O terceiro livro dedicado ao Brasil da premiada escritora e jornalista portuguesa Alexandra Lucas Coelho parte de uma provocação de Caetano Veloso. Ao elogiar, em ocasião do lançamento da edição brasileira do romance Deus-dará, em 2019, os livros anteriores da autora, o compositor baiano declarou: "falta Bahia". Alexandra concordou e resolveu mergulhar nas suas experiências em terras baianas para escrever este novo livro, uma combinação de ensaio, reportagem e crônica. A partir das viagens realizadas em épocas distintas (primeira volta: 1997, segunda volta: 2016, terceira volta: 2017, quarta volta: 2019 e quinta volta: promessa), a escritora constrói um vivo retrato da Bahia, primeiro ponto de contato entre Brasil e Portugal, tendo em foco a história, a cultura popular, a religiosidade, os personagens e as heranças da colonização portuguesa, que fazem da Bahia um recanto singular. Tudo costurado com olhar atento e crítico, o que é uma marca da autora, e com música, naturalmente. Afinal, mais que uma inspiração, Caetano Veloso é também personagem desse périplo engajado e amoroso pela Bahia de todos os santos, todas as cores, todos os sons e tempos.
ALEXANDRA LUCAS COELHO nasceu em Dezembro de 1967. Estudou teatro no I.F.I.C.T. e licenciou-se em Ciências da Comunicação, pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Trabalhou dez anos na rádio continuando ainda hoje a colaborar com a RDP. Desde 1998 é jornalista no Público. A partir de 2001 viajou várias vezes pelo Médio Oriente / Ásia Central e esteve seis meses em Jerusalém como correspondente. Foram-lhe atribuídos prémios de reportagem do Clube Português de Imprensa, Casa da Imprensa e o Grande Prémio Gazeta 2005. Mantém o blogue Atlântico-Sul, onde publica as suas crónicas que escreve para o Público.
Em 2007 publicou «Oriente Próximo» (Relógio D’Água), narrativas jornalísticas entre israelitas e palestinianos. Publicou mais quatro livros de reportagem-crónica-viagem: «Caderno Afegão» (2009), «Viva México» (2010), «Tahrir» (2011) e «Vai, Brasil» (2013). Em 2012 escreveu o seu primeiro romance, «E a Noite Roda», vencedor do Grande Prémio de Romance e Novela APE 2012. Publicou, recentemente, «O Meu Amante de Domingo» (2014).
Embora a literatura de viagem não seja a que mais me arrebata, tenho dado por mim a agarrar-me a esta tipologia de livros para me resgatar a lugares que 2020 (e 2021) não me permitiu ver com os meus olhos. Foi assim que peguei no Cinco Voltas na Bahia e um Beijo para Caetano Veloso, com uma vontade gigante de ir ao Brasil.
Só durante a leitura é que descobri que este é o livro que fecha uma trilogia de livros de literatura histórica que Alexandra Lucas Coelho escreveu, sobre o impacto dos Descobrimentos na cultura e evolução do Brasil. Caetano Veloso — artista por quem a autora é apaixonada — respondeu-lhe que ‘Falta Bahia no seu livro’. E assim ela aceitou o desafio, escrevendo este livro (que não precisa da leitura dos outros dois para ser compreendido e devorado) num contexto mais descontraído e casual, onde parte para conhecer a Bahia, lugar de encanto e protagonismo de tantos artistas, não só de Caetano Veloso mas também de Maria Bethânia e de João Gilberto. Bahia com H.
Não conhecendo a voz da autora, dei por mim a ler a narrativa pela memória da voz especial de Adriana Calcanhotto e assim ficou no resto dos capítulos, um sotaque brasileiro em prosa portuguesa que casou com arte nesta leitura. É um livro que se lê num sopro mas fica connosco durante muito tempo, que nos transporta para todos os lugares que Alexandra Lucas Coelho vai descrevendo e contextualizando historicamente e ainda as figuras que resgata e embrulha com um pouco de opinião política e social — quem diria que seria aqui que ia ler a melhor opinião sobre a revolução das estátuas?
Cinco Voltas na Bahia e um Beijo para Caetano Veloso tem a música perfeita — e lê-se a ouvir essa música — tem cheiro de mar e toque de tecidos de algodão branco. Li no começo gelado do ano mas, enquanto o tive nas mãos, saboreei de um calor tropical que espero, um dia, voltar a sentir. Talvez não por palavras tão perfeitas como a autora soube escolher, mas através dos meus olhos. Seguramente, um dos melhores livros de 2021.
Este livro faz-nos querer viajar até à Bahia. Não aquela Bahia all-inclusive mas a terra-mãe, a tal síncrese de religiões, cores, sons. As descrições dos espaços são levadas ao pormenor, transportando-nos até lá. Quando este livro é bom, é bom mesmo.
É bom quando nos dá factos interessantes, como a vida de Jorge Amado, a origem de “rodar a baiana”, os contos sobre as culturas locais. Quando nos faz pensar que o processo de miscigenação de que tanto os portugueses se orgulham é a sucessiva história de violações consecutivas, que é necessária uma segunda vaga de libertação e que nada há na chegada dos portugueses ao Brasil que deva ser motivo de orgulho.
Este livro faz-nos repensar a língua portuguesa como não sendo língua de Portugal, mas de todos. Uma grande mãe língua.
O livro é algo estranho na divinização da figura de Caetano Veloso. Pessoalmente, amo Caetano, Bethania e Gal, vivo rodeado de toda aquela tropicália desde criança. Acho que aprendi a falar Caetano antes de aprender muitas das palavras que conheço. Mas aquela obsessão, no livro, é demasiado.
É demasiada também a descrição, o “name dropping”, as experiências pessoais que não são assim tão interessantes. E, por fim, é constrangedora a utilização da variante brasileira do português só porque sim.
O livro deixou-me indeciso, entre um enorme progressismo e reflexões brilhantes e um certo (e não intencional) apropriamento cultural. Confesso que passei muitas páginas à frente. É um exercício algo forçado de agradar a Caetano e uma deificação estranha do cantor e da Bahia.
Este é o terceiro livro que a autora escreve sobre o Brasil, é um livro de viagens (cinco) e de memórias. A trilogia contempla Vai, Brasil (2013- crónicas sobre o país) e Deus-dará (2016- sobre o Rio de Janeiro). Caetano Veloso achou que nestes relatos anteriores “faltava Bahia”. Ele queria que Alexandra Lucas Coelho dedicasse um livro à sua terra natal, ao seu estado, à cidade de Salvador, o Recôncavo baiano, o “primeiro lugar entre Portugal e Brasil”, terra de Jorge Amado (dos Capitães da Areia), terra de novelas. “Foi o clique para este livro aparecer, com título, índice, pela ordem das viagens”. (p.16) Ainda bem que ALC aceitou o desafio. Temos, assim, a descrição desta região sob o olhar e as emoções da autora. Registos obtidos em vários momentos (foram cinco as idas à Bahia) que relatam os seus encontros com baianos, amigos, artistas; as suas vivências em festas, festivais, rituais, passeios por Salvador, por Santo Amaro da Purificação, pelas praias… ; a religião, a gastronomia e sobretudo a música de Caetano. Estamos perante uma fusão de cores, de sabores, de sons, de ritmos, de emoções, de afectos.
Concluo com um “Apetece Bahia!”. Fica mesmo a vontade de conhecer este estado tão rico em história e cultura. (Não vislumbrando uma visita in loco, fica a promessa de uma descoberta virtual).
Cinco Voltas na Bahia e um Beijo para Caetano Veloso é um fim maravilhoso para a trilogia constituída por Deus-dará e Vai, Brasil. Na realidade, Caetano tinha mesmo razão quando disse à Alexandra Lucas Coelho que faltava a Bahia no deus-dará. E não é que este livro é maravilhoso?
Diga a Alexandra o que quiser, aprecio mais a sua escrita quando narra viagens. Tem o condão de me transportar realmente até os lugares onde esteve, faz-me querer estar lá (e só eu sei o quão difícil isso é para mim, enquanto leitor). Bahia está, com todo o encanto, neste livro. Cinco viagens são narradas e acompanhadas por um pouco de história, que liga Portugal ao Brasil. Ao contrário de deus-dará, o passado é colocado de forma mais esporádica e Alexandra deu mais importância aos lugares e às pessoas com quem esteve. Se é que foi planeado, já que literatura de viagens é isto mesmo: tantas vezes improviso, depois de tanto planeamento.
Este é um livro realmente bom para os que querem voltar ao Brasil, desta vez à Bahia. A Alexandra é capaz de o fazer como ninguém!
4 estrelas porque faltou explorar mais sobre a quarta e a última volta, na minha opinião.
Adorei Deus-Dará, tenho saudades da Bahia e escuto Caetano Veloso religiosamente todo dia (ou quase), mas fiquei muito decepcionada com esse livro. A autora escreve muito bem então é uma boa aula de história da Bahia, mas entrecortada de muitas anedotas pessoais não necessariamente muito interessantes e uma admiração tão incondicional pelo Caetano que chega a ser meio esquisita.
«Por tudo o que aconteceu, Portugal não é irmão do Brasil. Tem que o saber, e entender porquê, começando, por exemplo, pela Bahia.
Mas pode, sim, por tudo o que aconteceu, e por muito do que o Brasil fez com isso, incluindo a música, amar o Brasil. O que passa por aqui: saber mais sobre como foram e o que fizeram os portugueses, e quem eram e o que fizeram esses milhões de pessoas, indígenas, africanas, cujas vidas as naus mudaram para sempre, descendente em descendente, até hoje, aos vivos. É por isso que aqui estamos, um e um. E cada dois de nós, português, brasileiro, pode, sim, tornar-se irmão, mãe, pai, tio, tiete, primo, namorado, cunhado, amante, compadre, confidente, leitor, amigo do peito, fã de carteirinha. Dormir até de conchinha.»
Uma verdadeira viagem sem sair do lugar - a única que nos é agora permitida - e que nos leva até Bahia com agá. Esse lugar mágico e místico que é um melting pot complexo de pessoas culturas arte e religiões. Só tenho pena de não ter aproveitado mais este livro fruto da minha própria ignorância, mas despertou a minha atenção para muitos temas. Espero relê-lo mais tarde, idealmente a bordo de um voo transatlântico Lisboa - Salvador.
Nos observarmos sob o ponto de vista do colonizador português em 2020 pode parecer pouco animador, é verdade. No entanto, Alexandra Coelho aterrisa na Bahia e consegue captar de forma leve, poética e NADA superficial a essência do que nos formou, sem deixar de lado todas as questões que ressoam desde a época Brasil-colônia.