Ο Φερνάντο Ναμόρα είναι μία από τις κορυφαίες, αντιπροσωπευτικές μορφές της σύγχρονης πορτογαλικής λογοτεχνίας. Δυναμικός, άμεσος, γιομάτος τραυματικές εμπειρίες που είχε αποκομίσει ως αγροτικός γιατρός έκλεισε μέσα στα πρώτα βιβλία του συνταρακτικές καταστάσεις των ανθρώπων της γης στα χρόνια της δικτατορίας του Σαλαζάρ. Οι ήρωές του συγγενεύουν στα δραματικά τους βιώματα με τους δύσμοιρους Σικελούς του πρωτοπόρου Ιταλού νεορεαλιστή Τζοβάνι Βέργκα, των ανάλογων διηγημάτων του μεγάλου Λουΐτζι Πιραντέλλο κι ακόμα με τους αγρότες της άνισης αλλά ωστόσο άξιας Γκράτσια Ντελέντα. Το ανθρώπινο πάθος όπως τ'ορίζουν άγραφοι νόμοι κοινωνικών συνθηκών και το σκληρό πεπρωμένο είναι ό,τι τον απασχολεί στη γραφή των έργων του. Και για να το αποκαλύψει τούτο το πάθος καυτό, δραστικό, όπως εισβάλλει η Μοίρα στη ζωή των ανθρώπων, δεν θέλει ν' αναχαιτίζει την ορμή της αφήγησής του με γλαφυρότητες και μαγείες ύφους. Στα βιβλία του εκτονώνει τη ρεαλιστική του φόρτιση κλίνοντας περισσότερο προς την ψυχολογική διείσδυση και το κοσμοπολίτικο κλίμα. Είχα τη χαρά και την τιμή να με συνδέει μακροχρόνια φιλία με αυτόν τον κορυφαίο Πορτογάλο. Του χρωστώ πολλές γιομάτες μέρες στην πατρίδα μου, στη δική του πατρίδα, σε άλλες χώρες όπου ταξιδέψαμε μαζί. Κι ο στερνός μου λόγος σαν τον αποχαιρέταγα χτυπημένο από τον καρκίνο μέσα στο δωμάτιό του, στο σπίτι του στη Λισαβώνα, στο τέλος του 1988, ήταν η υπόσχεση για την παρουσίαση αυτού βιβλίου του στην Ελλάδα. Χαμογέλασε πικρά. Ίσως γιατί η μοίρα του απόκληρου ήρωά του που κλειδωνιζόταν ευσυγκίνητος, ονειροπόλος μέσα στην τραγικότητά του ταυτιζόταν, εκείνη την ώρα που ο ίδιος οδηγόταν στο τέλος του, με την καταδίκη της δικής του ζωής. Μεταφρασμένος σε πολλές χώρες στην Ευρώπη, στην Αμερική, στην Ασία, αναφέρθηκε κάποιες χρονιές ως σημαντικός διεκδικητής του Βραβείου Νομπέλ.
FERNANDO NAMORA nasceu a 15 de Abril de 1919, em Condeixa-a-Nova. Licenciado pela Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra (1942), exerceu clínica na sua terra natal, na Beira Baixa e no Alentejo e foi assistente no Instituto Português de Oncologia, em Lisboa. Estreou-se nas letras com o vol. de poemas Relevos (1933); o seu terceiro livro de poesia (Terra, 1941) iniciou a colecção “Novo Cancioneiro”, órgão do Neo-Realismo, do qual fazia parte nomes como Carlos de Oliveira, Mário Dionísio e Rui Feijó. Além de poesia e romances publicou contos, novelas, memórias, narrativas de viagem e biografias romanceadas, tendo a sua obra sido traduzida em várias línguas: As Sete Partidas do Mundo (1938), Fogo na Noite Escura (1943), Casa da Malta (1945); Minas de São Francisco (1946); Retalhos da Vida de Um Médico (1949-63), em dois vols.; A Noite e a Madrugada (1950); O Trigo e o Joio (1954); O Homem Disfarçado (1957); Cidade Solitária (1959); Domingo à Tarde (1961, Prémio José Lins do Rego); Diálogo em Setembro (1966), Os Clandestinos (1972); Cavalgada Cinzenta (1977); Resposta a Matilde (1980); Rio Triste (1982, Prémio D. Dinis); Nome para Uma Casa (1982); Sentados na Relva (1986). Em 1981, foi nomeado para o Prémio Nobel da Literatura pelo PEN Clube e pela Academia das Ciências de Lisboa. Foi condecorado pela Presidência da República com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique, em 1988. Faleceu a 31 de Janeiro de 1989, em Lisboa.
É um livro de violência contida,de uma força dominada,excepcional,o Trigo e o Joio,desvenda.nos as lutas de um pequeno povo rural a debater-se,sozinho na sua pobreza,frente ao egoísmo e ao orgulho dos grandes proprietários. E´uma obra que importa valorizar pelo mérito artístico,tão evidente se manifesta o escrupuloso trabalho literário do romancista,constitui pois,ao mesmo tempo, o quadro fiel de determinada situação social,e um documento notável sobre os sentimentos,as aspirações e os erros humanos. Circunda-o um sopro épico marcadamente progressista,tão larga é a atmosfera de sonho que rodeia as criaturas e amplos os horizontes abertos para lá da aventura cómica,com as suas promessas indefinidas e logros inevitáveis:o sonho do trigo( e da abastança) que o joio das crendices aniquila,repõe uma vez mais,a impressionante noção muito pessoal de esperança que,modo geral,atravessa toda a obra do romancista, e que este livro mais não é que uma grandiosa alegoria..
Partindo da premissa de que a palavra literária tem a singular capacidade de escapar do autoritarismo do uso quotidiano da linguagem, a leitura crítica de O Trigo e o Joio orienta-se por privilegiar elementos que comprovem haver no romance de Fernando Namora um apelo estético que se sobrepõe ao discurso ideológico predominante no modelo tradicional do romance neo-realista português. [... A] partir de uma temática neo-realista, o autor conseguiu criar um requintado discurso ficcional capaz de transformar a compra de uma burra num projeto coletivo, numa metáfora de libertação. Para tanto, [é recortada] a forma de heroicidade em desvio representada pelas figuras do pícaro, do malandro e do sonhador, sugerindo que os pequenos heróis construídos pela narrativa O Trigo e o Joio – por também serem sobreviventes de uma realidade hostil e opressora – podem ser vistos como alegorias dessas três figuras marginais.
«As árvores esguias e solitárias, condenadas a essa eterna vigilância da campina, sem que nada tivessem de comum com a paisagem onde estavam degredadas, resistiam ao contágio da planície, uniam-se e fechavam-se num reduto em que as flores selvagens ficavam defendidas do apelo lânguido e cruel. E nessa atmosfera o melaço das plantas tinha uma doçura que se comunicava aos sentidos, embora por vezes, sob a ameaça de violação da campina, se tornasse de uma intensidade quase sensual.»
Uma das muitas fenomenalmente bem escritas passagens deste livro. Fernando Namora bem conhecia da vida na campina, das suas dificuldades e desafios, da sua beleza e das suas gentes.
O enredo deixa bastante a desejar, mas a sumptuosidade das palavras de Namora e capacidade de construir personagens fortes compensa-lhe a monotonia.
A historia, não me agradou particularmente e pontualmente até me aborreceu mas a escrita de Fernando Namora é soberba e isso encanta-me sempre. Confirmei a ideia que me tinha ficado quando, ha uns 30 anos, li os Retalhos da Vida de Um Médico, de que este Namora era um homem de grandes talentos. Mas confesso que gostei mais dos Retalhos, que li mais apaixonadamente. Fiquei com vontade e intenção de conhecer mais obra deste escritor.
É um livro do Alentejo: as courelas, a terra lavrada, o trigo e a ceifa; as suas gentes e as suas dificuldades, dores, esperanças e sonhos. [É na verdade um 4,5.]
Apesar de todas as adversidades devemos continuar a ter esperança na camaradagem da Humanidade, esta é a mensagem com que fico deste livro de Namora.
"Quando (...) a vida começava a significar uma azeda melancolia, o Barbaças abria então o peito aos grandes sacrifícios, aceitando uma empreitada (...) a que ele se entregava com uma gana de quem tinha pressa em voltar ao repouso. E com (...) um ardor de aventureiro, ganhava uns bons tostões, (...), o bastante para dois ou três meses de preguiçosa prosperidade."
"Misturando rezas com insultos às criadas, de um lado entendia-se com os santos e do outro captava gulosamente todos os escândalos da vila."
O Alentejo profundo, as searas de trigo, a luta dos pequenos agricultores contra a mísera, a seca, os maus anos, os grandes agricultores, a mesquinhez e a falta de conhecimento do povo, tudo isto neste livro que é quase como uma alegoria, onde uma pequena família tenta tirar rendimento da sua terra e todos os acontecimentos (alguns por vezes bem caricatos), aqui descritos mostram a dureza da vida do campo nessa época. Tudo isto contado por um autor que assistiu bem de perto e por vezes na própria "pele" essa mesma dureza e miséria do campo.
Uma obra prima portuguesa. A narrativa é bastante simples, contudo de grande densidade psicológica. O Loas, o Barbaças e a burra fizeram - me muito boa companhia e ao terminar ,até já sinto a sua falta. Recomendo vivamente.
Uns camponeses numa courela muito pobre, muito pobre, com uma burra para trabalhar a courela muito pobre, muito pobre que não dá sustento e que, ou vendem a burra e se sustentam da venda da burra antes de morrerem sem sustento porque ficam sem a burra para trabalhar a courela, ou lavram a courela com a burra sem na vender e morrem de fome porque a courela é muito pobre, muito pobre, que não dá sustento.