O HOMEM QUE APRENDEU O BRASIL: A VIDA DE PAULO RÓNAI.
Ana Cecília Impellizieri Martins.
Eu realmente gostei muito dessa biografia, não conhecia bem Paulo Rónai, tinha lido coisas um pouco anedóticas sobre ele aqui e ali, sobre sua relação com Aurélio Buarque de Holanda.Quando li Budapeste, fui procurar informações e descobri que Chico Buarque se inspirou na vida deste escritor húngaro para escrever o livro, criou um personagem que fez o percurso inverso, ao invés de sair da Hungria e vir para o Brasil, ele vai do Brasil para a Hungria e não só aprende o idioma magiar como passa a escrever nessa língua e a participar do meio literário local.
Enfim, a vida de Paulo Rónai foi sem dúvida única e surpreendente, foi salvo das garras do nazismo graças à sua persistência, sua capacidade de criar conexões com as pessoas certas. Infelizmente, apesar de todo o seu empenho, não pode salvar sua primeira mulher, também judia. Ela e sua mãe desapareceram, não foi possível saber exatamente como morreram, mas é certo que foram vítimas da fúria insana daquele momento. Mais tarde, Paulo Rónai consegue trazer quase toda a sua família para o Brasil e todos, exceto sua mãe, se tornam cidadãos brasileiros. Não foi tarefa fácil, entretanto, o Estado Novo não tinha simpatia pelos judeus. Ele recebeu o visto baseado numa regra de exceção, ou seja, apesar de ser judeu.
Aqui uma das regras para dar uma ideia:
“Será recusado visto a pessoa que for de origem semítica e, em caso de dúvida, as autoridades poderão retardar a concessão do visto até que, por meio de investigação, se consiga esclarecer a dúvida.”
E a exceção:
“Quando a circunstância de origem semítica se verificar em relação a pessoas de notória expressão cultural, política e social, assim como em relação a artistas especialmente contratados para se exibirem no Brasil, por tempo determinado, poderão os respectivos passaportes ser visados, mediante consulta prévia a esta Secretaria de Estado e sua indispensável autorização para que assim se proceda.”
Várias páginas são aqui dedicadas a comparar Stefan Zweig e Paulo Rónai o que não me surpreendeu pois enquanto lia eu tinha em mente as tais semelhanças, dois escritores judeus, europeus (o irmão de Zweig tinha passaporte húngaro), com vasta cultura e que, compelidos a emigrar, terminaram suas vidas no Brasil, Zweig de forma trágica, ao contrário de Rónai, ele não se integrou, não aprendeu a língua, era mais velho, sofria com a depressão e foi engolfado pelos tempos sombrios. Os dois não se conheciam, mas esse fato não impediu que Rónai se desesperasse e temesse cair no mesmo poço, foi desabafar com Drummond e este respondeu:
“Zweig não conheceu as pessoas certas. Sua história é outra, meu caro amigo”.
E era mesmo, Paulo Rónai se integrou perfeitamente à sua nova pátria, não só aprendeu a língua portuguesa como fez dela seu instrumento de trabalho, coisa que eu nunca vou cansar de admirar tendo em vista a distância entre a nossa e a sua língua materna. É verdade que ele tinha um perfeito domínio do francês e isso ajudava, ainda assim é impressionante. Ele dizia que trabalhava para merecer seu destino e fez muito divulgando escritores brasileiros na Europa e húngaros (e franceses, traduziu Balzac) no Brasil.
O primeiro contato de Rónai com a literatura brasileira se deu, na verdade, em francês e foi com Dom Casmurro, disse ele:
“Uma literatura que tinha romancista daquele porte não podia deixar de interessar-me”.
Rónai dizia que era professor acima de tudo, nunca ensinou na universidade no Brasil, como diz a autora dessa biografia, quem perdeu foi a universidade.
No Brasil ele participou ativamente da vida literária e foi amigo de escritores como Carlos Drummond de Andrade, Guimarães Rosa, Cecília Meireles e muitos outros nomes conhecidos nossos. Ele foi um dos primeiros a escrever sobre Grande Sertão:Veredas e a reconhecer a grandeza da obra e de novo eu repito, é impressionante que Rónai tenha sido capaz de reconhecer o valor de uma obra que é difícil até mesmo para um leitor lusófono. A paixão pelas línguas e pela linguagem aproximou os dois escritores que passaram a colaborar um com o outro.
Casou-se, teve duas filhas brasileiras (como ele mesmo afirmava), uma delas a conhecida jornalista Cora Rónai, faleceu em 1992 aos 85 anos.