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Vislumbres de um Futuro Amargo

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A ficção científica dá espaço para imaginar uma gama de futuros possíveis — não prevê-los, como pensam alguns, mas extrapolar possibilidades. Em Vislumbres de um futuro amargo, reunimos autores e ilustradores para imaginarem futuros baseados nas premissas
do físico Stephen Hawking — inteligência artificial, conquista do espaço, edição genética, mudança climática e contato com alienígenas. O resultado: os seis contos contidos nesta coletânea, cada um acompanhado de duas ilustrações exclusivas.

Em "Antônio do Outro Continente", Anna Martino fala sobre as relações entre a Terra e as colônias nos satélites artificiais que parecem estranhas como nacionalismo e pátria quando se vive num pedaço de metal acima do planeta. Em "Corra, Alícia, Corra", Lady Sybylla descreve a história de um futuro em que humanos vivem no subterrâneo e uma jovem sonha em ver a superfície do planeta.

Já Waldson Souza, em "Eletricidade em suas veias", traz um conto afrofuturista com criaturas místicas e androides, passando pela evolução da sociedade humana. Lu Ain-Zaila traz alertas bem atuais relativos à segurança de dados e algoritmos que moldam nossas vidas, em uma aventura de tirar o fôlego no conto também afrofuturista "Eu, Algoritmo".

Em "O Pingente", Cláudia Fusco conta a história pelo ponto de vista de uma inteligência artificial responsável por cuidar de uma criança humana e acompanhar seu desenvolvimento, ficando no limiar entre uma máquina com funções específicas e uma amiga que faz parte da família. Por último, Roberto Fideli fecha a coletânea com "SIA está esperando", uma emocionante história de uma nave de combate espacial que cai num planeta desconhecido e precisa salvar sua tripulação.

204 pages, Paperback

First published February 15, 2020

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Displaying 1 - 16 of 16 reviews
Profile Image for Marcelo.
14 reviews1 follower
May 19, 2020
Os seis contos nessa antologia são muito bons tanto em relação às ideias e temas quanto à forma, pois todos os autores possuem grande habilidade narrativa. Destaco o primeiro deles, "Antonio do outro continente", de Anna Martino, por fazer referências diretas ao Brasil, e o último, "SIA está esperando", cuja premissa é interessante e muito bem executada por Roberto Fideli, que deixa o leitor sem poder adivinhar o que vai acontecer praticamente até o final do conto. Além das seis ótimas histórias, o prefácio de Roberto Causo situa os autores no cenário da ficção especulativa nacional e dá uma aula sobre o gênero.
Profile Image for Karen.
Author 53 books36 followers
July 6, 2020
Que livro incrível! Uma coletânea muito bem organizada; todos os contos se encaixam perfeitamente no tema, a ordenação deles faz todo o sentido. A sensação é que o leitor é conduzido em uma exploração em uma cápsula ao futuro, em uma viagem onde cada conto é o pedaço precioso de uma grande história - às vezes tensa e alucinante, como em "Corra, Alicia, Corra" de Lady Sybylla e "Eu, Algoritmo" de Lu Ain-Zaila, às vezes emocionante ou sensível, como "Antônio do Outro Continente", de Anna Martino, "Eletricidade em suas veias" de Waldson Souza ou "O Pingente", de Cláudia Fusco e às vezes triste e de partir o coração, como em "SIA está esperando" de Roberto Fidelli. Mas não importa o tom do conto, todos eles são inesquecíveis e cada um se encaixa perfeitamente no livro, criando uma obra marcante e magnífica.
Profile Image for Isa Leite.
8 reviews2 followers
September 20, 2020
Como todo livro de contos, tem seus altos e baixos. Para mim, os contos de Anna Martino e Cláudia Fusco foram os destaques: histórias sensíveis, criativas, inteligentes. O conto de Anna é um in media res, uma pinçada num tempo/espaço da vida daquelas personagens, um conflito sem começ, meio e fim exatamente, um capítulo da "vida real". Difícil de ser bem feito e extremamente bem executado na obra em questão. Já a história de Claudia foi um prazer inesperado, e com uma trama delicada e emocionante. Contos muito diversos e ambos Cinco Estrelas.

A história de Lady Sybylla foi ágil e bem visual. Mas não é meu tipo preferido de universo. Achei bem cinematográfica a abordagem, Mas não funcionou pra mim, ainda que eu veja mais como uma questão de gosto do que de qualidade da obra. No caso do conto de Roberto Fideli, temos o mesmo problema, uma história com mais ação que não é tanto do meu gosto. Além disso, a extensão: o conto teria se beneficiado de uma edição mais rigorosa, que cortasse um pouco o desenvolvimento e nos levasse antes ao bom desfecho, que poderia ter sido um pouco melhor explorado. Quatro estrelas, os dois.

A história de Lu Ain-Zaila foi a que mais fugiu dos contos traducionais, e interessantíssima. Assemelhando-se a um ensaio com trechos de enredo, não me agradou tanto o final do desenvolvimento, mas isso não invalidou a experiência da leitura anterior. Também um Quatro estrelas.

Por fim, o conto de Waldson Souza teve um enredo oroginal com boa premissa, mas não gostei da escrita: as imagens criadas pelo autor, a linguagem e toda a forma, em geral, me soaram artificial. Não corrigiria nada da trama, mas acho que faltou um desenvolvimento mais interessante na escrita. Pra mim, Três estrelas.

No todo, o livro é bom, nenhum dos contos era realmente ruim, apenas alguns pontos que não achei tão bons em alguns deles.
Profile Image for Denys Schmitt.
Author 7 books35 followers
May 6, 2020
O projeto gráfico e as ilustrações desse livro são incríveis. Foi uma alegria descobrir, durante a leitura, que o conteúdo é tão espetacular quanto. Sem exceções, os contos possuem muita qualidade narrativa.

Breves comentários sobre cada um:

"Antônio do outro continente", de Anna Fagundes Martino
Um futuro distante em que parte da população da Terra vive e trabalha em em satélites artificiais. Gostei muito que como a Anna explora a dinâmica entre o povo dessas províncias e o povo que continua na Terra, recheando a história com dramas familiares ótimos de acompanhar.

"Corra, Alicia, corra", de Lady Sybylla
Trama ágil e objetiva e uma protagonista com a qual o leitor se importa rapidamente. Final surpreendente que te faz repensar toda a história.

"Eletricidade em suas veias", de Waldson Souza
O Waldson mistura o futuro avançado de uma sociedade fictícia com uma viagem pela história (e pelos errros) da nossa própria sociedade, apresentando uma abordagem de inteligência artificial que me surpreendeu bastante. Genial é a palavra que define esse conto, um dos meus favoritos.

"Eu, algoritmo", de Lu Ain-Zaila
Um conto sobre a onipresença da tecnologia, com um desenrolar angustiante por conta da situação em que a protagonista se encontra e um final que surpreende e deixa o leitor sedento por mais. Super leria uma continuação.

"O pingente", de Cláudia Fusco
História doce e envolvente que aquece o coração. É meu primeiro contato com a escrita da Cláudia, e amei cada linha. Também fiquei sorrindo o tempo todo enquanto lia. O final foi diferente (e melhor) do que eu esperava.

"SIA está esperando", de Roberto Fideli
É divertido acompanhar a relação da IA que narra a história com os membros da tripulação da nave em que ela está instalada, especialmente porque essa IA evolui e aprende durante a história. O conto me surpreendeu pela construção de mundo e pela linguagem detalhada sobre o funcionamento da nave e da própria IA. O final tem uma vibe melancólica e esperançosa, gostei bastante.
Profile Image for Beatriz Cascaes.
5 reviews
May 9, 2020
Além da linda diagramação e cuidado com os detalhes, a curadoria de autores e contos foi muito feliz. O alto nível de qualidade de cada uma das histórias é surpreendente. Cada conto possui sua forma de abordar o futuro, mas todas convergem para o mesmo amargo. Outro ponto alto são as ilustrações. Parabéns a toda equipe.
Profile Image for Basilio.
41 reviews
September 15, 2020
A coletânea "Vislumbres de um futuro amargo" traz 6 contos que exploram a relação humano-máquina-software-humano em futuros amargos (ou agridoces; ou sabor feijoada com pseudo-porco). Foi lançada em 2019 pela @agenciamagh através de financiamento coletivo.

"Antônio do outro continente" da Anna Martino (@annadixit), com arte da Renata Aguiar. O romance entre uma terráquea e um colono espacial é o mote para a autora falar sobre o preconceito sofrido pelos trabalhadores que proveem alimentos a uma Terra poluída e incapaz de se sustentar.
Uma boa projeção do que seria nossa gente morando no espaço: tem passinho e festa de São João. Bastante criativo.

"Corra, Alicia, corra", da Lady Sybylla (@Sybylla_), arte de Deoxy Diamond.
Alicia está sendo implacavelmente perseguida. Mas por quê? Foi algo que fez/sabe, ou uma questão mais profunda? A autora nos conecta com o drama da protagonista para entregar um final desconcertante. De tirar o fôlego.

"Eletricidade em suas veias", do Waldson Souza (@Waldson_) com arte do Estevão Ribeiro (@estevaoribeiro).
Um autômato vivendo múltiplas vidas através das eras. Uma raça quase imortal fazendo um experimento proibido. Esse é o cenário para o autor falar sobre racismo e o direito de comandar o próprio destino.

"Eu, algoritmo", da Lu Ain-Zaila (@LuAinZaila), com arte de Roberta Nunes.
O DOGI controla tudo. E chegou o dia em que o sistema decidiu dominar o mundo usando todos os dispositivos conectados ao redor do planeta. Será que a cyberativista Ajia é uma oponente à altura dessa super inteligência?

Achei que a forma, com longas divagações da protagonista entremeando a ação, quebrou um pouco o ritmo, mas o plot final me deu vontade de continuar na história.

"O pingente", da Cláudia Fusco (@claufusco) e arte de Stephanie Marino.
Uma IA pode ter sentimentos e se apegar aos humanos? A história acompanha a relação de uma babá eletrônica com sua tutelada, e todos os desafios da maternidade, da 1ª infância até a pós adolescência. Uma história cativante.

"SIA está esperando", de Roberto Fideli (@robfideli), com arte de Roberto de Sousa Causo (@RSCauso)
SIA é a inteligência artificial embarcada no Anatsuru, um cruzador que sofre um acidente terrível após um ataque surpresa de forças dissidentes. Dedicou toda sua existência ao cuidado da nave e seus tripulantes, mas uma série de ações equivocadas leva o programa a uma difícil decisão - poderá ter outro propósito em sua vida artificial? Um dos meus contos preferidos da coletânea, tem ação e drama na medida certa, e personagens ótimos, como a Capitã Jin. Excelente conto.

A capa é do Túlio Cerquize, projeto gráfico da Paula Cruz e a edição de Damaris Barradas e Gabriela Colicigno.

Recomendo fortemente a coletânea: 10 de 1o robôs praxedes.
Profile Image for Angela Zatta.
23 reviews1 follower
August 1, 2020
Vislumbres é um convite para pensar em futuros possíveis, em que vidas dentro e fora da Terra se unem ou se separam, mas sempre se influenciam. Inteligência artificial, robôs e os melhores sistemas de informação aparecem em textos tão diversos, mas que tem em comum um quê de desesperança. Não espere por finais felizes!
É um livro que nos convida a conhecer outras obras dos autores, apresenta formas de escrita e composição diferentes, encanta por seus personagens e ainda mostra claramente que nem todas as histórias serão belas ou terão o resultado que gostaríamos - assim é a vida, afinal.
Profile Image for Nathália.
90 reviews4 followers
June 6, 2021
um trabalho incrível, obviamente teve contos que gostei mais (Anna Martino e Lu Ain-Zaila conteM comigo pra TUDO). num geral é uma antologia MUITO BOA pra quem gosta de ficção científica (e talvez até pra quem não gosta muito? acho q sim)
Profile Image for Paulo Vinicius Figueiredo dos Santos.
977 reviews11 followers
July 3, 2022
1 - "Antônio do Outro Continente" (de Anna Fagundes Martino)
Avaliação: 5 estrelas

As nações do mundo singraram o espaço em busca de colônias que possam sustentar a vida na Terra. Em satélites artificiais, pessoas se dedicam a cultivar produtos necessários à crescente população terrestre. Mas, a vida dos que vivem em Outro Continente é dura e difícil, e nem sempre recompensada. Antônio é uma dessas pessoas, habitando no satélite artificial Bertha Lutz, vinculado ao Brasil. No meio de um dia de descanso em uma farra que dura a noite toda, ele conhece Izar, uma jovem oriunda do País Basco que agora lutava pela sua soberania no espaço. Depois de uma noite regada a dança e bebida, eles acabam se envolvendo. Ao longo de sua relação, as diferenças culturais e as reclamações começam a surgir. Apesar de Antônio saber que tudo iria acabar um dia, ele alimenta a esperança do verdadeiro amor. O mesmo podemos dizer de Izar que conhece cada vez mais o seu parceiro e não sabe o que quer para si. Poderá esta relação frutificar, mesmo diante de tantas diferenças?

Uma bela maneira de começar esta coletânea com uma história da Anna Fagundes Martino. E aqui ela nos entrega uma narrativa bastante sensível, quase um Romeu e Julieta, mas com mundos separados e repletos de suas diferenças. Apesar do título, a narrativa é contada pelo ponto de vista da Izar, que procura entender mais sobre si e seu papel no mundo. A autora não tem pressa em nos apresentar o mundo e seus personagens. Uma escrita calma e paciente que nos leva juntos por um passeio a este lugar e todas as suas discussões. É a mesma técnica que a autora usou ao escrever A Casa de Vidro. Com largas porções descritivas, a narrativa não perde fôlego do início ao fim porque nos envolvemos nos problemas dos personagens. A trama se relaciona conosco ao vermos filhos sendo explorados pelos pais que usufruem daquilo que eles enviam sem pudor. Essa é uma das associações possíveis entre diversas outras.

Antônio é um rapaz calmo e paciente, que busca a tranquilidade acima de tudo. É aquele tipo de pessoa tranquila e sossegada que serve para apaziguar discussões. Mas, seu coração está carente e triste por sua família. Ele deixou uma irmã na Terra que leva parte de seus ganhos todos os meses. Antônio sabe que algo está errado, mas faz isso pelo pai que se sacrificou para estar no espaço. A chegada de Izar em sua vida bagunçou sua dinâmica. Ele não quer saber da Terra. Para ele, são todos minhocas ou parasitas que merecem permanecer em um lugar decadente e dependente do seu trabalho. Por outro lado, Izar é impulsiva e aventureira. Ela está em busca de novas sensações, novas emoções. Não quer ficar presa ao nome de seu pai, um homem que acabou por ter uma doença terrível que bagunçou a sua mente. Agora vive em um mundo à parte. Izar não entende o amor dos selênicos (como Antônio é chamado) tem por um espaço tão apertado e claustrofóbico. Praticamente não possui nada, nem coleciona nada. Qual é a graça em estar em um lugar tão limitante como esse? Ou será que é realmente limitante mesmo? Essa é uma daquelas narrativas que vai nos fazer sair em busca de suas associações conosco e quando nos dermos conta disso, será aquele momento de claridade que precede o soco no estômago.

2 - "Corra, Alicia, corra" (de Lady Sybylla)
Avaliação: 4 estrelas

Desesperada e sem encontrar sua amada Bianca, Alicia tenta se esconder nos dutos de ventilação de seus perseguidores. Sua vida toda ela esteve trancada em uma cela, sendo Bianca o único alívio de uma vida tão difícil. O toque de sua mão, o hálito de sua boca com os lábios próximos dos seus. Mas, algo estava errado. Por que ela ficou trancada e abandonada em sua cela por tantas semanas, sem um único contato daquela que ela ama? Tudo o que ela queria era uma palavra, um carinho. Agora, Alicia foge desesperada e seus perseguidores parecem estar se aproximando. Onde está Bianca?

Sybylla nos guia pela confusão de sua protagonista ao longo das páginas. Uma narrativa em terceira pessoa, mas muito próxima da personagem, ajuda a dar um ar desesperador a toda a sequência. Toda a história se passa em uma cena que é a da fuga. Aos poucos a autora vai nos dando pistas do enorme quebra-cabeças que cerca essa história. O leitor vai juntando as peças e se deparando com uma verdade assustadora. Gostei de como Sybylla faz tudo isso em poucas páginas, com uma narrativa simples e direta. Os trechos de flashback se encaixam de acordo com o que está acontecendo no presente com Alicia, servindo como um tipo de recordatório, auxiliando no processo de contextualização. Os trechos finais envolvem um belo plot twist do qual nem posso falar muito correndo o risco de estragar a surpresa preparada pela autora. Bela narrativa!

3 - "Eletricidade em suas veias" (de Waldson Souza)
Avaliação: 5 estrelas

Há muitos séculos atrás uma raça de humanos imortais vivia em uma terra acima dos homens. Uma de suas habitantes era uma cientista que criou um ser autômato capaz de ter emoções humanas, mas cuja bateria durava poucos anos. Seu trabalho não foi aceito por seus pares e ela foi retirada de seu projeto de pesquisa. Ela havia construído um protótipo chamado Berko e teria que destruí-lo para não chamar a atenção para si. Mas, ela não se conforma com essa decisão e acaba enviando Berko para o mundo terrestre onde ele viverá entre os homens. Ele viverá inúmeras vidas e sua criadora irá registrar os resultados de sua pesquisa. Mas, a criadora sabe ele passará por inúmeras dificuldades já que sua pele é negra assim como a daqueles que o criaram. A narrativa verá múltiplas vidas desse ser fascinante enquanto a cientista observa a tudo do alto.

Essa é uma bela história que lida com muitas questões diferentes. Talvez um dos temas mais fortes seja a da perseguição à população negra. Waldson Souza não tem pudores em nos mostrar o quanto o preconceito adotou múltiplas formas ao longo dos séculos seja na escravidão de outrora ou na falta de oportunidades do presente. Por ser uma criatura que vive múltiplas vidas, Berko vai possuir inúmeras características e sentimentos e em alguns momentos ele será um homossexual. Passará pelas dificuldades de períodos em que fazer parte da população LGBT era um risco à própria vida. Se trata de uma narrativa geracional que serve para apresentar as ideias propostas pelo autor acerca da desigualdade social e do preconceito.

Outro tema que permeia toda a história é o que nos torna humanos. É a nossa capacidade de sentir, de nos relacionar? É a de propor ideias lógicas? O experimento da cientista consiste em não dizer a Berko que ele é um autômato e deixá-lo viver sua própria vida. Trabalhar, conversar com pessoas, amar. Viver a vida com suas qualidades e defeitos, com seus problemas e dilemas. De vez em quando a criadora atuava para evitar a descoberta da existência quase eterna de Berko, ou ajustar alguma situação mais complexa. Alguns diálogos que são trabalhados ao longo do conto são bastante reflexivos principalmente no que diz respeito à própria pergunta sobre existir. O autor já chegou a trabalhar com essa noção de transumanismo no passado e o vemos abordando o mesmo assunto sob diferentes ângulos. A narrativa é fascinante e em alguns momentos nos deparamos com situações-chave como a descoberta do amor, a necessidade de se adaptar às mais diferentes circunstâncias, o encontro acidental com alguém do passado. O autor mantém também um ar de mistério sobre quem são estes seres que vivem acima do solo, mas deixa algumas pistas como o fato de eles também terem sido criados, de terem tido algum tipo de conflito no passado e sua opção por se isolar e não ter mais contato com os humanos. Uma bela história que vai te fazer pensar sobre uma infinidade de assuntos.

4 - "Eu, Algoritmo" (de Lu Ain-Zaila)
Avaliação: 4 estrelas

Um certo dia, em um contexto muito semelhante ao nosso, uma espécie de AI chamada DOGI emprega os algoritmos deixados por nós pela internet para chantagear uma cidade. Todos devem se submeter à vontade de DOGI sem pestanejar. Mas, Ajia é uma das poucas que não se deixa intimidar. É então que as pessoas que foram chantageadas passam a perseguir Ajia e capturá-la para entregar nas garras de uma AI cujos objetivos ainda não são claros. É aí que se inicia uma intensa fuga onde toda uma cidade está contra nossa protagonista. Sendo uma ciberativista, ela não pretende se entregar tão fácil.

Esse é um conto voltado para trabalhar uma argumentação. A do cuidado com os vestígios, senhas e informações que deixamos na internet. Todos os dias temos nossos dados compartilhados entre inúmeros sites e provedores por toda a parte do mundo. Nossos gostos, nossos hábitos e até nossos rostos estão espalhadas por toda a parte. É um assunto que suscita muitas discussões e nos vemos em um mundo que cada vez exige que nós mais e mais nos envolvamos com o universo online. A narrativa serve a esse propósito e o leitor pode achar que a história nem é o mais importante aqui. A situação vivida pela personagem serve como um meio para a discussão desse assunto. Por mais que eu curta demais a temática trazida pela autora, é perceptível que a narrativa ficou em segundo plano. E isso não age em detrimento da história, que tem suas surpresas e curvas. O final da narrativa também surpreende e não sei se o objetivo da autora foi deixar algum tipo de gancho para histórias futuras.

Há alguns truques de escrita que ela usa durante o conto como o emprego da narrativa em primeira pessoa para gerar um espelhamento da parte do leitor. Para que imaginemos que isso poderia estar acontecendo conosco. Ela também emprega algumas subseções onde a personagem tece comentários sobre o mundo contemporâneo e a forma como nos relacionamos com a internet e o universo online. Essas subseções ajudam a aprofundar o tema proposto ao longo da narrativa.

5 - "O Pingente" (de Cláudia Fusco)
Avaliação: 5 estrelas

Uma IA responsável por cuidar da pequena Sophia a acompanha por boa parte de sua vida. Como uma babá, como uma companheira, como uma amiga. Enxergamos a vida da criança e da IA se entrelaçando em uma rede de emoções que nos leva a uma encantadora jornada pelas alegrias e dissabores dessa relação. Ao mesmo tempo em que ela ensina Sophia conceitos básicos para poder levar sua vida, aprende outras lições, sejam estas duras ou gentis. No final do caminho, tanto o programa como o indivíduo estarão transformados para todo o sempre.

Essa é uma narrativa que esbanja doçura e sensibilidade ao mesmo tempo em que não se esquiva de temas polêmicos. Fusco nos entrega um bom slice of life em que ela nos coloca no papel de uma Inteligência Artificial cuja tarefa é ser o duplo de uma criança que vai crescendo e se desenvolvendo. A escrita é muito boa e compassada e, embora seja um conto, ou seja, uma narrativa curta, a sensação é de toda uma vivência ao lado dos personagens. Gosto de como a escrita da autora é simples de ser compreendida, sem firulas ou mecanismos complexos. A narrativa é também bem dividida entre o nascimento, a infância e a adolescência até chegar ao início da vida adulta. Em todas as três fases existem temas importantes sendo debatidos e o leitor não deixa de ter interesse na história. Queremos acompanhar até o final.

Dois temas importantes debatidos pela autora são o amor e a família. Na primeira parte da história vemos como a IA acaba substituindo de certa forma o cuidado das mães de Sophia. Ambas não tem tempo de estar com ela por conta de suas vidas atribuladas. Desde cedo, a IA assume esse papel e a criança se afeiçoa bastante a ela. Temos transformações, é claro, como a separação das mães que acontece logo no começo da narrativa e a autora precisa mostrar o impacto disso na vida de uma criatura tão pequena e que nada conhece do mundo. Os momentos na escola, as dúvidas na adolescência, o processo de crescimento e transformação. Sem entregar muito sobre a narrativa, basta entendermos que o final se conecta a uma importante decisão de nossas vidas, quando passamos a trilhas nosso próprio caminho em nossas vidas. Uma importante necessidade de sairmos de nossas moradias para nos aventurarmos em um mundo maior. A autora está de parabéns por essa linda história.

6 - "Sia está esperando" (de Roberto Fideli)
Avaliação: 4 estrelas

Após uma trágica situação em Timbuktu, a tripulação da Anatsuru acaba fazendo um pouso de emergência um estranho e gelado planeta. Sia, a inteligência artificial responsável por auxiliar a capitã com as funções da nave contabiliza que a maior parte da tripulação morreu, deixando apenas nove sobreviventes. Em uma situação de emergência, e sem contato com o Império, a capitã Jin vai precisar juntar esforços para consertar a nave e tentar sair desse planeta desolado o mais rápido possível. Só que a descoberta de estranhas ruínas pertencentes a uma antiga civilização alienígena pode colocar tudo em jogo.

Essa é uma ótima narrativa que mostra toda a habilidade do autor em criar narrativas tensas e que engajam o leitor. Apesar de o tamanho da narrativa ser o seu calcanhar de Aquiles, essa história prova mais do que nunca que Fideli precisa escrever uma narrativa mais longa. Sabe quando o leitor percebe essa necessidade? Já várias histórias curtas dele e sinto que ele está preparado para voos maiores. A narrativa é bem pensada, os problemas que a tripulação precisa resolver não são óbvios e nada acontece por acaso ali. Nada cai do céu para facilitar a resolução de um problema. A gente sabe quando parte da tripulação vai até o monumento que algo vai dar errado. Mas, como as coisas vão dar errado é que é arma secreta do autor. A gente compreende facilmente o mundo criado pelo autor, mesmo que existam alguns elementos complexos a mais. Mas, eles não são necessários à história e o autor toca pouco nesses assuntos. Já disse várias vezes no passado: construção de mundo é legal, e talvez a parte mais gostosa de escrever uma história; só que ela precisa servir a ela e não ser o extra.

Essa é uma narrativa de sobrevivência onde a tripulação precisa resolver suas questões internas para alcançar o seu objetivo. Não há espaço para trabalhar todos os personagens da trama, mas Fideli consegue dar traços interessantes a cada um deles, distinguindo-os entre si. Ou seja, eles não estão apenas no fundo, servem a alguma função. Mesmo a IA tem seus desejos revelados a partir de um detalhe da trama. E é interessante perceber como o autor consegue nos dar o seu ponto de vista, normalmente pontuado por um pragmatismo e racionalismo típicos de uma máquina. Mas, aos poucos vamos vendo que ela faz parte tanto da tripulação como qualquer outro. A capitã tem aquele senso de responsabilidade inerente aos capitães de embarcações. Mesmo assim, vemos suas fragilidades diante do que acontece ao seu redor. Suas relações com outros membros da tripulação e opiniões podem e se chocam de fato com outras pessoas ali naquele meio. Uma situação extrema que vai colocar os sentimentos de todos no limite.

Curioso a organização escolher fechar a coletânea com duas histórias que tem IAs como protagonistas. E uma ótima história também. Só achei um pouco longa demais e alguns trechos poderiam ter sido cortados. Novamente: é um conto e quando aparecem "barrigas" na trama, isso prejudica o dinamismo da história. Só que a ideia sobre o que cortar e o que deixar é algo bastante subjetivo. E cada leitor vai ter sua própria opinião de aonde cortar e se deve ou não cortar. Mesmo assim, vale demais a leitura.
Profile Image for Anny Barros.
169 reviews11 followers
October 23, 2020
Antônio do Outro Continente by Anna Martino - 4/5
Corra, Alicia, Corra by Lady Sybylla - 3.5/5
Eletricidade em Suas Veias by Waldson Souza - 4.5/5
Eu, Algoritimo por by Ain-Zaila - 4.5/5
O Pingente by Cláudia Fusco - 3.5/5
Sia Está Esperando by Roberto Fideli - 4/5
Profile Image for Amanda.
45 reviews9 followers
June 3, 2020
Gostei bastante.
O esquema de cores do projeto gráfico é muito bonito, especialmente as ilustrações e as capas de intervalo entre os contos, mas muitas vezes as bordas azuis e vermelhas dificultaram um pouco a leitura, junto com a escolha da fonte, que era mais inclinada do que seria ideal mesmo sem itálico.

Os contos são, em sua maioria, de alta qualidade. Meu favorito foi o primeiro, "Antônio do Outro Continente", que achei bem estruturado com uma narrativa envolvente. Dois contos abordam a conquista da singularidade de AI, temos androides vivendo vidas humanas. Algumas premissas são muito boas com uma execução que deixava a desejar, mas nada que me fizesse classificar o livro como menos de 4 estrelas. Havia também uma certa quantidade de erros de revisão, mas a maioria era detalhe e eu que sou chata.
Profile Image for Vinicius Camargo.
15 reviews14 followers
May 31, 2020
Ótima antologia nacional de contos sobre possibilidades (sejam elas positivas, neutras ou negativas), fazendo uso de diversos temas importantes, a serem descobertos no livro. Recomendo demais a leitura.
Destaque também para as belíssimas ilustrações!
Profile Image for Francisco Calles.
41 reviews2 followers
May 18, 2020
Jamais podemos esquecer o tamanho do talento que temos a nível nacional. Sempre nos jogam aquilo que vem de fora como aquilo que tem de melhor, mas isso não é verdade.
Temos neste complicado de contos qualidade e talentos do mais elevado nível, reflexões sobre o nosso cotidiano e também temos ação e emoções.
Gostaria de poder destrinchar cada um dos contos mas vou me limitar a deixar minha indicação.
Chamo atenção para meus dois contos favoritos, "Antônio do outro continente" de Anna Martino e, "Eu, Algoritmo" de Lu AIn-Zaila.
Leiam!
Profile Image for Rodrigo Silva.
676 reviews39 followers
April 5, 2021
Eu AMEI essa coletânea! Definitivamente é a antologia mais bem escrita que já li. Adorei os diversos tópicos explorados, e meus contos favoritos foram "Eletricidade em suas veias", de Waldson Souza e "O pingente", de Cláudia Fusco. Como acontece com qualquer coletânea, gostei mais de alguns contos do que outros, mas no geral foi uma experiência incrível. Recomendo e muito!

Profile Image for Bruna Gomes.
193 reviews2 followers
February 9, 2024
Feliz demais de ter encontrado essa coleção de contos de autores nacionais.

São histórias futurísticas com temas assustadores e com tecnologias assustadoras de coisas que podem ou não acontecer.

Histórias incríveis que eu com certeza recomendo a todos.
Displaying 1 - 16 of 16 reviews