Adélia tem o que grande parte dos escritores e outros seres mais modestos em nossa sociedade não têm: capacidade de ler o que existe para além do óbvio ou da forma, sabendo entender tudo o que pode haver entre o fio que corta no capim, as feridas que a vida, com o cotidiano, costura, e a procura de si mesma entre o profano e o divino. A poesia está em todas as coisas, cabendo ao poeta enxerga-la e traduzi-la aos que não têm essa conexão quase religiosa com a literatura. A poesia de Adélia é simples, é bonita, está no livro, mas também na conversa, na mesa do café nas tardes do interior, nas intrigas familiares, nas esferas interseccionais do particular, do privado, do coletivo e do universal. A poesia perdeu espaço na literatura por culpa da própria inaptidão de muitos poetas homens que se viram empoderados pela arrogância e ignorância poética de outros homens, para quem poesia, além de ser coisa de mulher ou “veados”, não é útil (visão cartesiana de quem pensa que apenas o que é concreto ou matemático seria digno do progresso). Adélia mostra o contrário, claro. É pena que ainda vivamos numa sociedade governada por homens que não enxergam isso, talvez por estarem preocupados demais com a Terra plana ou com a espionagem internacional em chips implantados através de vacinas. Eu prefiro viver num mundo de poesia, com Adélias e outros poetas, a ter que sobreviver num mundo imaginado por um bando de moleques sequelados por ficção obscurantista-não-cientifica. Viva Adélia Prado para sempre.