O livro “O Delfim”, do português José Cardoso Pires, quem mo trouxe à atenção foi o Carpeaux, já nas páginas finais de sua História da Literatura Ocidental. Com uma pontual recomendação, indicando “O Delfim” como uma obra-prima, o crítico austro-brasileiro conseguiu atiçar minha curiosidade o suficiente para incluí-lo em minha lista de leituras, apesar de não estar mais em qualquer outra das minhas fontes habituais. Se é ou não uma obra-prima, isso eu tirei a limpo com a leitura e digo a quem tiver paciência de me acompanhar.
Em “O Delfim”, há uma diferença marcada, exemplar mesmo, entre o tempo real e o tempo interior. Contando-se das primeiras páginas, que marcam a chegada do narrador à aldeia ficcional chamada “Gafeira” e sua instalação numa pousada, até as finais, com o nascer do sol, passam menos de um dia, isto é, da manhã de um dia (1ª de novembro, dia de todos os Santos) até a madrugada do seguinte, dia de finados. No entanto, não é propriamente com os fatos do tempo real que se preenchem as páginas, mas com as memórias, evocações, impressões e raciocínios desenvolvidos pelo narrador.
A escolha da voz narrativa foi bem apropriada para o método empregado: trata-se de um narrador em primeira pessoa, personagem que interaje com os demais, mas, ao contrário de um narrador em primeira pessoa tradicional, ele acaba por adquirir um simulacro de onisciência narrativa através da imaginação e recomposição de certas cenas a partir de boatos, lembranças, autos judiciais e demais elementos externos que funcionam como combustível para o seu febril cogitar.
Nessas evocações e imaginações, o tempo vai se estendendo, e dentro de uma lembrança nasce outra, que dá azo a um raciocínio, e lá surge uma evocação que traz ao presente, empurra para o passado novamente, mas já não como lembrança e sim como especulação, só para que haja uma associação fortuita que traga novamente o narrador para o presente. Em outras palavras, há um esforço consciente de José Cardoso Pires em mimetizar os processos de pensamento humano, que jamais são tão coerentes e focados como aparecem nos romances mais tradicionais.
Não obstante, há ainda muito de artifício na coisa, dando ao desenrolar da estória algo de concentração, algo de narração linear, sob pena de tornar intolerável a leitura. Isto é dizer que por trás desse mergulho no subjetivo algo há de objetivo que guia e impulsiona não apenas a mente do narrador como também suas (poucas) ações externas.
Esse algo de objetivo é a notícia da morte trágica de Domingos e Maria das Mercês, bem como do desaparecimento de Tomás Manuel da Palma Bravo, conhecido como O Infante ou O Engenheiro, patrão daquele e marido desta.
O narrador havia estado na Gafeira em outras oportunidades, sempre para a temporada de caça aos patos e outras aves da região, caçada esta que se dava na altura da Lagoa que era de propriedade multissecular da família Palma Bravo. Nas visitas anteriores, travou conhecimento e se tornou amigo frequente de Tomás Manuel, o Engenheiro, herdeiro da propriedade e da lagoa, elo atual de uma família de notáveis que já era famosa o suficiente para que, em 1801, viesse a constar como notória dinastia em uma memória escrita por um abade local.
O Engenheiro é um homem até certo ponto típico: um homem rico e bem educado, casado com uma jovem e bela mulher, e que no entanto não se satisfaz com a vida que tem e sempre busca aventuras, seja sexuais, seja desportivas. Tem ideias extravagantes, um quê de macho-alfa querendo épater le bourgeois, mas, apesar de tudo, alguém generoso a seu modo e consciente do legado que recebera. Sua esposa é Maria das Mercês, jovem, bela e entediada, que passa o dia fumando e dissolvendo comprimidos de aspirina na língua. Completa a casa da lagoa um casal de idosos e um auxiliar, chamado de sombra do Engenheiro, de nome Domingos, mulato maneta, personalidade retraída.
O narrador fica sabendo, ao chegar em Gafeira, que o Egenheiro estaria foragido da justiça por ter assassinado sua esposa logo após ter descoberto que esta matara o criado Domingos. Esta é a versão que circula pela boca do velho da lotaria, espécie de jornalista local. Mais tarde, fica sabendo ao Regedor que houvera um processo crime e que neste processo ficara provado que Maria das Mercês havia se matado ou, ao menos, morrido acidentalmente, afogada na lagoa, ao se embrenhar no mato, na direção do mar. Mas de Domingos ou do motivo do assassinato, nada se fala.
Há, como eu já mencionei, poucas ações externas do narrador. Essa conversa com o velho da lotaria – teria sido uma ação externa ou uma recapitulação da memória? Impossível saber -, um passeio até a lagoa, uma conversa com o Regedor, um encontro fortuito com o Padre Novo, pequenas interações com a dona da pensão, a quem chama “monte de seios”, dentre outros nomes desabonadores, com sua criadita - e nada mais.
Não é aquele mundo vivo e feérico dum Eça de Queirós, nem o teatro metafisicamente arquitetado dum Camilo Castelo Branco; nem mesmo as memórias angustiantes dum Vergílio Ferreira, porque nesses três os personagens presentes, atuantes, são importantes e bem marcados. Nada disso em José Cardoso Pires. Nele, os personagens presentes são insignificantes, mesmo que descritos de forma tradicional, e os ausentes, os que mais importam, aparecem apenas refletidos e incompletos nas recordações fragmentadas (e que recordação não o é?) do autor-narrador, como se a unidade de cada personagem dependesse da percepção constante de dados externos pelos sentidos.
A estória, com todo esse jeito indireto, ramificado e até caprichoso de ser contada, atrai e prende. Não só pelo assassinato e o mistério que o envolve, não apenas pelo fascínio que aquela existência decadente da casa da lagoa exerce, mas sobretudo porque pressentimos que o autor sabe perfeitamente o que ocorreu e que, não obstante, esconde os fatos dos leitores, não por um capricho dele, nem por conta de pontos ainda não revelados, mas apenas porque se limitou a seguir o interesse de seu próprio pensamento, e esse interesse não é de modo algum uma espécie de “whodunnit”, senão entender, nas cenas do passado, o que estaria ali denunciando a tragédia do futuro.
Diz Carpeaux dos romances policiais que “o crime, no romance policial, sempre é misterioso; mesmo quando se conhece o criminoso, são misteriosos os meios que empregou, ou então os motivos. Os ingleses chamam o romance policial, simplesmente, mystery” (“Técnica do Romance Policial”).
Nesse sentido, é “O Delfim” uma total subversão do romance policial – e mesmo do conto gótico, que lhe criou e emprestou a estrutura. A matéria do mythos policial, o crime, as motivações e os detalhes fáticos, tudo já foi resolvido. “Está nos autos”. Não é isso que interessa. O narrador, intelectual e escritor que apenas por desfastio é caçador, odeia e abomina a liguagem oficial, o tom burguês, o clichê. E é por isso que rejeita a “verdade” que está nos autos. Ele mesmo, retomando uma conversa com o Engenheiro – coisa que faz constantemente no romance –, ele mesmo acena para o leitor, dizendo dos romances policiais que têm sua forma tradicional e seu sucesso devido ao fato de que o “burguês pacato precisa de acreditar nas instituições. Mostrar-lhe que pode haver crimes perfeitos era o fim da sua tranquilidade.». Mas tampouco é à imaginação popular que se inclina: recua, cheio de abusões, dos boatos mesquinhos e invejosos dos pequenos da terra.
É aos sinais dos fados, nas cenas que viveu, a que se inclina. E quando o leitor descobre e se entrega a essa pretensão, a maquinação do romance se lhe revela, esplendorosa e verossímil.
De fato, havia ali muitos sinais do fatídico fim de Maria das Mercês e de Domingos, quase todos presentes nas ideias amalucadas de Tomás, o Engenheiro. Tomás sonha com túmulos subaquáticos em sua lagoa, Maria das Mercês vai ali parar no seu túmulo subaquático. Tomás se obceca com a estória de uma de suas amantes, uma manicura casada com um velho a quem odeia, e que o mata do coração usando o sexo como arma do crime, o crime perfeito, e é assim que Maria das Mercês mata Domingos, usando o sexo para explorar as fraquezas de seu “coração de passarinho”. É a fascinação de Domingos pela esposa de seu patrão que justifica o desinteresse do criado pelas raparigas e os prazeres fáceis da cidade, tão notado e zombado por Tomás junto a sua esposa. Domingos é a sombra de Tomás, e Maria das Mercês, perdendo rápido a afeição e exclusividade do marido, se apega à sua sombra como se ela fosse o próprio Tomás. É por isso também que Domingos não revida à surra que lhe impõe Tomás: sabia estar conspurcando seu leito e violando as regras da vassalagem.
Raios, até mesmo a cena desnecessariamente naturalista dos cães copulando no largo, incapazes de desvencilhar-se um do outro, até essa cena ganha sua significação como augúrio da tragédia!
Mas aí somos obrigados a nos perguntar: essas coisas, esses sinais, são realmente sinais? Seriam um grande sistema de augúrios ou são apenas a atenção, memória e até imaginação seletivas do autor que, depois de descobrir a verdade, vagueia de imagem em imagem, em associação frenética, vendo em tudo um fio de Ariadne que o tirará do vórtice sem sentido?
O romance termina sem que isto fique respondido. A reafirmação do que houve faz a mente repousar nos fatos, no que é objetivo. Mas a viagem de compreensão ocorrida na alma do narrador não parece ter sido em vão, pois além de aumentar o conhecimento e consciência desse detetive de casos resolvidos, ainda fornece, para quem tem olhos de ver, um modelo de meditação e investigação que muito me lembra o do Comissário Maigret: entender, entender e entender cada vez mais os dramas humanos, as personalidades, sem deduções bonitinhas mas ordinárias, como as do fastidioso Sherlock Holmes.
Não sei se alguém além de mim já pensou isso, mas quando estou passeando por um lugar, novo ou velho conhecido, fico pensando se seria possível escrever um romance interessante que eternizasse aquele lugar na literatura, sem necessidade, é claro, de que as pessoas ou mesmo os fatos reais ali ocorridos sejam efetivamente interessantes. Trata-se aqui daquele poder numinoso do escritor de descobrir e conquistar novos lugares para a literatura, pela força de sua imaginação e de sua expressão. Pois bem, perguntando-me isto, sinto que a prosa de “O Delfim” veio a completar a resposta para a charada, já parcialmente dada pelo “Amanuense Belmiro”, de Cyro dos Anjos: o poder de tornar tudo interessante consiste em passar tudo pelo crisol da alma humana, desde que ela esteja desprovida de qualquer teatralidade ou desejo de causar efeitos calculados. E que fuja, como o diabo à Cruz, dos clichês.