Vitorianas Macabras é uma antologia de contos de terror de mulheres do Reino Unido da época do reinado da rainha Vitória, aquela que viveu em luto por seu marido Albert por umas duas décadas e tem milhões de filmes sobre a história de amor deles (Judy Dench fez pelo menos metade deles). Essa antologia é uma parceria da editora Darkside com a Macabra Filmes. Começo dizendo que a edição do livro é lindíssima. Como todos os livros da Darkside, tem capa dura e fitinha para marcar a página. Além dos contos de diversas escritoras, também temos uma pequena biografia da rainha Vitória, assim como algumas histórias bizarras da era vitoriana, em que o culto à morte foi enorme - só lembrarmos dos escritores de sucesso, como Edgar Alan Poe e Bram Stoker. A antologia foi organizada em parceria com Marcia Heloisa, que reuniu 13 contos para, segundo informações da própria editora, "enaltecer as mulheres ilustres que prestaram uma contribuição formidável à literatura — e reparar a injustiça histórica que por séculos reverenciou apenas os homens."
Eu gosto muito de ler livros de contos que reúnem vários autores diferentes porque parece que estamos em uma reunião em que cada um conta sua história, e assim não ficamos entediadas com um monólogo. Nesta antologia, lemos as vozes de mulheres que não receberam a mesma importância de seus contemporâneos homens, mas que eram tão - ou mais - talentosas. Gostei muito dos contos, alguns mais que outros me surpreenderam bastante. Tem um que uma mulher ansiava por um relacionamento mais espiritual e acabou passando a eternidade com um amante que a entediava; noutro, um jovem historiador se apaixona por uma femme fatale morta há 300 anos. Outro ponto positivo desta edição é que, antes de cada conto, tem uma minibiografia da autora e assim conhecemos um pouco a voz por trás daquela história sombria. Para quem gosta de Poe e histórias de sobrenatural, Vitorianas Macabras é uma leitura indispensável.
Uma coisa que fiquei pensando muito enquanto lia foi a respeito do papel de gênero na sociedade, principalmente na época vitoriana, e como aquelas mulheres buscaram romper as amarras da cultura machista. Mas também como a classe social delas permitiram que elas fossem algo além de donas de casa e mãe. Maioria das escritoras desta antologia era sufragista, algumas nunca se casaram e outras tiveram uma vida de dona de casa, com marido e filhos. Mas o ponto que elas convergiam foi a busca da liberdade e independência por meio da literatura. Uma das escritoras da antologia, H.D. Everett, era lésbica e ainda se vestia de homem, sem esconder quem ela realmente era - tinha uma companheira e nunca escondeu isso. Deixou inúmeras obras publicadas. Quando a gente para e pensa, as mulheres tiveram direito ao voto muito recentemente - no Brasil foi em 1933, já na Inglaterra, em 1918. Ou seja, não eram permitidas na vida política, muito menos tinham os mesmos direitos que os homens. As mulheres também não tinham o mesmo acesso à educação, muito menos eram incentivadas a pensar, relegadas apenas aos afazeres domésticos, quando burguesa, ou a condições insalubres de trabalho, ganhando bem menos que os homens para a mesma função, e ainda acumulando com as funções de dona de casa, mãe e esposa.
Portanto, conhecer mulheres que tiveram reconhecimento por seu trabalho em uma época em que elas não eram permitidas a serem indivíduos pensantes, é muito importante. Antigamente, eu lia praticamente livros escritos por homens, porque eles eram mais conhecidos, tinham mais espaço no mercado editorial e na grande mídia. Hoje, graças em parte ao clube TAG Inéditos, estou lendo muito mais autoras e estou sempre procurando mais livros escritos por mulheres, com temáticas das mais variadas e não apenas "de mulher para mulher".