No volume 2 a coleção “LEITURAS SOBRE LACAN – LITORAIS DO PATOLÓGICO”, Christian Ingo Lenz Dunker dará continuidade aos desenvolvimentos teóricos do Seminário XVII- De um discurso que não fosse do semblante (1971); entretanto, somente agora é possível apreender com clareza a profundidade da pesquisa. Para muito além de uma exploração das bases epistêmicas do ensino, destina-se à construção de uma inédita interpretação de leitura sobre a razão diagnóstica da obra lacaniana.
Ocorre que sustentar a hipótese de uma “psicopatologia não-toda”, acarreta-se a extração de uma dupla consequência ao campo clínico psicanalítico. A primeira consequência é a desestabilização de um dos maiores dogmas atribuídos ao ensino lacaniano, ou seja, trata-se de desconstruir a suposição de universalidade da teoria das estruturas clínicas (neurose, psicose e perversão), dando destaque às insuficiências deste modelo e revelando a solidez de outros diagnósticos internos à obra. A segunda consequência localiza-se na interface da psicanálise com o campo sociocultural, carregando uma forte objeção à tendência totalizadora imposta pelos manuais de psiquiatria contemporânea, que entendem qualquer sofrimento como signo de uma patologia, provocando uma demanda pelo consumo excessivo de medicamentos.
A obra extrai dos textos de Jacques Lacan os elementos conceituais que atestam o fracasso do modelo das estruturas clínicas, para pensar quadros clínicos que evolvam maior complexidade. Ao possuir uma lógica exclusivamente binária (baseada na foraclusão ou inscrição do Nome-do-pai), o modelo clássico revela-se insuficiente para abarcar e tratar condições subjetivas paradoxais, tais como os quadros boderline – até então, sistematicamente excluídos do exame lacaniano contemporâneo –, e a desconstrução de saberes assumidos como inabaláveis da clínica da histeria, que aborda a alta demanda dos homens pelas cirurgias de redesignação sexual dos transgêneros.
É psicanalista e professor titular do departamento de Psicologia Clínica do Instituto de Psicologia da USP. É analista membro da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano e coordenador do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP. Fez seu pós-doutorado na Manchester Metropolitan University, sendo professor convidado em mais de quinze universidades internacionais. Duas vezes agraciado com o prêmio Jabuti, por "Estrutura e constituição da clínica psicanalítica" (Anablume, 2012) e "Mal estar, sofrimento e sintoma" (Boitempo, 2016).