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O homem que aprendeu o Brasil: A vida de Paulo Rónai
Europa, 1940. Milhões de judeus estão condenados. Não há saída: o resto do mundo não os quer. Brasil 1941. Um jovem intelectual judeu, Paulo Rónai, chega à segurança do Brasil com o impossível visto legalmente obtido. Como o conseguiu? A resposta é tão inusitada quanto sua vida e carreira, narradas com elegância por Ana Cecilia Impellizieri Martins. O que valeu a Rónai o salvo-conduto foi aprender português sozinho e publicar, às vésperas da guerra, uma antologia de poesia brasileira que reunia Bandeira, Cecília Meirelles, Mário de Andrade e Drummond (alguns deles se tornariam seus amigos). No Brasil, Rónai tornou-se brasileiro, um dos grandes intelectuais brasileiros do século XX.
- GenresNonfiction
384 pages, Paperback
First published January 17, 2020
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Community Reviews
Displaying 1 - 10 of 10 reviews
January 23, 2022
Bônus do livro: descortina a convivência, ambígua, dos artistas da época com a ditadura Vargas.
A impressão que fica é a de que os artistas sem relações pessoais robustas com a Corte-cultural-varguista- carioca tinham vida mais difícil do que os demais.
Como bem se sabe, Drummond de Andrade era Chefe de Gabinete do Ministro Capanema...
Naturalmente gregário, Ronai nadou de braçada: ficou amigo de todo mundo, foi figurinha fácil em
convescotes.
Infelizmente, a forma como o livro se debruça sobre esses a inserção na vida literária do país do exilado húngaro deixam em segundo plano a contribuição do tradutor para a "cosmopolitização" do acervo literário disponível no Brasil.
Também fez falta alguma avaliação mais aprofundada dos possīveis dilemas enfrentados pelo autor exilado.
Talvez a escolha de se concentrar nas cadernetas - inéditas - encontradas em Nova Friburgo tenha colocado em menor relevo possíveis contatos com contemporâneos ainda vivos - que poderiam ter enriquecido a perspectiva pessoal.
A impressão que fica é a de que os artistas sem relações pessoais robustas com a Corte-cultural-varguista- carioca tinham vida mais difícil do que os demais.
Como bem se sabe, Drummond de Andrade era Chefe de Gabinete do Ministro Capanema...
Naturalmente gregário, Ronai nadou de braçada: ficou amigo de todo mundo, foi figurinha fácil em
convescotes.
Infelizmente, a forma como o livro se debruça sobre esses a inserção na vida literária do país do exilado húngaro deixam em segundo plano a contribuição do tradutor para a "cosmopolitização" do acervo literário disponível no Brasil.
Também fez falta alguma avaliação mais aprofundada dos possīveis dilemas enfrentados pelo autor exilado.
Talvez a escolha de se concentrar nas cadernetas - inéditas - encontradas em Nova Friburgo tenha colocado em menor relevo possíveis contatos com contemporâneos ainda vivos - que poderiam ter enriquecido a perspectiva pessoal.
May 3, 2021
Uma bela homenagem a Paulo Rónai e para o trabalho de tradutor. 🖤
April 15, 2026
Quem admira uma pérola, na maioria das vezes, não se dá conta do tempo e do processo necessários para que ela viesse a se tornar uma pérola. Essa metáfora, muito bem utilizada pela própria Nora Rónai, é cirúrgica.
Tradutor, editor, filólogo, escritor, entre diversas outras coisas, Paulo Rónai era, sobretudo, um homem verdadeiramente literato. A vida deste homem das letras ganha destaque pela voz da jornalista Ana Cecilia Impellizieri Martins. no o livro “O homem que aprendeu o Brasil” lançado pela editora Todavia em 2020.
Eu lembro que, quando eu ouvi falar sobre o Paulo Rónai alguns anos atrás, fiquei extremamente curiosa com a história deste homem húngaro e judeu que fugiu da perseguição nazista e se refugiou no Brasil, entrgando-se ao serviço da literatura e tornando-se um um pilar da literatura brasileira. Mas, até então, eu sabia muito pouco.
O pai de Paulo Rónai era livreiro e, portanto, não é exagero dizer que o menino Paulo cresceu em meio aos livros desde novinho, desenvolvendo um amor que iria tornar-se seu ofício e paixão. Aos 23 anos, Paulo obtinha o título de doutor em filologia e línguas neolatinas — gramática e literatura francesa, latina e italiana.
A autora traz um bom panorama histórico na qual o Rónai vivia. Além do genuíno interesse que o jovem cultivava pelas língas e literatura, o povo húngaro, de modo geral, desenvolvia um grande “apetite cultural”. Segundo a autora, o “que irmanava esses homens, além de serem produto de uma mesma época e de uma sociedade atenta à educação e que incentivava e prestigiava atividades intelectuais, era o desejo incontido de todos por modernização.”(p. 20)
Rónai já trabalhava como professor de françês e explorava a tradução como uma forma de degustar as palavras. Nesta altura, no entanto, as primeiras leis antijudaicas começam a surgir em maio de 1938. Rónai, por ser judeu, já sofria com estas restrições sendo até mesmo impedido de ingressar na universidade.
No meio deste ambiente de hostilidade crescente, Rónai começa a aprender português, até mesmo para a minha surpresa. Antes de conhecer mais intimamente a sua história, simplesmente presumi que ele havia aprendido português ao chegar no Brasil. Mas essa história de amor começou muito antes: em 5 de abril de 1938 encontra-se o primeiro registro no seu diário de ler uma poesia brasileira e de tentar traduzi-lá. Logo em seguida, leu Dom Casmurro em uma edição francesa. Segundo as suas próprias palavras, “uma literatura que tinha romancistas daquele porte não podia deixar de interessar-me.”
E pasmem: mesmo sem entender bem o português, o jovem Rónai já se aventurava em traduzir os poemas. Confesso que fiquei impressionada com a dedicação e empenho. Mesmo com poucos recursos, ele achava uma forma de encontrar livros em português, solicitando a amigos e até mesmo indo ao consulado brasileiro na Hungria para pedir mais e mais livros. A própria autora destaca:
De fato, impressiona como Paulo Rónai teve acesso, ainda na Hungria, a um repertório não somente variado como também aprofundado do Brasil. Seu interesse partiu da formação do país para em seguida revelar como o processo de construção e miscigenação moldou a língua e, consequentemente, seu modo de falar e escrever. (p.87)
Enquanto se mergulhava em poesia e literatura brasileira, Rorái e sua família já sondavam possibilidades de fugir a algum país da América Latina. Esforçado, Rónai, que se já havia criado uma afinidade genuína com o Brasil, já pensava em formas de como chegar lá. Nesta altura, Rónai também estava noivo de uma jovem húngura e também judia, Magda Péter, na qual tentou com todos os seus esforços viabilizar a sua vinda (infelizmente, ela acabaria assassinada pelos nazistas).
O seu amor por línguas e tradução seriam a chave que poderia abrir as portas de saída de uma Europa ameaçadora. Pode-se dizer que ele cosntruiu, aos poucos, e de forma sólida uma ponte com o Brasil por meio da literatura. A vinda de Paulo Rónai ao Brasil é custoso. Irei dar um salto no tempo, mas já quero destacar que a Ana Cecilia dedica um bom tempo a descorrer sobre todos os detalhes deste processo e nós acompanhamos com o coração na mão na medida que a força nazista apertava para os judeus. O próprio Rónai ficou na prisão em um campo de concentração por determinado tempo.
Graças a sua amizade por cartas com o Ribeiro Couto, um jornalista e diplomata brasileiro, o jovem húngaro chega no Rio de Janeiro em 3 de março de 1941. Já na Húngria, Rónai já se comunicava com outros autores brasileiros e, ao chegar no Brasil, não perdeu tempo em econtrá-los. Uma nova vida se inicia.
Uma coisa que me impressionou no Paulo Rónai foi o seu empenho e interesse genuíno pelos outros. Assim que chegou, já bateu na porta da casa de Cecília Meireles e Carlos Drummond de Andrade. Eles seriam amigos preciosos e de longa data, aliás. De fato, Rónai travou um encontro de espíritos afins com muitos autores, cercando-se rapidamente do meio literário no Rio. Quatro meses após sua chegada, Paulo Rónai já estava empregado e dominava inteiramente o português escrito e falado.
Como todo processo de imigração, há sempre aquele sentimento agridoce que vem desse lugar da adaptação de um novo lugar, uma nova cultura e do que você deixa para trás, ou melhor, as pessoas que você deixa para trás. Sendo eu mesma imigrante, este tema toca no meu íntimo.
Em contraponto, a autora pincela a vida de outro autor que tem fortes semelhanças com o Rónai: o escritor austríaco Stefan Zweig. Ambos filhos do Império Austro-Húngaro, judeus e homens de letras que se refugiaram no Rio de Janeiro. Certamente os dois seriam bons amigos se tivessem a chance de se conhecer pessoalmente. Mas apesar das semelhanças, o processo de imigração destes dois literatos seriam drasticamente diferentes.
Acreditando que o nazista Adolf Hitler se tornaria senhor da Europa, Zweig ficou cada vez mais deprimido com o crescimento da intolerância e do autoritarismo crescente. Apesar de ter sido recebido com entusiasmo pela comunidade intelectual local, ele e a esposa viviam de forma reclusa, sem nunca conseguir encontrar uma aderência cultural, social ou afetiva. Muito provavelmente, Stefan Zweig sofria de uma doença de diagnóstico já conhecido: mal de exílio, patologia gerada pela dor do impedimento da volta para casa e marcada pela obsessão do regresso.
Como consequência, o autor austríaco e a esposa mataram-se em 1942. Um fim trágico demais que abalou até mesmo o própro Rónai assim que soube desta notícia.
Mas Paulo Rónai teria um destino diferente. Apesar de todas essas semelhanças de origem e apesar de toda melancolia que o envolvia por ter a família e a noiva em constante perigo, Rónai, segundo a autora, “(…) Fez de sua produção e da própria vida um atestado de sua abertura às possibilidades que o Brasil lhe oferecia”.
De fato, Rónai encontrou resiliência e, sobretudo, acolhimento nos seus amigos. Drummond afetuosamente o lembrou: “Zweig não conheceu as pessoas certas. Sua história é outra, meu caro amigo”. Uma das coisas mais bonitas de acompanhar nesta biografia é ver como ele encontrou alento e afeto em amizades profundas. Ele era alguém verdadeiramente interessado no outro e percebe-se o respeito e admiração mútua nas suas amizades. Entre elas, há alguns nomes de destaque como o já citada Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Guimarães Rosa, Aurélio Buarque de Holanda Ferreira e muitos outras pessoas de peso no meio literário.
Aliás, a amizade com Guimarães Rosa renderia uma longa parceria, gerando uma produção crítica literária sem comparação. Ao longo de mais de três décadas, Rónai originou um conjunto de crítica literária sobre o Guimarães Rosa. Mesmo após a morte do autor, Rónai foi designado administrador de suas edições, organizando as suas obras póstumas. Como a autora muito bem registrou, tornar-se interlocutor de Guimarães Rosa foi o arremate para a sua inserçào cultural no país.
Em simultâneo, Rónai crescia no meio editorial e ainda dava aulas. Como destaque na sua longa carreira, temos os seus manuais Gradus Primus e Gradus Secundus para o ensino de latim e cultura clássica nas escolas brasileiras em 1954, o seu famoso livro de ensaios Como aprendi português e outras aventuras, o trabalho minucioso e gigantesco de revisão, anotação, introdução e comentário da Comédia Humana, de Balzac, publicada pela Editora Globo, organizou a coleção de contos Mar de Histórias (Ed. Nova Fronteira), a Antologia do conto húngaro, além da tradução de Os Meninos da Rua Paulo, que tornou-se muito conhecido no Brasil e seus livros sobre téoricos sobre tradução Escola de tradutores (1952) e A tradução vivida (1981).
A sua contribuição é vasta. Não é à Rónai tornou-se também um dos grandes críticos literários no Brasil. Registro aqui as palavras de Guimarães Rosa, “Só o Paulo Rónai e o Antonio Candido foram os que penetraram nas primeiras camadas do derma; o resto, flutuou sem molhar as penas”.
_____
Após finalmente ter toda a sua família no Brasil, Rónai encontra uma nova fonte de alegria: em Em 1951, aos 44 anos, ele conhece a arquiteta Nora Tausz, nascida numa família de judeus ítalo-magiares e, assim como ele, emigrou para o Brasil em 1941 com a família. Em pouquíssimo tempo, os dois se casaram em 1952 e tiveram duas filhas, Cora e Laura Rónai.
A própria Nora é uma figura notável e eu até queria que o livro abordasse mais de seu casamento e dos feitos da Nora. Mas entendo que a proposta desta biografia é outra. Mas fiz o meu trabalho de casa e descobri coisas que me dizeram admirar mais este casal.
Nora se tornou uma grande arquiteta e escreveria três livros, incluindo um sobre sua história de vida (O desenho do tempo: memórias, lançado pela editora Bazar da Vida) e outro para crianças. Começou a nadar competitivamente aos 69 anos e desde então, ela é detentora de 13 medalhas de ouro, 12 recordes mundiais nos Campeonatos Mundiais e estabeleceu um recorde mundial — se tornou a nadadora mais velha a completar a prova aos 90 anos.
Apesar de voltar à Europa algumas vezes, o casal não tinha desejo de voltar. Haviam encontrado raízes no Brasil. “Paulo sabia que a Hungria não era mais o seu lugar”, registra a autora. O judeu Pál Rónai renasceu como Paulo Rónai no Brasil em 1941 e nunca mais olhou para trás, assim como a Nora.
Um legado.
Em 1º de dezembro de 1992 Paulo Rónai morre, deixando um legado magistral. Tinha 85 anos, 51 dos quais vividos em terras brasileiras.
Pouco tempo antes de morrer, ele ganhou dois prêmios importantes: o Prêmio Machado de Assis pelo conjunto da obra Academia Brasileira de Letras e o prêmio Nath Horst, o Nobel da tradução. Apesar do longo percalço, felizmente, Rórai conseguiu ver o seu trabalho sendo reconhecido.
Deixo, por fim, as palavras de Aurélio Buarque de Holanda que exprime bem o feito deste homem que contribuiu tão amplamente pela literatura brasileira e entregou-se de coração e alma ao Brasil:
“Maestria larga e variada. Maestria em literatura, em línguas, em tudo que ficou dito — e na arte da amizade. O mestre perfeito, ‘reto, discreto, sábio’, é também, de quebra, amigo perfeitíssimo”.
Texto completo no substack: https://substack.com/@jessrangelf/p-1...
Tradutor, editor, filólogo, escritor, entre diversas outras coisas, Paulo Rónai era, sobretudo, um homem verdadeiramente literato. A vida deste homem das letras ganha destaque pela voz da jornalista Ana Cecilia Impellizieri Martins. no o livro “O homem que aprendeu o Brasil” lançado pela editora Todavia em 2020.
Eu lembro que, quando eu ouvi falar sobre o Paulo Rónai alguns anos atrás, fiquei extremamente curiosa com a história deste homem húngaro e judeu que fugiu da perseguição nazista e se refugiou no Brasil, entrgando-se ao serviço da literatura e tornando-se um um pilar da literatura brasileira. Mas, até então, eu sabia muito pouco.
O pai de Paulo Rónai era livreiro e, portanto, não é exagero dizer que o menino Paulo cresceu em meio aos livros desde novinho, desenvolvendo um amor que iria tornar-se seu ofício e paixão. Aos 23 anos, Paulo obtinha o título de doutor em filologia e línguas neolatinas — gramática e literatura francesa, latina e italiana.
A autora traz um bom panorama histórico na qual o Rónai vivia. Além do genuíno interesse que o jovem cultivava pelas língas e literatura, o povo húngaro, de modo geral, desenvolvia um grande “apetite cultural”. Segundo a autora, o “que irmanava esses homens, além de serem produto de uma mesma época e de uma sociedade atenta à educação e que incentivava e prestigiava atividades intelectuais, era o desejo incontido de todos por modernização.”(p. 20)
Rónai já trabalhava como professor de françês e explorava a tradução como uma forma de degustar as palavras. Nesta altura, no entanto, as primeiras leis antijudaicas começam a surgir em maio de 1938. Rónai, por ser judeu, já sofria com estas restrições sendo até mesmo impedido de ingressar na universidade.
No meio deste ambiente de hostilidade crescente, Rónai começa a aprender português, até mesmo para a minha surpresa. Antes de conhecer mais intimamente a sua história, simplesmente presumi que ele havia aprendido português ao chegar no Brasil. Mas essa história de amor começou muito antes: em 5 de abril de 1938 encontra-se o primeiro registro no seu diário de ler uma poesia brasileira e de tentar traduzi-lá. Logo em seguida, leu Dom Casmurro em uma edição francesa. Segundo as suas próprias palavras, “uma literatura que tinha romancistas daquele porte não podia deixar de interessar-me.”
E pasmem: mesmo sem entender bem o português, o jovem Rónai já se aventurava em traduzir os poemas. Confesso que fiquei impressionada com a dedicação e empenho. Mesmo com poucos recursos, ele achava uma forma de encontrar livros em português, solicitando a amigos e até mesmo indo ao consulado brasileiro na Hungria para pedir mais e mais livros. A própria autora destaca:
De fato, impressiona como Paulo Rónai teve acesso, ainda na Hungria, a um repertório não somente variado como também aprofundado do Brasil. Seu interesse partiu da formação do país para em seguida revelar como o processo de construção e miscigenação moldou a língua e, consequentemente, seu modo de falar e escrever. (p.87)
Enquanto se mergulhava em poesia e literatura brasileira, Rorái e sua família já sondavam possibilidades de fugir a algum país da América Latina. Esforçado, Rónai, que se já havia criado uma afinidade genuína com o Brasil, já pensava em formas de como chegar lá. Nesta altura, Rónai também estava noivo de uma jovem húngura e também judia, Magda Péter, na qual tentou com todos os seus esforços viabilizar a sua vinda (infelizmente, ela acabaria assassinada pelos nazistas).
O seu amor por línguas e tradução seriam a chave que poderia abrir as portas de saída de uma Europa ameaçadora. Pode-se dizer que ele cosntruiu, aos poucos, e de forma sólida uma ponte com o Brasil por meio da literatura. A vinda de Paulo Rónai ao Brasil é custoso. Irei dar um salto no tempo, mas já quero destacar que a Ana Cecilia dedica um bom tempo a descorrer sobre todos os detalhes deste processo e nós acompanhamos com o coração na mão na medida que a força nazista apertava para os judeus. O próprio Rónai ficou na prisão em um campo de concentração por determinado tempo.
Graças a sua amizade por cartas com o Ribeiro Couto, um jornalista e diplomata brasileiro, o jovem húngaro chega no Rio de Janeiro em 3 de março de 1941. Já na Húngria, Rónai já se comunicava com outros autores brasileiros e, ao chegar no Brasil, não perdeu tempo em econtrá-los. Uma nova vida se inicia.
Uma coisa que me impressionou no Paulo Rónai foi o seu empenho e interesse genuíno pelos outros. Assim que chegou, já bateu na porta da casa de Cecília Meireles e Carlos Drummond de Andrade. Eles seriam amigos preciosos e de longa data, aliás. De fato, Rónai travou um encontro de espíritos afins com muitos autores, cercando-se rapidamente do meio literário no Rio. Quatro meses após sua chegada, Paulo Rónai já estava empregado e dominava inteiramente o português escrito e falado.
Como todo processo de imigração, há sempre aquele sentimento agridoce que vem desse lugar da adaptação de um novo lugar, uma nova cultura e do que você deixa para trás, ou melhor, as pessoas que você deixa para trás. Sendo eu mesma imigrante, este tema toca no meu íntimo.
Em contraponto, a autora pincela a vida de outro autor que tem fortes semelhanças com o Rónai: o escritor austríaco Stefan Zweig. Ambos filhos do Império Austro-Húngaro, judeus e homens de letras que se refugiaram no Rio de Janeiro. Certamente os dois seriam bons amigos se tivessem a chance de se conhecer pessoalmente. Mas apesar das semelhanças, o processo de imigração destes dois literatos seriam drasticamente diferentes.
Acreditando que o nazista Adolf Hitler se tornaria senhor da Europa, Zweig ficou cada vez mais deprimido com o crescimento da intolerância e do autoritarismo crescente. Apesar de ter sido recebido com entusiasmo pela comunidade intelectual local, ele e a esposa viviam de forma reclusa, sem nunca conseguir encontrar uma aderência cultural, social ou afetiva. Muito provavelmente, Stefan Zweig sofria de uma doença de diagnóstico já conhecido: mal de exílio, patologia gerada pela dor do impedimento da volta para casa e marcada pela obsessão do regresso.
Como consequência, o autor austríaco e a esposa mataram-se em 1942. Um fim trágico demais que abalou até mesmo o própro Rónai assim que soube desta notícia.
Mas Paulo Rónai teria um destino diferente. Apesar de todas essas semelhanças de origem e apesar de toda melancolia que o envolvia por ter a família e a noiva em constante perigo, Rónai, segundo a autora, “(…) Fez de sua produção e da própria vida um atestado de sua abertura às possibilidades que o Brasil lhe oferecia”.
De fato, Rónai encontrou resiliência e, sobretudo, acolhimento nos seus amigos. Drummond afetuosamente o lembrou: “Zweig não conheceu as pessoas certas. Sua história é outra, meu caro amigo”. Uma das coisas mais bonitas de acompanhar nesta biografia é ver como ele encontrou alento e afeto em amizades profundas. Ele era alguém verdadeiramente interessado no outro e percebe-se o respeito e admiração mútua nas suas amizades. Entre elas, há alguns nomes de destaque como o já citada Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Guimarães Rosa, Aurélio Buarque de Holanda Ferreira e muitos outras pessoas de peso no meio literário.
Aliás, a amizade com Guimarães Rosa renderia uma longa parceria, gerando uma produção crítica literária sem comparação. Ao longo de mais de três décadas, Rónai originou um conjunto de crítica literária sobre o Guimarães Rosa. Mesmo após a morte do autor, Rónai foi designado administrador de suas edições, organizando as suas obras póstumas. Como a autora muito bem registrou, tornar-se interlocutor de Guimarães Rosa foi o arremate para a sua inserçào cultural no país.
Em simultâneo, Rónai crescia no meio editorial e ainda dava aulas. Como destaque na sua longa carreira, temos os seus manuais Gradus Primus e Gradus Secundus para o ensino de latim e cultura clássica nas escolas brasileiras em 1954, o seu famoso livro de ensaios Como aprendi português e outras aventuras, o trabalho minucioso e gigantesco de revisão, anotação, introdução e comentário da Comédia Humana, de Balzac, publicada pela Editora Globo, organizou a coleção de contos Mar de Histórias (Ed. Nova Fronteira), a Antologia do conto húngaro, além da tradução de Os Meninos da Rua Paulo, que tornou-se muito conhecido no Brasil e seus livros sobre téoricos sobre tradução Escola de tradutores (1952) e A tradução vivida (1981).
A sua contribuição é vasta. Não é à Rónai tornou-se também um dos grandes críticos literários no Brasil. Registro aqui as palavras de Guimarães Rosa, “Só o Paulo Rónai e o Antonio Candido foram os que penetraram nas primeiras camadas do derma; o resto, flutuou sem molhar as penas”.
_____
Após finalmente ter toda a sua família no Brasil, Rónai encontra uma nova fonte de alegria: em Em 1951, aos 44 anos, ele conhece a arquiteta Nora Tausz, nascida numa família de judeus ítalo-magiares e, assim como ele, emigrou para o Brasil em 1941 com a família. Em pouquíssimo tempo, os dois se casaram em 1952 e tiveram duas filhas, Cora e Laura Rónai.
A própria Nora é uma figura notável e eu até queria que o livro abordasse mais de seu casamento e dos feitos da Nora. Mas entendo que a proposta desta biografia é outra. Mas fiz o meu trabalho de casa e descobri coisas que me dizeram admirar mais este casal.
Nora se tornou uma grande arquiteta e escreveria três livros, incluindo um sobre sua história de vida (O desenho do tempo: memórias, lançado pela editora Bazar da Vida) e outro para crianças. Começou a nadar competitivamente aos 69 anos e desde então, ela é detentora de 13 medalhas de ouro, 12 recordes mundiais nos Campeonatos Mundiais e estabeleceu um recorde mundial — se tornou a nadadora mais velha a completar a prova aos 90 anos.
Apesar de voltar à Europa algumas vezes, o casal não tinha desejo de voltar. Haviam encontrado raízes no Brasil. “Paulo sabia que a Hungria não era mais o seu lugar”, registra a autora. O judeu Pál Rónai renasceu como Paulo Rónai no Brasil em 1941 e nunca mais olhou para trás, assim como a Nora.
Um legado.
Em 1º de dezembro de 1992 Paulo Rónai morre, deixando um legado magistral. Tinha 85 anos, 51 dos quais vividos em terras brasileiras.
Pouco tempo antes de morrer, ele ganhou dois prêmios importantes: o Prêmio Machado de Assis pelo conjunto da obra Academia Brasileira de Letras e o prêmio Nath Horst, o Nobel da tradução. Apesar do longo percalço, felizmente, Rórai conseguiu ver o seu trabalho sendo reconhecido.
Deixo, por fim, as palavras de Aurélio Buarque de Holanda que exprime bem o feito deste homem que contribuiu tão amplamente pela literatura brasileira e entregou-se de coração e alma ao Brasil:
“Maestria larga e variada. Maestria em literatura, em línguas, em tudo que ficou dito — e na arte da amizade. O mestre perfeito, ‘reto, discreto, sábio’, é também, de quebra, amigo perfeitíssimo”.
Texto completo no substack: https://substack.com/@jessrangelf/p-1...
July 23, 2021
Aprendía respeitar um tradutor sério que entra na vida do autor a ser traduzido. Talvez a princípio por curiosidade e depois para se salvar do nazismo que varreu a Europa a Hungria em particular neste caso. Paulo Ronai muda para o Brasil com a família.
May 28, 2023
O HOMEM QUE APRENDEU O BRASIL: A VIDA DE PAULO RÓNAI.
Ana Cecília Impellizieri Martins.
Eu realmente gostei muito dessa biografia, não conhecia bem Paulo Rónai, tinha lido coisas um pouco anedóticas sobre ele aqui e ali, sobre sua relação com Aurélio Buarque de Holanda.Quando li Budapeste, fui procurar informações e descobri que Chico Buarque se inspirou na vida deste escritor húngaro para escrever o livro, criou um personagem que fez o percurso inverso, ao invés de sair da Hungria e vir para o Brasil, ele vai do Brasil para a Hungria e não só aprende o idioma magiar como passa a escrever nessa língua e a participar do meio literário local.
Enfim, a vida de Paulo Rónai foi sem dúvida única e surpreendente, foi salvo das garras do nazismo graças à sua persistência, sua capacidade de criar conexões com as pessoas certas. Infelizmente, apesar de todo o seu empenho, não pode salvar sua primeira mulher, também judia. Ela e sua mãe desapareceram, não foi possível saber exatamente como morreram, mas é certo que foram vítimas da fúria insana daquele momento. Mais tarde, Paulo Rónai consegue trazer quase toda a sua família para o Brasil e todos, exceto sua mãe, se tornam cidadãos brasileiros. Não foi tarefa fácil, entretanto, o Estado Novo não tinha simpatia pelos judeus. Ele recebeu o visto baseado numa regra de exceção, ou seja, apesar de ser judeu.
Aqui uma das regras para dar uma ideia:
“Será recusado visto a pessoa que for de origem semítica e, em caso de dúvida, as autoridades poderão retardar a concessão do visto até que, por meio de investigação, se consiga esclarecer a dúvida.”
E a exceção:
“Quando a circunstância de origem semítica se verificar em relação a pessoas de notória expressão cultural, política e social, assim como em relação a artistas especialmente contratados para se exibirem no Brasil, por tempo determinado, poderão os respectivos passaportes ser visados, mediante consulta prévia a esta Secretaria de Estado e sua indispensável autorização para que assim se proceda.”
Várias páginas são aqui dedicadas a comparar Stefan Zweig e Paulo Rónai o que não me surpreendeu pois enquanto lia eu tinha em mente as tais semelhanças, dois escritores judeus, europeus (o irmão de Zweig tinha passaporte húngaro), com vasta cultura e que, compelidos a emigrar, terminaram suas vidas no Brasil, Zweig de forma trágica, ao contrário de Rónai, ele não se integrou, não aprendeu a língua, era mais velho, sofria com a depressão e foi engolfado pelos tempos sombrios. Os dois não se conheciam, mas esse fato não impediu que Rónai se desesperasse e temesse cair no mesmo poço, foi desabafar com Drummond e este respondeu:
“Zweig não conheceu as pessoas certas. Sua história é outra, meu caro amigo”.
E era mesmo, Paulo Rónai se integrou perfeitamente à sua nova pátria, não só aprendeu a língua portuguesa como fez dela seu instrumento de trabalho, coisa que eu nunca vou cansar de admirar tendo em vista a distância entre a nossa e a sua língua materna. É verdade que ele tinha um perfeito domínio do francês e isso ajudava, ainda assim é impressionante. Ele dizia que trabalhava para merecer seu destino e fez muito divulgando escritores brasileiros na Europa e húngaros (e franceses, traduziu Balzac) no Brasil.
O primeiro contato de Rónai com a literatura brasileira se deu, na verdade, em francês e foi com Dom Casmurro, disse ele:
“Uma literatura que tinha romancista daquele porte não podia deixar de interessar-me”.
Rónai dizia que era professor acima de tudo, nunca ensinou na universidade no Brasil, como diz a autora dessa biografia, quem perdeu foi a universidade.
No Brasil ele participou ativamente da vida literária e foi amigo de escritores como Carlos Drummond de Andrade, Guimarães Rosa, Cecília Meireles e muitos outros nomes conhecidos nossos. Ele foi um dos primeiros a escrever sobre Grande Sertão:Veredas e a reconhecer a grandeza da obra e de novo eu repito, é impressionante que Rónai tenha sido capaz de reconhecer o valor de uma obra que é difícil até mesmo para um leitor lusófono. A paixão pelas línguas e pela linguagem aproximou os dois escritores que passaram a colaborar um com o outro.
Casou-se, teve duas filhas brasileiras (como ele mesmo afirmava), uma delas a conhecida jornalista Cora Rónai, faleceu em 1992 aos 85 anos.
Ana Cecília Impellizieri Martins.
Eu realmente gostei muito dessa biografia, não conhecia bem Paulo Rónai, tinha lido coisas um pouco anedóticas sobre ele aqui e ali, sobre sua relação com Aurélio Buarque de Holanda.Quando li Budapeste, fui procurar informações e descobri que Chico Buarque se inspirou na vida deste escritor húngaro para escrever o livro, criou um personagem que fez o percurso inverso, ao invés de sair da Hungria e vir para o Brasil, ele vai do Brasil para a Hungria e não só aprende o idioma magiar como passa a escrever nessa língua e a participar do meio literário local.
Enfim, a vida de Paulo Rónai foi sem dúvida única e surpreendente, foi salvo das garras do nazismo graças à sua persistência, sua capacidade de criar conexões com as pessoas certas. Infelizmente, apesar de todo o seu empenho, não pode salvar sua primeira mulher, também judia. Ela e sua mãe desapareceram, não foi possível saber exatamente como morreram, mas é certo que foram vítimas da fúria insana daquele momento. Mais tarde, Paulo Rónai consegue trazer quase toda a sua família para o Brasil e todos, exceto sua mãe, se tornam cidadãos brasileiros. Não foi tarefa fácil, entretanto, o Estado Novo não tinha simpatia pelos judeus. Ele recebeu o visto baseado numa regra de exceção, ou seja, apesar de ser judeu.
Aqui uma das regras para dar uma ideia:
“Será recusado visto a pessoa que for de origem semítica e, em caso de dúvida, as autoridades poderão retardar a concessão do visto até que, por meio de investigação, se consiga esclarecer a dúvida.”
E a exceção:
“Quando a circunstância de origem semítica se verificar em relação a pessoas de notória expressão cultural, política e social, assim como em relação a artistas especialmente contratados para se exibirem no Brasil, por tempo determinado, poderão os respectivos passaportes ser visados, mediante consulta prévia a esta Secretaria de Estado e sua indispensável autorização para que assim se proceda.”
Várias páginas são aqui dedicadas a comparar Stefan Zweig e Paulo Rónai o que não me surpreendeu pois enquanto lia eu tinha em mente as tais semelhanças, dois escritores judeus, europeus (o irmão de Zweig tinha passaporte húngaro), com vasta cultura e que, compelidos a emigrar, terminaram suas vidas no Brasil, Zweig de forma trágica, ao contrário de Rónai, ele não se integrou, não aprendeu a língua, era mais velho, sofria com a depressão e foi engolfado pelos tempos sombrios. Os dois não se conheciam, mas esse fato não impediu que Rónai se desesperasse e temesse cair no mesmo poço, foi desabafar com Drummond e este respondeu:
“Zweig não conheceu as pessoas certas. Sua história é outra, meu caro amigo”.
E era mesmo, Paulo Rónai se integrou perfeitamente à sua nova pátria, não só aprendeu a língua portuguesa como fez dela seu instrumento de trabalho, coisa que eu nunca vou cansar de admirar tendo em vista a distância entre a nossa e a sua língua materna. É verdade que ele tinha um perfeito domínio do francês e isso ajudava, ainda assim é impressionante. Ele dizia que trabalhava para merecer seu destino e fez muito divulgando escritores brasileiros na Europa e húngaros (e franceses, traduziu Balzac) no Brasil.
O primeiro contato de Rónai com a literatura brasileira se deu, na verdade, em francês e foi com Dom Casmurro, disse ele:
“Uma literatura que tinha romancista daquele porte não podia deixar de interessar-me”.
Rónai dizia que era professor acima de tudo, nunca ensinou na universidade no Brasil, como diz a autora dessa biografia, quem perdeu foi a universidade.
No Brasil ele participou ativamente da vida literária e foi amigo de escritores como Carlos Drummond de Andrade, Guimarães Rosa, Cecília Meireles e muitos outros nomes conhecidos nossos. Ele foi um dos primeiros a escrever sobre Grande Sertão:Veredas e a reconhecer a grandeza da obra e de novo eu repito, é impressionante que Rónai tenha sido capaz de reconhecer o valor de uma obra que é difícil até mesmo para um leitor lusófono. A paixão pelas línguas e pela linguagem aproximou os dois escritores que passaram a colaborar um com o outro.
Casou-se, teve duas filhas brasileiras (como ele mesmo afirmava), uma delas a conhecida jornalista Cora Rónai, faleceu em 1992 aos 85 anos.
February 8, 2020
Uma história de vida na tradução de refúgios, amizades e literatura.
March 16, 2020
Que sujeito extraordinário!
October 25, 2020
Um homem contra Babel.
July 27, 2025
para além de um belo livro sobre o Paulo Ronai (quem eu meio que virei fã), é uma homenagem belíssima aos tradutores, passei a admirar o ofício mais ainda
April 24, 2026
Panorama completo da vida desse húngaro que adotou o Brasil e foi tão importante na literatura nacional, mas desconhecido fora do campo acadêmico.
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