hegemônica.
Ferréz divaga sobre as facetas e as vivências da periferia numa prosa poderosa e clara.
Teles descrevem como o Estado promove a militarização da política e da vida cotidiana (ação em favelas, políticas de controle, escolar públicas “militarizadas”) através da criação de subjetividades “de risco” as quais permitem o uso de ações ilícitas dentro do cenário democrática.
Casara discute como a norma, resultado do texto jurídico e da ação do intérprete, pode ser aplicada de formas autoritárias mesmo partindo de textos com tendências democráticas. Afinal, tudo depende da tradição em que o interprete está inserido, geralmente conservadora, e que máscara essas intenções através de um discurso de neutralidade das das agências do sistema de justiça. O autor também demonstra como as tendências conservadoras dos atores jurídicos se transformam em práticas explicitamente ligadas a chamada “nova direita”, com a adesao do Poder Jurídico à racionalidade neoliberal.
Rossi e Dweck ressaltam que o discurso de austeridade na economia é carregado de moralidade a fim de tentar justificar uma série de sacrifícios que, na realidade, são altamente seletivos e contraproducentes.
Ribeiro investiga a direita através de páginas conservadoras e liberais no Facebook, analisando as interações que os leitores têm entre si, identificando assim alguns clusters (nós com altos números de ligações): páginas de apoio policial, páginas patriotas, páginas defensoras do liberalismo econômico e páginas conservadores em termos morais. O autor destacou também os pontos em comum entre a visão dos clusters, como a ideia da esquerda, do comunismo e do Partido dos Trabalhadores como os principais inimigos a serem combatidos.
Vieira como o fundamentalismo religiosa é um olhar que não se reconhece como tal, que confunde-se com uma ideia de verdade absoluta e, a partir disso, impossibilita o diálogo e invisibiliza outras formas de viver a religião. O autor olha também para o extremismo religioso, que é quando o fundamentalismo se radicaliza em “ações truculentas e em projetos de poder” como vem acontecendo no Brasil com certos grupos católicos e evangélicos. Vieira nos mostra que a saída não se trata de uma atitude antirreligiosa, mas na defesa do Estado laico e no apoio a grupos que olham para o texto religioso a partir da perspectiva dos oprimidos.
Bulgarelli faz um relato de como a direita especialmente a bancada evangélica, tem resistindo aos avanços dos direitos da população LGBTI. O autor também discorre sobre como a chamada “ideologia de gênero” se trata de uma redução de uma complexa discussão ao nível de uma doutrinação ideológica.
Ribeiro destaca a importância de lutar pela cidadania da mulher em um país que parece sentir saudades de seu tempo colonial e que interrompe violentamente a trajetória política de mulheres como Dilma e Marielle. Além disso, a autora faz uma crítica ao feminismo “pop” que se dobra ao capital e se mostra mais como estilo de vida do que uma luta coletiva e emancipatória.
Penna comenta o projeto de lei “Escola Sem Partido”, mesmo tendo sido provada a sua inconstitucionalidade, este continua a causar impacto na vida de professores que sofrem com a perseguição daqueles que acreditam que somente a família e a religião poderiam educar as crianças e jovens. Porém, com consta na nossa Constituição, é dever tanto da escola quanto da família educar para o exercício da cidadania, e a única forma de fazer isso é através de uma educação democrática.