Muito filosófico e existencialista, este romance relata a vida de um jovem professor do liceu (ao que parece o alter-ego do autor) que, tendo perdido o pai há pouco tempo, se perde em reflexões sobre o sentido da vida, acabando por nelas envolver uma série de outras pessoas.
Apesar do tema pesado e de uma dose substancial de tragédia, não achei “Aparição” um livro triste nem deprimente, contendo mesmo algumas passagens bastante animadoras.
Às vezes ponho-me a pensar no caso dos meus filhos. Eles são seres independentes, sentem-se a si próprios sem ligações com nada, como nós nos sentimos em relação aos nossos pais. Ainda que se pareçam connosco, que tenham os nossos tiques, eles não o sabem, não o entendem. Mas eu vejo-os de mim para eles e sinto que alguma coisa de mim está neles, que alguma coisa me pertence. A minha vida é única, é um “milagre”, como tu dizes. O nada absoluto da morte atordoa. Mas eu sei que para além de mim há a vida e que a vida não morre.
Mas sobretudo, a escrita é muito bonita e dá prazer ler, só mesmo por isso: Regresso a férias pela primeira vez, depois que o meu pai morreu. Natal. Possivelmente não haverá ceia este ano. Para mim não faz diferença: estou eu e aquilo que me povoa. A evidência da vida não é a imediata realidade mas o que a transcende e estremece na memória. A minha memória está cheia.
Ou então porque algumas passagens refletem a minha própria experiência. Esta, por exemplo relata de forma bastante fiel o que senti durante umas arrumações que fiz nas últimas férias em casa dos meus avós: Subitamente, no meio da confusão da livralhada, descubro o álbum da tia Dulce. (…) É um álbum velho, pesado como o tempo. (…) As folhas cartonadas só se passam devagar; e em cada face de folha, só um ou dois retratos. Vida efémera. Tão breve. (…) Cerro os olhos e sei de novo que toda esta gente morreu. Mas o que mais me perturba é pensar que o rasto dessa gente está suspenso de mim. Porque eu tenho ainda uma pequena notícia da sua vida, o eco apagado do que foi a massa complexa do seu ser e sentir. (…) Mas de muitos retratos já nada sei. São esses que eu fito com mais angústia. (…) Que medos, que sonhos, que virtudes lhes inventaram a vida em eternidade? (…) Frágeis fios destas imagens amarelecidas, convergindo para mim, para a minha memória cansada, presos do futuro por uma breve referência, uma nota, uma etiqueta. Terei um filho talvez. Eu lhe contarei o que sei de vós. Mas ele o esquecerá talvez, ou o filho do meu filho, ou o filho do filho do meu filho. Então aparecereis num recanto do sótão, absurdos, incríveis, inquietantes, com uma face a falar ainda, como o olhar de um cão que nos fita, nos procura, e que o silêncio de permeio e que um vidro de permeio separam irremediavelmente de nós. Mas agora ainda estais vivos, ainda alguém, eu, aqui, silencioso nesta casa solitária, vos liga à vida que freme para lá destes muros (...). Sede vivos neste instante infinitesimal em que vos fito e vos sei um nada do vosso convulso e rico e inverosímil milagre.
Uma boa leitura, que só não me encheu as medidas porque em certas partes me pareceu arrastar-se / repetir-se um pouco e alguns diálogos me pareceram um tanto artificiais.