3,5*
Um contador de histórias viris formadas a partir de uma cultura que dispensa a escrita e desconhece o arquivo, favorecendo antes o testemunho, o relato oral e dramático, o prazeroso ato de conversar.
Quando um/a escritor/a faz sucesso, há dois movimentos inversos que se seguem quase sem falha: publica-se o que é escrito depois, repesca-se o que foi escrito antes, o que pode resultar ou não, porque, de facto, há 10 anos essa pessoa dificilmente era a mesma e se expressava da mesma forma. A prática leva à perfeição há de ser sempre um dos meus lemas. Publicado originalmente em 2013, “Isto não é Miami” mostra mais o lado de jornalista do que de ficcionista de Fernanda Melchor e é como virar uma peça de roupa do avesso: vemos as costuras que lhe deram origem, como se processou a sua construção, mas também se detecta o alinhavado mais tosco, os pontos ainda incertos, em suma, as primeiras criações de quem iria longe.
A cidade é o terreno onde as histórias se criam e reproduzem. E é também o lugar onde morrem. As histórias extinguem-se porque a cidade, palco da realidade, é silenciosa apesar do seu bulício: não pode contar-se a si mesma, não pode aliás contar nada. As histórias, como já analisou Sartre, não são contadas pela realidade, são contadas pela linguagem humana, pela memória.
- Nota da Autora -
Em 12 relatos agrupados por temas (Luzes, Fogo, Sombra), percebemos como viver numa cidade como Veracruz, no México, moldou a existência e a escrita de Melchor, num país sobejamente conhecido pela violência, pela corrupção e pelo narcotráfico, mas também pelo misticismo e pelo sobrenatural. É quando a autora se embrenha nestes últimos tópicos, que se prestam mais à especulação e à ficcionalização, que realmente me conquista, enquanto os textos sobre o crime organizado e os cartéis de droga tendem a saturar-me. Privilégio de quem não vive as situações e pode virar-lhes costas, obviamente. Daí que as minhas narrativas preferidas tenham sido “A Casa de Estero”, um clássico da casa assombrada com direito ao exorcismo da praxe, e “Uma Prisão à Filme”, quando uma cadeia é esvaziada para servir de cenário a um filme de Mel Gibson, um episódio tão bizarro que parecia inventado. “Isto Não é Miami”, que dá título à colectânea, é assustador por sabermos que também é assim que se processa a emigração ilegal; “O Corrido do Queimado” relata um caso de justiça popular numa pequena comunidade ao som de um corrido; “Rainha, Escrava ou Mulher” é povoado por fantasmas e uma mãe infanticida, enquanto “Luzes no Céu” me fez recuar à minha infância, numa época de livros aos quadradinhos e de curiosidade pelo inexplicável.
Em matéria de banda desenhada, eu era mesmo uma ingenuazinha: naquela altura gostava das “histórias” de ‘Archie’, da ‘Luluzinha’, das ‘Aventuras do Tio Patinhas’, e não passava disso. Mas havia no quiosque uma publicação em destaque que me atraía e fascinava como a luz às traças: o ‘Semanario de lo Insolito’, uma verdadeira enciclopédia do choque e do terror, um breviário de monstros humanos e fotografias manipuladas de baixíssima qualidade.