Ivone Mendes da Silva (1959) estudou Línguas e Literaturas Clássicas e é mestre em Línguas Literaturas e Culturas. Defendeu tese sobre as (re)citações de Eurípides na Medeia de Mário Cláudio. Gosta de tragédia, portanto, e do quotidiano o que é quase sempre a mesma coisa. Tem colaborado com a revista Ler e com a Egoísta e possui publicação dispersa em antologias de poesia. Publicou em 2011 o livro de poemas Ordem Breve.
Os likes que aparecem em resenhas não escritas são um mistério curioso. Basta eu começar a ler um livro, e lá surge um like na resenha que ainda nem existe. É como se alguém soubesse mais dos meus planos do que eu própria! No final, acabo por apagar livros da minha lista todos os dias, já que a paciência para este fenómeno também tem limites. ********************************************
Eu gosto de likes inesperados em resenhas não escritas de livros ainda não lidos. Obrigada pelo voto de confiança, minhas senhoras!
Comecei a ler muito cedo e fui andando pelos livros acima. Muito adolescente ainda eu sabia que no mundo havia a morte o sexo o amor a traição a guerra e o mal não porque os tivesse vivido mas porque os tinha lido. Não sei – talvez nunca saiba – se isso me foi vantajoso. Mas enformou o meu olhar e sem remédio.
Enquanto Ivone Mendes da Silva não agracia o seu número crescente de admiradores com novidades, saúdo a reedição deste seu livro há muito esgotado.
Não voltou a chover e eu fiz sopa de tomate. Não há qualquer relação entre as duas coisas. Ou talvez haja. Subtis ligações entre todas as coisas que existem desde as vegetais às minerais desde a chuva aos meus pensamentos. Mas não quero descobri-las porque gosto da persistência da dúvida. Sei – isso sim – que a alma é um gato. Inapreensível numa esquiva de veludo entre os dedos.
Gostei um nadinha menos de “A Mulher do Meio” do que de “Dano e Virtude”, mas encontrei a explicação para isso nas palavras da própria autora.
Releio-me e penso outra vez que a diarística está condenada à repetição.
É a repetição real do dia-a-dia da maioria de nós que Ivone torna excepcional através de minudências, de um olhar observador e de uma reflexão sagaz.
Sempre tive uma longa admiração pelas pessoas que escrevem sobre assuntos graves e sérios. A mim o que me prende é a sombra do candeeiro recortada na parede. As luzes acesas nas janelas do prédio em frente. A ramada agitada das tílias lá em baixo. Construo laboriosamente um léxico para a banalidade e dele me sustento.
Seja em casa, envolta no seu xaile, no meio de frioleiras (expressão sua)…
Procuro bagatelas perdidas pedaços de tecido um travessão de cabelo um lenço esquecido como quem se defende do rumor dos dias.
…ou nas suas caminhadas que entram pela noite adentro, independentemente da estação do ano…
Se eu não fosse uma criatura tão caminhante perdia grande parte do espectáculo do mundo.
…tanto no café das mulheres tristes como no das senhoras dos chás, onde a sua costela de misantropa a faz chegar em contracorrente, escreve sem pressa nos seus cadernos…
Durante o dia também conversei com umas pessoas. A meio da conversa e para responder a uma pergunta que me fizeram disse: a literatura é a minha alegria. Olharam-me compadecidas como se eu tivesse enunciado uma forma de demência. Depois continuaram a conversar e não me perguntaram mais nada.
…Ivone Mendes Silva escreveu um manual de sobrevivência para os dias maus de uma mulher que está a meio da vida.
Não sei se a linguagem e as suas representações podem salvar alguém de alguma coisa mas talvez só por elas eu tenha descoberto o meu lugar no mundo.
A leitura de “A Mulher do Meio” trouxe-me uma sensação de familiaridade com conceitos como o epicurismo e o “carpe diem” que interiorizei há muito com um dos meus poetas preferidos, e foi no fragmento que se segue que consegui localizá-la.
Podei a minha roseira com uma tesoura de bordado. Intuí que o caule mais forte estaria a prejudicar o mais frágil e que nasceu depois. Tenho uma caixa de costura onde guardo objectos que nunca usei mas de que gosto e por isso os mantenho. Tenho uma roseira no parapeito porque sempre achei que regar as minhas rosas seria uma boa filosofia de vida.
Prefiro rosas, meu amor, à pátria, E antes magnólias amo Que a glória e a virtude. Logo que a vida me não canse, deixo Que a vida por mim passe Logo que eu fique o mesmo. Que importa àquele a quem já nada importa Que um perca e outro vença, Se a aurora raia sempre, Se cada ano com a Primavera As folhas aparecem E com o Outono cessam? E o resto, as outras coisas que os humanos Acrescentam à vida, Que me aumentam na alma? Nada, salvo o desejo de indiferença E a confiança mole Na hora fugitiva. - Ricardo Reis -
244 “Espreito o calendário com um olhar receoso e conto quantas tardes imensas de luz Agosto ainda estende à minha frente.”
O que torna este livro diferente? Escrever sobre as trivialidades dos nossos dias e dizer-nos que, por vezes, as melhores coisas da vida são encontradas nos instantes mais simples. Uma leitura que gostei bastante, recomendo!
Acho que não é preciso dizer nada sobre Ivone Mendes da Silva.
15.
Ir beber um chocolate com uma amiga já bem ao fim da tarde e conversar sobre livros e sobre a vida. Caminhar pelas ruas com passo apressado e o frio a bater-me na cara. Tomar um duche quente e comer depois uma sopa de tomate já de pernas esticadas no sofá. Às vezes os dias maus acabam bem.
139.
Quem não saiu para Páscoas ao largo move-se ao sol do sábado com vagares de gato. O café tem muito menos gente. Numa das mesas senta-se uma pessoa que trabalha lá onde eu trabalho e dou uma volta escusada por entre as mesas só para não a cumprimentar. Cultivo diligente uma reputação de malcriada. Dantes ainda me acudiam alguns remorsos mas agora não, Fico assim ao abrigo de muito desagrado. (…)
210.
Roubei um figo e comi-o com o prazer tresloucado das coisas ilícitas. (…)
225.
(…) Eu viveria para sempre assim junto ao silêncio de uma janela alta sobre um jardim de sombra. (…)
231.
Férias. Já desci todas as persianas e guardei no frigorífico algumas coisas bem frescas. Durante uns dias bons terei a vida que gostaria de ter sempre. Nem horas marcadas nem obrigações nem vozes agrestes. Distância e sossego. Não creio que possa existir alguma coisa melhor.
249.
(…) Faço um esforço para ser malcriada mas a maioria das pessoas apenas me acha bizarra.
Como as coisas pequeninas podem significar tanto, um passeio, um café, uns brincos, uma romã, a luz fria e espantada de fevereiro ou a luz quente mas já ténue de outubro. Um livro que achei um mimo.
Belíssimo livro. “3. Sempre tive uma longa admiração pelas pessoas que escrevem sobre assuntos graves e sérios. A mim o que me prende é a sombra do candeeiro recortada na parede. As luzes acesas nas janelas do prédio em frente. A ramada agitada das tílias lá em baixo. Construo laboriosamente um léxico para a banalidade e dele me sustenho.”
3.5* apesar de inferior ao dano e virtude, continua a ser o registo comum da ivone. a sedução pelo mystério continua lá, a falsa simplicidade com pretensões oníricas, a confissão desbocada quer de alegria ou de impaciência...enfim, os seus recursos clássicos.
voltando ao registo anteriormente estabelecido, estes são poemas fragmentados em entradas de diário ilusórias, onde um quotidiano aparentemente real demais é reportado. a magia vem da imprevisibilidade entre frases, da confissão despojada no meio da descrição vaga, e também da reportagem do próprio exercício de escrita num passado. tudo na ivone é voltado à ideia de escrever. ela escreve sobre escrever, sobre como escreveu, sobre a própria técnica de escrever, aludindo frequentemente ao facto de estar/ter estado a escrever, criando um anacronismo com o movimento da escrita, ou a memória da mesma.
ligeiramente inferior ao dano e virtude, sobretudo nalguns finais mais óbvios ou banais. algumas entradas seriam de cortar (a meu ver), devido à redundância, mesmo que esta seja auto-referencial. por mim eram menos 30 páginas, talhando algum do entulho, e o livro estabilizava. de resto, quando atinge é muito único e muito alto.
Deixa de perguntar, Quinto de Hirpino, o que planeia o belicoso Cântabro, e o Cita - o Adriático separa-nos dele! E não te preocupes
com o que precisas na vida, que tão pouco pede. Para trás foge a macia juventude, e a beleza, e a seca velhice os fogosos amores arreda, e o sono fácil.
O encanto das vernantes flores para sempre não dura, nem a lua corando brilha num só gesto: porque fatigas tu a alma com eternos pensamentos que a excedem?
Porque não antes beber enquanto é tempo, assim sem mais deitados sob um alto plátano ou sob este pinheiro, perfumando os brancos cabelos com a rosa,
ungindo-os com asśrio nardo? Dissipa Évio os vorazes cuidados. Que rapaz irá lestamente o fogo do vinho falerno extinguir com a água que corre?
Quem fará sair de sua casa Lide, fugidia cortesã? Vamos, diz-lhe que se apresse com sua lira de marfim, atando seus despenteados cabelos num nó, como é hábito de uma Espartana.
Podendo não fazer eco em nós as mesmas ideias (“Já hoje comi uma fatia de bolo com uma amiga e conversámos durante algum tempo. Fomos irónicas e desencantadas o que me parece ser uma forma acertada de viver.”) ou o seu contrário (“Espera-me um dia desagradável com infindáveis reuniões e pessoas que me aborrecem. Tento convencer-me de que vai passar depressa. O meu desejo mais forte é sempre o de que o tempo passe depressa e não creio que esta seja a melhor forma de viver.”), é na misantropia da nossa condição que juntos, nós os leitores, atravessamos cautelosos “… o começo da manhã e o barulho hostil que chega com os outros. Ouvi de novo- mas já era só dentro de mim- a janela da minha cozinha aberta sobre a chuva. E disso me mantive.” Os livros da Ivone Mendes da Silva tentam parar a voragem temporal (“Sobrou-me hoje algum tempo e transportei-o com cuidado embora saiba que a paz é quebradiça e ninguém se protege do estremecer dos acasos.”) e a indeclinável espacial (“Devia ter ido buscar o livro. Por esta hora já estaria habitada pela beleza segura de uma frase certeira. E isso bastaria para me consolar.”) inflamam o comezinho (“Durante o dia também conversei com umas pessoas. A meio da conversa e para responder a uma pergunta que me fizeram disse: a literatura é a minha alegria. Olharam-me compadecidas como se eu tivesse enunciado uma forma de demência.”) e fazem-no com todas as cores e os cheiros das estações num ano. Mas isso é para mim. E que sei eu que nunca me havia cruzado com as palavras ubérrimo, marcescível e platitude?
«Sempre tive uma longa admiração pelas pessoas que escrevem sobre assuntos graves e sérios. A mim o que me prende é a sombra do candeeiro recortada na parede.» Uma mulher sozinha numa mesa de café, uma mulher a caminhar na rua, uma mulher sentada no sofá de casa, observa, tira notas, rememora, associa pensamentos, maravilha-nos com o que vê e o que transforma com o seu olhar. Diz que escreve para não perder os seus dias: «Não voltou a chover e eu fiz sopa de tomate.» «Debaixo de um dos carros da garagem está uma tangerina caída.» «Essas mulheres que nunca desistem e combinam a cor do batôn com a cor da écharpe são donas de uma força invejável «Releio-me e penso outra vez que a diarística está condenada à repetição. Se eu estiver a incomodar é favor contactar-me.» Não está, Ivone, está a encantar-nos. Confesso-me viciada nesta autora.
"A meio da conversa e para responder a uma pergunta que me fizeram disse: a literatura é a minha alegria. Olharam-me como se eu tivesse enunciado uma forma de demência. Depois continuaram a conversar e não me perguntaram mais nada." (p. 84)
"(...) e eu pensei que as mulheres vivem cansadas desde as fraldas dos filhos até às fraldas dos pais." (p. 97)
"A manhã começa e eu desfaço-me a custo do casulo da noite. Olho para as flores engaioladas e penso na inutilidade das metáforas." (p. 108)
"A tarde galga as horas com pressa. Sinto a tristeza sem remédio dos dias úteis." (p. 146)
Gosto mesmo do que esta autora escreve e como escreve, e demoro-me a pensar nos dias seguintes em algumas passagens que li.
Não sendo um livro péssimo, também não é propriamente bom, e muito menos tão fabuloso quanto o pintam. Apesar de algumas observações acutilantes e de um bom alinhavar do português, a obra não passa de uma coletânea de banalidades de uma mulher que, professora sem grandes problemas na vida, vê os dias decorrerem num marasmo reconfortante. Ou seja, não tem suficiente carga poética ou literária para extravasar uma certa diarística comezinha em que muita gente decerto se reverá. Mas será essa a sua vantagem perante o atual público leitor.