ASQUEROSO! Essa é a palavra mais educada em que consigo pensar para descrever esse livro. Resolvi ler essa coletânea de contos do Pedro Mairal porque já tinha lido dois romances dele e tinha gostado. Entretanto, nesses romances ele apenas flertava com algo que aqui fica escancarado: sua misoginia. Se lá as mulheres eram apenas estereotipadas, aqui elas são tratadas como objetos, como pedaços de carne num açougue, como mercadoria.
Os contos se dividem em duas partes: a primeira traz contos sobre traições. Quase todos, obviamente, narrados por homens heterossexuais, que parecem adolescentes dominados pela testosterona. O único que é narrado por uma mulher não traz nenhum contraponto: se você trocasse a narração por uma voz masculina, funcionaria perfeitamente. Ou seja, zero representação das mulheres e de suas vozes. A segunda parte traz contos de temas variados que já haviam sido publicados há muitos anos. Tive esperança de que aí a coisa fosse melhorar, porque essa parte começa com o melhor conto do livro, porém não. As mulheres continuam sendo retratadas como prostitutas, manipuladoras, mentirosas e por aí vai. Ele chega inclusive ao cúmulo de normalizar o estupro em um dos contos, mostrando que aquilo era desejado pela mulher, porque pelo menos assim ela iria finalmente engravidar. Ou então mostrar a mocinha que vira cam girl porque o namorado leiloou a virgindade dela escondido na internet e ela, grande mente manipuladora que é, por ser mulher, claro (#ironia), achou que nossa, que boa ideia, deixa eu monetizar esse poder de dominação que eu exerço sobre os homens. Eu não vou nem marcar isso como spoiler porque acho que precisa ser exposto.
Como se tudo isso não bastasse, em termos de construção literária mesmo, muitas histórias ali nem têm estrutura de conto. Porque veja, escrever um conto não é só escrever uma história curta, tem muito mais coisa envolvida. E aí o pouco que se salva no livro fica soterrado em meio a esse monte de histórias abjetas.
Fui ler as reviews aqui no Goodreads e nos veículos de comunicação internacionais (porque o livro não saiu – e espero que nem saia! – no Brasil) e, embora tenha encontrado aqui (e apenas aqui!) mulheres denunciando o livro pelo que ele realmente é, fiquei absolutamente espantada e enojada pela quantidade de pessoas elogiando a obra, tanto homens quanto mulheres.
Denunciemos a misoginia. Não aceitemos ser retratadas dessa forma. Não compactuemos com esse tipo de literatura. Pedro Mairal, nunca mais!!!