A primeira parte do livro incide sobre o que é o politicamente correto e como ele se manifesta. O autor usa vários exemplos ao longo do seu texto para ilustrar os seus argumentos.
É clara a posição de MM, mesmo que o politicamente correto possa ter boas intenções, ou, no início, teria, hoje em dia, degenerou e não passa de uma forma de censura, comummente utilizada pela esquerda de modo a censurar opiniões dissidentes. É este o abuso do PC, embora os seus defensores digam que é importante vigiar o que se diz para não se espezinhar nos que durante tanto tempo foram oprimidos, na verdade, ele é usado de forma paternalista. Como se negros, gays, pessoas trans e mulheres não se conseguissem defender de algo tão simples como um termo ligeiramente mais ofensivo.
Esta é a ligação à língua: a contínua mudança de palavras para designar membros de diversos grupos, de forma a não ferir susceptibilidades, que roçam o ridículo, como o muito usado em inglês "differently abled". Até porque, o que é obviamente inevitável é que esgotaremos vocabulário antes de esgotarmos os estereótipos negativos. Negro ou preto? Não interessa, um racista pode usar o termo mais aceitável e continuar a ser racista. Um racista pode nunca ter dito e nunca vir a dizer nigga/nigger. Não deixará de ser racista por isso. E uma pessoa que cante uma canção de RAP e cabe por proferir nigga não se transformará, no imediato momento em que profere a palavra, num irremediável racista. Sendo as n-words o exemplo máximo da censura PC.
O autor passa por temas como a liberdade de expressão e como é importante que o debate de ideias aconteça, pois podemos derrotar ideias através da argumentação, mas a censura só criará mártires do PC, dando-lhes assim acesso a mais apoio. Não esquecemos que quando Trump ainda não tinha sido eleito já muitos diziam que gostavam como ele dizia as verdades e não tinha medo dos meios de comunicação. Tentar censurar Trump só cimentou este sentimento nas pessoas, pois, por muito que discorde de Trump, nunca aceitarei que o tentem censurar.
O segundo e terceiros capítulos analisam a língua portuguesa. No segundo o autor corrige alguns erros mais comuns no que toca ao género e número de algumas palavras. No terceiro o autor dá alguns exemplos de casos em que o PC tenta modificar a língua. O ponto mais interessante prende-se com o "terceiro género". O português partiu do latim, que tinha três géneros, mas o neutro foi suprimido, permanecendo o masculino e feminino. O autor detalha como seria praticamente impossível (ou, pelo menos, uma grande dor de cabeça) a criação de um terceiro género para englobar pessoas que não se identificam no binário. Não só teríamos um longo caminho de criação e mudança gramatical (que se assemelha à criação de uma nova língua), como, em português, as palavra no género masculino englobam todos os géneros. Como o autor argumenta, algumas batalhas do PC ou não trazem qualquer mudança significativa contra a opressão, ou não são práticas.
Mas o que mais admirei neste livro foi o seu último capítulo. Nele MM traz-nos uma seleção de textos, de vozes portuguesas e estrangeiras, cujos argumentos variam. Textos a favor e contra o PC para que o leitor se possa inteirar da amplitude de opiniões acerca do assunto. Independentemente de concordarmos ou não com MM, ele dá-nos a oportunidade de podermos procurar as diferentes vozes e chegarmos às nossas próprias conclusões.