[Mais do que uma recensão, isto é uma reclamação que, apesar das evasivas, pode revelar demasiado sobre a trama.]
Que merda de livro! Pardon my French.
Não havendo matéria fecal como nos últimos livros que me têm enojado, “Herança” é uma obra tão suja que me sinto conspurcada só por tê-la lido. É um lodo em que a protagonista não pára de remexer, de atirar para todo o lado, em que se enterra cada vez que se debate, arrastando toda a gente à volta, incluindo o leitor.
Tudo começa com um quezília totalmente mesquinha sobre a partilha de duas casas de verão em que os pais favorecem as duas filhas mais novas em detrimento da narradora e do irmão, que se afastaram dos pais, justificadamente, há muitos anos. Há portanto uma explicação obscura, e foi para deslindar este segredo que li “Herança”, sempre a pensar “não pode ser aquilo, porque será demasiado óbvio nos dias de hoje em que é sempre aquilo, porque não podem sair todos os meses livros sobre aquilo, porque é um voyeurismo do caraças” e porque não leio sobre o assunto, com todo o respeito pelas vítimas, senti-me mesmo burra por ser sobre aquilo, mais uma vez. São 326 páginas de texto concêntrico, redundante, obsessivo, bastante básico até.
Pois, eu não podia deixar nada para trás. Uma filha nunca esquece. Não era como se tivesse molhado as calças e as pudesse simplesmente despir e pôr a secar ao sol, voltando a vesti-las quando estivessem secas e esquecendo que o fizera. As calças ainda estavam molhadas!
Este livro é neurótico, repetitivo e cansativo, sensação para que também contribuiu o uso e abuso de certos vocábulos na tradução portuguesa (se voltar a ler “tão-só”, “sobremaneira”, “quiçá” nos próximos tempos, dá-me um fanico).
Os membros desta família são todos doentes da cabeça, e quem não faz terapia devia fazê-la e quem não morre no decorrer da ação, devia ter morrido e sinto-me uma má pessoa por não sentir o mínimo de empatia por esta Bergljot que aluga o tempo e a paciência dos amigos e dos filhos dia e noite. Desses, sim, tenho pena. Poderia ter feito como é habitual para mim, ter largado este livro a meio, altura em que o segredo é revelado, mas tive esperança de que houvesse uma evolução na protagonista, que esta história fizesse algum género de arco, mas não, ela desenvolve-se em elipses, em que depois de um contacto com os pais ou a irmã, Berljot, liga à filha, depois ao filho, depois à amiga Klara, depois encontra-se com o amigo Bo, depois envia uma mensagem ao irmão, depois liga à segunda filha e ainda liga ao namorado e à amiga Karen. Quando tem de tomar uma decisão, liga ao filho, à amiga Klara, toma um café com uma filha, liga à outra filha, à amiga Karen, conversa com o amigo Bo, envia um e-mail ao irmão e fala pessoalmente com o namorado. Quando se irrita com o acto das referidas pessoas, liga… Acho que já se percebeu.
Esforçámo-nos por nos divertir, mas eu só falava de uma coisa. Tentei falar de outras coisas, mas acabei sempre por falar da coisa. Do meu pai, do funeral, da minha infância, que bem trará tudo isto, agora não há nada a fazer, resta apenas pôr tudo para trás das costas. Sabia que ele tinha razão, mas como é que se fazia isso, como se punha algo para trás das costas? Sabia que o estava a aborrecer, porém, não me continha.
É um remoer, um ruminar, um repisar que começou há 23 anos, quando de repente se lembrou do que lhe acontecera na infância, e que parece não ter fim. Ao contrário do que esperava, não há vingança ou apaziguamento, algo que a fizesse encontrar paz e dar paz aos que a rodeiam, sobretudo os filhos. Nem o corte insinuado nas últimas páginas me apazigua a mim.
Decididamente, dispenso os noruegueses e os seus podres de família explanados em auto-ficção.
Sentei-me no terraço envolta pela escuridão de San Sebastian e bebi vinho e fiquei furiosa com o meu pai e arranquei a pulseira. Quando acordei na manhã seguinte sem a pulseira de luto, esqueci-me da morte do meu pai e da minha dor até escorregar nas contas pretas e ter de me baixar para apanhar o meu pai.