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Viagem

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Viagem foi o passo inicial para Cecília Meireles ser apontada como a maior poetisa da língua portuguesa. Seus versos, repletos de delicadeza e sensibilidade, despertam no leitor imagens e sentimentos adormecidos nos estados da alma humana, convidando-o para acompanhá-la, como privilegiado passageiro, nessa inquieta viagem que é a vida.

A obra representa um momento de ruptura e renovação na obra poética de Cecília. Ate então, sua poesia ainda estava ligada ao neossimbolismo e a uma expressão mais conservadora. O novo livro trouxe a libertação, representando a plena conscientização da artista, que pode a partir de então afirmar a sua voz personalíssima: "Um poeta e sempre irmão do vento e da água:/ deixa seu ritmo por onde passa", mesmo que esses locais de passagem existam apenas em sua mente.

Como o titulo sugere, o livro e uma longa e sedutora viagem, mas por rotas imaginarias, identificadas com os sonhos que se dissolvem em lonjuras sem margens, com vaga consistência de realidade, na qual as palavras se harmonizam em pura musica: "Estou diante daquela porta/ que não sei mais se ainda existe.../ Estou longe e fora das horas,/ sem saber em que consiste/ nem o que vai nem o que volta.../ sem estar alegre nem triste".

Esse estado de alma - ou estados de alma, pois a sensibilidade aguçada do poeta esta sempre aberta a estímulos e sensações - pode ser compreendido, como sugere Alfredo Bosi no prefácio, como um "sentimento de distância". Essa distancia em relação ao mundo visível, material, favorece uma aproximação mais profunda da poeta consigo mesma, absorvida em seu mundo interior, mas também inquieta e intrigada diante de sua própria imagem, como se comprova nos versos de "Retrato": "Eu não tinha este rosto de hoje,/ assim calmo, assim triste, assim magro,/ nem estes olhos tão vazios,/ nem o lábio amargo". Encontro consigo mesma, revelação e descoberta, sentimento de libertação, desvio pelas rotas dos sonhos, essa Viagem se consolida numa serie de poemas de beleza intensa que, por vezes, tocam os limites da musica abstrata.

158 pages, Kindle Edition

First published January 1, 1939

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About the author

Cecília Meireles

107 books157 followers
Cecília Benevides de Carvalho Meireles was a Brazilian writer and educator, known principally as a poet. She is a canonical name of Brazilian Modernism, one of the great female poets in the Portuguese language, and is widely considered the best poetess from Brazil, though she rightly combatted the word "poetess" because of gender discrimination.

She traveled in the Americas in the 1940s, visiting the United States, Mexico, Argentina, Uruguay and Chile. In the summer of 1940 she gave lectures at the University of Texas, Austin. She wrote two poems about her time in the capital of Texas, and a long (800 lines) very socially-aware poem "USA 1940", which was published posthumously. As a journalist her columns (crônicas, or chronicles) focused most often on education, but also on her trips abroad in the western hemisphere, Portugal, other parts of Europe, Israel, and India (where she received an honorary doctorate).

As a poet, her style was mostly neo-symbolist and her themes included ephemeral time and the contemplative life. Even though she was not concerned with local color, native vernacular, or experiments in (popular) syntax, she is considered one of the most important poets of the second phase of the Brazilian Modernism, known for nationalistic vanguardism.

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Displaying 1 - 17 of 17 reviews
Profile Image for Walter .
469 reviews6 followers
November 13, 2018
Já conhecia a poesia de Cecília Meireles em fragmentos, mas não em obra completa. Esta experiência com "Viagem" (sua primeira grande obra e ganhadora de inúmeros prêmios) não poderia ter sido muito melhor. A autora se debruça em temas como a natureza, o amor, a solidão ou a superação do eu de maneira magistral. O Brasil é um pais preenchido de inúmeros poetas de imensa qualidade, mas Cecília Meireles é minha preferida.

----Noções----

Entre mim e mim, há vastidões bastantes
para a navegação dos meus desejos afligidos.

Descem pela água minhas naves revestidas de espelhos.
Cada lâmina arrisca um olhar, e investiga o elemento que
a atinge.

Mas, nesta aventura do sonho exposto à correnteza,
só recolho o gosto infinito das respostas que não se
encontram.

Virei-me sobre a minha própria existência, e contemplei-a
Minha virtude era esta errância por mares contraditórios,
e este abandono para além da felicidade e da beleza.

Ó meu Deus, isto é a minha alma:
qualquer coisa que flutua sobre este corpo efêmero e
precário,
como o vento largo do oceano sobre a areia passiva e
inúmera...
Profile Image for Rosa Ramôa.
1,570 reviews84 followers
July 15, 2015
"Personagem


Teu nome é quase indiferente
e nem teu rosto já me inquieta.
A arte de amar é exactamente
a de se ser poeta.

Para pensar em ti, me basta
o próprio amor que por ti sinto:
és a ideia, serena e casta,
nutrida do enigma do instinto.

O lugar da tua presença
é um deserto, entre variedades:
mas nesse deserto é que pensa
o olhar de todas as saudades.

Meus sonhos viajam rumos tristes
e, no seu profundo universo,
tu, sem forma e sem nome, existes,
silêncio, obscuro, disperso.

Teu corpo, e teu rosto, e teu nome,
teu coração, tua existência,
tudo - o espaço evita e consome:
e eu só conheço a tua ausência.

Eu só conheço o que não vejo.
E, nesse abismo do meu sonho,
alheia a todo outro desejo,
me decomponho e recomponho".
Profile Image for Lee.
171 reviews
February 4, 2018
"Nem é preciso fazer nada, para se estar na alma de tudo."
Profile Image for Isis.
336 reviews18 followers
December 4, 2024
tantos poemas belíssimos, estou apaixonada
Profile Image for Ana.
148 reviews
October 23, 2019
Infelizmente, nos ultimos tempos, Cecilia Meireles anda muito underrated. Porém, sempre faço questao de voltar para ela. Os temas recorrentes de seus poemas sao: musica, canto, desencanto, passaros e aguas (do mar, do rio, da chuva e das lagrimas. Devia ser filha de Yemanja)

"A água da minha memória devora todos os reflexos".


CANTAR de beira de rio;
água que bate na pedra,
pedra que não dá resposta.
Cantar de beira de rio:
o mundo coube nos olhos,
todo cheio, mas vazio.
A água subiu pelo campo,
mas o campo era tão triste...
Ai!
Cantar de beira de rio.
______________________

Vou pelo braço da noite,
levando tudo que é meu:
— a dor que os homens me deram,
e a canção que Deus me deu.
______________________

EU CANTO porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.
______________________

ESTES MEUS tristes pensamentos
vieram de estrelas desfolhadas
pela boca brusca dos ventos?
...
Ou serão feitos só de mim,
estes meus tristes pensamentos
que boiam como peixes lentos
num rio de tédio sem fim?
______________________

AQUI estou, junto à tempestade,
chorando como uma criança
que viu que não eram verdade
o seu sonho e a sua esperança.
A chuva bate-me no rosto
e em meus cabelos sopra o vento.
Vão-se desfazendo em desgosto
as formas do meu pensamento.
Chorarei toda a noite, enquanto
perpassa o tumulto nos ares,
para não me veres em pranto,
nem saberes, nem perguntares:
«Que foi feito do teu sorriso,
que era tão claro e tão perfeito?»
E o meu pobre olhar indeciso
não te repetir: «Que foi feito...?»

__________________________

Passarinho ambicioso
fez nas nuvens o seu ninho.
Quando as nuvens forem chuva,
pobre de ti, passarinho.


Meus preferidos:

EPIGRAMA N.o 2
ÉS PRECÁRIA e veloz, Felicidade.
Custas a vir, e, quando vens, não te demoras.
Fôste tu que ensinaste aos homens que havia tempo,
e, para te medir, se inventaram as horas.
Felicidade, és coisa estranha e dolorosa.
Fizeste para sempre a vida ficar triste:
porque um dia se vê que as horas tôdas passam,
e um tempo, despovoado e profundo, persiste.
____________________________

EPIGRAMA N.o 7
A TUA RAÇA de aventura
quis ter a terra, o céu, o mar.
Na minha, há uma delícia obscura
em não querer, em não ganhar...

A tua raça quer partir,
guerrear, sofrer, vencer, voltar.
A minha, não quer ir nem vir.
A minha raça quer passar.

_____________________

RETRATO
EU NÃO tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem êstes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha êste coração
que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
— Em que espelho ficou perdida
a minha face?

Profile Image for Maykon.
4 reviews
October 20, 2021
Uma leitura agradável. Cecília é uma pensadora compulsória, sempre com muito para refletir. Seu olhar de vida é intrigante, certas peças são tão delicadas que requerem do leitor um tempo para si, sentados pasmos e abosrvendo o que aconteceu. Alguns deles parecem ser escritos sobre o mesmo assunto ou sentimento, de formas, abordagens e profundidades distintas, em certos momentos deixando uma sensação de "eu já li isso antes", o que é meio embaraçoso para uma leitura tão enxuta, mas também compreensível se você considerar a personalidade de quem o fez - ela estava tentando escrever aquela angústia para fora, expulsá-la da forma que ela conhece de melhor, seu dom. Pode ser serena, turbulenta ou estática, mas é uma tela bem pintada, afetuosa e pungente.
Profile Image for Suellen Rubira.
955 reviews89 followers
July 20, 2019
Estou em processo de leitura de toda a poesia de Cecília Meireles e, claro, as primeiras impressões são sinceras e só às vezes traiçoeiras. Isso em um nível subjetivo, claro. Considerando suas obras iniciais, para mim, Cânticos é quando Cecília dá aquele baque na gente. A seguir, Morena, Pena de amor é um livro-poema bastante interessante e bem construído, rimado. Viagem surge como uma obra de vários poemas distintos (mas, de certa forma, ligados) que trazem as imagens caras a Cecília: o mar e a nuvem.
Profile Image for ela.
94 reviews5 followers
January 18, 2025
estou diante daquela porta
que não sei mais se ainda existe...
estou longe e fora das horas,
sem saber em que consiste
nem o que vai nem o que volta...
sem estar alegre nem triste,

sem desejar mais palavras
nem mais sonhos, nem mais vultos,
olhando dentro das almas
os longos rumos ocultos,
os largos itinerários de fantasmas insepultos...
Profile Image for Helena Ratonica.
8 reviews
January 7, 2026
ainda vou desvendar todos os seus enigmas.

(Porque existe um esplendor e uma inútil beleza
nessas mãos que desenham dentro da água sua viagem
para fora da natureza,

onde não chegará nunca esta água imprecisa,
que nasce e desliza, que nasce e desliza...)
Profile Image for Everton Azevedo.
133 reviews
March 2, 2021
Primeiro livro da fase madura da poeta. Possui 99 poemas dentre os quais, 13 epigramas que costuram a obra.
O tema que dá o tom do livro (e, de toda a poesia da autora) é a fugacidade da vida no tempo, e, portanto, o imperativo de viver e cantar esse breve momento:

“Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta."...

O mar é o cenário mais presente e simboliza a perenidade ou a atemporalidade, a eternidade possível em meio à efemeridade das coisas, mas isso apenas de um modo geral, pois o seu significado varia, ganhando contornos distintos dependendo do poema, afinal o mar é vasto e multiforme, como a poesia da autora, e o viver é travessia, é viajar, é navegar, enfrentando todos os riscos e indo além da superfície, correndo inclusive, o risco até de naufragar.

“Cessará essa música de sombra, que apenas indica valores de ar.
Não haverá mais nossa vida, talvez não haja nem o pó que fomos.
E a memória de tudo desmanchará suas dunas desertas,
e em navios novos homens eternos navegarão.”
Profile Image for Isabele Da Costa.
28 reviews
July 20, 2022
Creio que faltou um cadinho de paciência na hora de publicar os poemas, se Cecília segurasse um pouco mais os textos, buscando aprofundar as ideias, seria uma leitura bem mais interessante. Passei pela maioria dos poemas tendo a sensação de que lia um livro infanto-juvenil, o que não é um descrédito, só uma forma de reconhecer o quanto as imagens poéticas poderiam ter sido melhor aproveitadas se houvesse um refinamento maior na linguagem. Por outro lado, a leitura valeu muito a pena por poemas como Assovio e Medida da significação. Ainda não peguei outros livros completos dela, mas um ou outro poema que li de livros posteriores parecem mostrar esse refinamento que senti falta em Viagem (((na segunda leitura, depois de ter lido Mar absoluto e Vaga música, posso reafirmar com tranquilidade que Meireles seguiu essa linha muito bem))).
Profile Image for Meli.
761 reviews
December 9, 2023
Uma coleção variada na qual muitos poemas são superficiais. Contudo, nas mais fortes, Meireles descreve um grande valor à natureza e uma profunda melancolia.

Eu não tinha este rosto de hoje,
Assim calmo, assim triste, assim magro,
Nem estes olhos tão vazios,
Nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
Tão paradas e frias e mortas;
Eu não tinha este coração
Que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
Tão simples, tão certa, tão fácil:
— Em que espelho ficou perdida
a minha face?
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