A razão de Portugal, a razão de ser deste país antigo, encontra-se envolta na mais densa bruma. Tornou-se um mistério ou é um mistério? A emergência da nação lusíada, o seu destino inesperadamente fulgurante, o seu projecto áureo, a sua persistente resistência à adversidade, a sua longa e relutante decadência, os seus mitos de regeneração, as suas obras de génio, tudo é hoje interpretado casualmente, a partir de teorias da história opacas, diminutivas, reducionistas, que no fundo espelham o dominante espírito empedecido da nossa época positivista, materialista, utilitarista.
Portugal, Razão e Mistério é por uma parte a razão, razão teleológica, que guiou a inteligência portuguesa na aventura do seu ser e do seu estar no mundo, e por outra parte o mistério, subjacente ao seu destino glorioso e infeliz, universalista e contudo sempre problemático.
Ao abordar temas como a caracterização de um Portugal arquétipo, a Atlântida finalmente identificada com a civilização megalítica galaico-portuguesa ou as raízes templárias, cistercienses e joaninas do nosso país nos seus primeiros séculos, e, seguidamente, o que foi o projecto áureo de um Império do Espírito Santo, e depois os caminhos labirínticos para onde nos levou a saudade da Pátria prometida em termos cíclicos de mito, de decadência e de desejo regenerador, António Quadros procura mostrar-nos simultaneamente um Portugal profundo, um Portugal imaginário e também um Portugal ainda potencial, que depende menos de uma vontade política do que de um saber da sua essência ocultada e empecida.
António Gabriel de Quadros Ferro, conhecido como António Quadros (Lisboa, 14 de Julho de 1923 — Lisboa, 21 de março de 1993), foi um filósofo, escritor, professor universitário e tradutor português.
Licenciou-se em Histórico-Filosóficas pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
Pensador, crítico e professor, também poeta e ficcionista, foi um dos fundadores da extinta Sociedade Portuguesa de Escritores. Fundou a atual Associação Portuguesa de Escritores e o IADE - Instituto de Arte, Decoração e Design. Foi director das Bibliotecas Itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian, dirigiu a colecção Biblioteca Breve, (ICALP) e foi um dos fundadores e directores das revistas de cultura Acto, 57 (1957-1962), na revista luso-brasileira Atlântico e Espiral. Pertenceu ao Grupo da Filosofia Portuguesa na companhia de Álvaro Ribeiro, José Marinho, Orlando Vitorino, Afonso Botelho, Cunha Leão, Pinharanda Gomes, António Telmo, Dalila Pereira da Costa e outros pensadores que se inspiraram em Leonardo Coimbra, Sampaio Bruno, Delfim Santos, Teixeira de Pascoaes, entre outros filósofos e autores.
António Quadros foi ainda membro-correspondente da Academia das Ciências de Lisboa e da Academia Brasileira de Filosofia, membro da INSEA (International Society for Education through Art), órgão consultivo da UNESCO, de que foi delegado em Portugal até 1981, membro da Alta Autoridade para a Comunicação Social, etc.
Recebeu diversos prémios pela sua actividade literária e colaborou em diversos jornais, como o Diário de Notícias, Diário Popular, Jornal de Letras, bem como nas revistas Ler, Rumo, Persona, Colóquio, Contravento, Litoral, Atlântico, Ensaio, Leonardo.
Traduziu Albert Camus, André Maurois, Jean Cocteau e Georges Duhamel.
Em sua homenagem foi dado o seu nome à Rua António Quadros, em São Domingos de Benfica, Lisboa.
António Quadros era filho de António Ferro e Fernanda de Castro, descendente por via feminina dos Álvares, de linhagem Brâmane de Primeiro Goankar brasonada de Margão, que recebia de tributo uma libra de ouro, ambos escritores, pai de Ana Mafalda Ferro, António Roquette Ferro (antigo Director Geral do IADE) e Rita Ferro, também escritora, e primo-tio de Jorge Quadros.
Um declaração arrebatada de amor a Portugal que, como todas as grandes paixões, também produz os seus delírios. Interessante colecção de testemunhos e matéria histórica-filosófica sobre os grandes mitemas da nacionalidade e sua estruturação lógica de acordo com uma visão espiritual/esotérica e universalista da mesma. Muita interpretação indutiva e especulação que parece, por vezes, adentrar um nacionalismo não politizado ou violento mas definitivamente mistificador. A palavra "teleológica" parecer emergir-nos milhares de vezes, embora a escrita seja absorvente - exceptuando quando Quadros decide encaixar todo um livro possível sobre o Políptico de Nuno Gonçalves dentro do livro II. Comoventes momentos descritivos dos festejos do Espírito Santo. Não era exactamente a obra sobre portugalidade de vistas menos conservadoras que esperava, no estilo de um Agostinho ou Eduardo Lourenço, mas ainda assim uma leitura interessante e de breves mas importantes incursões por interpretações esotéricas do calibre de um António Telmo.
Um bom livro sobre a história de Portugal. Gostei especialmente da teoria interessante e fundamentada sobre a associação da civilização megalítica galaico-portuguesa à origem do mito da Atlântida. Não dou a pontuação maxima, porque por vezes o livro não é facil de ler devido a um discurso excessivamente filosófico e um pouco repetitivo.
Demasiado nacionalismo envolto numa capa de esoterismo, que ainda por cima não passa de unir pontas soltas sem ponta que se lhe pegue para forjar uma espécie de teoria unificada da grandiosidade de Portugal.