4,5*
Comecei a ler muito cedo e fui andando pelos livros acima. Muito adolescente ainda eu sabia que no mundo havia a morte o sexo o amor a traição a guerra e o mal não porque os tivesse vivido mas porque os tinha lido. Não sei – talvez nunca saiba – se isso me foi vantajoso. Mas enformou o meu olhar e sem remédio.
Enquanto Ivone Mendes da Silva não agracia o seu número crescente de admiradores com novidades, saúdo a reedição deste seu livro há muito esgotado.
Não voltou a chover e eu fiz sopa de tomate. Não há qualquer relação entre as duas coisas. Ou talvez haja. Subtis ligações entre todas as coisas que existem desde as vegetais às minerais desde a chuva aos meus pensamentos. Mas não quero descobri-las porque gosto da persistência da dúvida. Sei – isso sim – que a alma é um gato. Inapreensível numa esquiva de veludo entre os dedos.
Gostei um nadinha menos de “A Mulher do Meio” do que de “Dano e Virtude”, mas encontrei a explicação para isso nas palavras da própria autora.
Releio-me e penso outra vez que a diarística está condenada à repetição.
É a repetição real do dia-a-dia da maioria de nós que Ivone torna excepcional através de minudências, de um olhar observador e de uma reflexão sagaz.
Sempre tive uma longa admiração pelas pessoas que escrevem sobre assuntos graves e sérios. A mim o que me prende é a sombra do candeeiro recortada na parede. As luzes acesas nas janelas do prédio em frente. A ramada agitada das tílias lá em baixo. Construo laboriosamente um léxico para a banalidade e dele me sustento.
Seja em casa, envolta no seu xaile, no meio de frioleiras (expressão sua)…
Procuro bagatelas perdidas pedaços de tecido um travessão de cabelo um lenço esquecido como quem se defende do rumor dos dias.
…ou nas suas caminhadas que entram pela noite adentro, independentemente da estação do ano…
Se eu não fosse uma criatura tão caminhante perdia grande parte do espectáculo do mundo.
…tanto no café das mulheres tristes como no das senhoras dos chás, onde a sua costela de misantropa a faz chegar em contracorrente, escreve sem pressa nos seus cadernos…
Durante o dia também conversei com umas pessoas. A meio da conversa e para responder a uma pergunta que me fizeram disse: a literatura é a minha alegria. Olharam-me compadecidas como se eu tivesse enunciado uma forma de demência. Depois continuaram a conversar e não me perguntaram mais nada.
…Ivone Mendes Silva escreveu um manual de sobrevivência para os dias maus de uma mulher que está a meio da vida.
Não sei se a linguagem e as suas representações podem salvar alguém de alguma coisa mas talvez só por elas eu tenha descoberto o meu lugar no mundo.
A leitura de “A Mulher do Meio” trouxe-me uma sensação de familiaridade com conceitos como o epicurismo e o “carpe diem” que interiorizei há muito com um dos meus poetas preferidos, e foi no fragmento que se segue que consegui localizá-la.
Podei a minha roseira com uma tesoura de bordado. Intuí que o caule mais forte estaria a prejudicar o mais frágil e que nasceu depois. Tenho uma caixa de costura onde guardo objectos que nunca usei mas de que gosto e por isso os mantenho. Tenho uma roseira no parapeito porque sempre achei que regar as minhas rosas seria uma boa filosofia de vida.
Prefiro rosas, meu amor, à pátria,
E antes magnólias amo
Que a glória e a virtude.
Logo que a vida me não canse, deixo
Que a vida por mim passe
Logo que eu fique o mesmo.
Que importa àquele a quem já nada importa
Que um perca e outro vença,
Se a aurora raia sempre,
Se cada ano com a Primavera
As folhas aparecem
E com o Outono cessam?
E o resto, as outras coisas que os humanos
Acrescentam à vida,
Que me aumentam na alma?
Nada, salvo o desejo de indiferença
E a confiança mole
Na hora fugitiva.
- Ricardo Reis -