Numa mescla de passado e presente, em meio a um Rio de Janeiro mítico e uma Nova Zelândia misteriosa, Adriana Lisboa constrói um romance brilhante sobre arrependimento e perda. Vanessa e André estão eternamente ligados por uma perda irreparável na infância. Num feriado à beira da piscina, o irmão mais novo de Vanessa, e melhor amigo de André, sofre um choque dentro d'água e morre antes que alguém possa ajudá-lo. Unidos pelo acidente, Vanessa e André iniciam uma relação que logo ultrapassa a amizade. As famílias se esfacelam e transformam, mas eles permanecem juntos. Agora, vivendo na Nova Zelândia como bióloga, Vanessa procura entender o que aconteceu com o irmão e sua família. Procura também refazer sua história de amor com André, cercada de culpa e de segredos. Com uma linguagem poética e precisa, Adriana Lisboa tece uma narrativa que viaja entre passado e presente, entre as águas da baía de Guanabara e do rio Manawatū, para falar da perda, mas também do perdão.
A escritora brasileira Adriana Lisboa nasceu no Rio de Janeiro. Publicou doze livros, entre os quais seis romances, uma coletânea de poesia, uma coleânea de narrativas breves e livros para crianças e jovens. Seus livros foram traduzidos para nove idiomas, entre os quais inglês, alemão, espanhol, francês e árabe, e publicados em treze países.
Ganhou o Prêmio José Saramago pelo romance Sinfonia em branco, uma bolsa da Fundação Japão para o romance Rakushisha, uma bolsa da Fundação Biblioteca Nacional, no Brasil, e o prêmio de autor revelação da FNLIJ (Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil) por seu livro de poesia para crianças, Língua de trapos. Em 2007, o Hay Festival/Bogotá Capital Mundial do Livro incluiu-a na lista dos 39 mais importantes autores latino-americanos até 39 anos de idade.
Graduada em música pela UniRio, com mestrado em literatura brasileira e doutorado em literatura comparada pela Uerj, Adriana Lisboa viveu na França – onde atuou como cantora de música popular brasileira – e atualmente mora nos Estados Unidos, no Colorado.
3,5* (quase 4) A morte de uma criança numa piscina em dia de festa, com o Dia de Todos os Santos à porta, vai condicionar irremediavelmente a vida de Vanessa, André e Isabel, mas também de duas famílias. A criança era o irmão de Vanessa, que gosta de André, que é irmão de Isabel, que gosta de Vanessa. Eram todos amigos e também estavam perto da piscina no dia fatídico. Ao longo de todo o livro, Vanessa fala com André, faz-lhe perguntas, conversa sobre a morte, a dor, a perda, o luto, o sentido de pertença, o desenraizamento, o lugar da família, a influência de pequenos nadas em grandes escolhas (como escolher biologia por ver ninhos de andorinhas nos buracos dos muros), as partidas e os reencontros. Na minha leitura, Adriana Lisboa faz um bom trabalho, alternando entre passado e presente e ligando os vários elementos da trama. Exatamente como num vaso de cerâmica partido que, por ser colado com cola de ouro, passa a valer mais. A metáfora é repetida por, sem dúvida, expressar bem esta "take home message": ainda que despedaçados, podemos continuar a existir e a ter uma vida preciosa. Basta, para isso, que tenhamos o ouro que nos junte os cacos. Finalmente, este acaba por ser também um livro sobre o perdão ou a impossibilidade do perdão. Gostei mais do que previra.
Se a vida é uma travessia, como disse a autora da presente obra, nada mais esperado que uma obra que viesse retratar o tempo como travessia, onde é possível esbarrar com a solidão, com o perdão e com caminhos se entrelaçando na vida das pessoas. É, assim, que o enredo da obra foca; quando de um acidente advém o contato de Vanessa e André, este se perdura no tempo, tão real como as aves migratórias que os dois buscaram estudar na Nova Zelândia.
Vivendo em um Rio de Janeiro caótico nas décadas de 80-90, os personagens tentam amar a cidade que não os ama de volta, seja superando as catástrofes, a inflação, a tão recente redemocratização e o futuro incerto que 2016 trouxe a tona, o futuro da barbárie, do autoritarismo, do fascismo, tudo isso ao som de Bowie. Um pouco de respirar aqui e ali, a autora propõe uma obra que perpassa pelo caos, pelas mudanças climáticas, pelo luto, pelo futuro incerto, pelo avanço da extrema-direita, tudo isso em uma narrativa que esconde, mas que também deixa sentir a dor pelo qual Vanessa e tantos precisam aprender a lidar ao decorrer da vida, sendo uma ótima obra e excelente escrita.
Começou um tanto capenga, morno, lento. E terminou ligeiramente melhor. Talvez eu que tenha, depois de um tempo, me adaptado ao ritmo da prosa e aí a coisa fluiu melhor.
Essa obra me deixou confuso, ainda que positivamente. Todos os paralelos entre a vivência e do luto e as fugas disfarçadas de mudanças. A profundeza de uma relação e o marasmo que o tempo causou nela com a superficialidade de outras e sua intensidade. Me tocou muito em vários pontos. Não sei se o final precisaria ter sido da forma que foi. Ainda que tenha sido o ponto nevrálgico, a construção toda já estava ali, mesmo sem ele teria sido.
Conheci Adriana Lisboa em "Sinfonia em Branco"; foi paixão à primeira vista. Infelizmente, tudo o que me cativou, lá, parece estar ausente em "Todos os Santos". Ou quase tudo. O fio narrativo revestido de poesia ainda está lá, talvez seja a maior virtude da autora e que mais pesa na minha percepção de "gostei; porém...". Os poréns são muitos: senti o ritmo deste romance muito arrastado, como algumas pessoas já assinalaram aqui. Mesmo em poucas páginas, mesmo em intermináveis ondas de emoção e sensibilidade, fiquei com a sensação de que pouco se desenvolvia em vários momentos. Entendi que o jogo da interlocução enfocado em André mas direcionado a nós, leitores, é uma técnica, uma proposta objetiva, mas pelo menos pra mim, cansa: as constantes repetições e a conclamação à voz de André ("você não acha?") soam artificiais, quase como se houvesse a necessidade de deixar explícito que a narrativa é um exercício de rememoração com esse outro. O trauma, sempre presente nas obras de Adriana Lisboa, me parece, também, estrangeiro - há algo que não sei explicar entre as diferentes sensações de perda que senti ao ler este livro e as tragédias de "Sinfonia" e "Hanói". Aqui, a dor ainda existe, mas emerge desamparada de contextualização, de foco, de ritmo, não sei...
Por outro lado, a não-linearidade, o zigue-zague fragmentário na imersão da consciência das personagens é construído com maestria - e, repito, com muita poesia. A abordagem do não-pertencimento e dos deslocamentos culturais, geográficos e existenciais também segue sendo o ponto forte da autora - e disso eu gosto muito. Depois de ter passado boa parte do livro cansado, gostei do final - e me refiro às últimas 10 páginas, mesmo - (talvez eu seja uma exceção) justamente porque ali, finalmente, a autora parece dizer o que quis dizer ao longo de toda a história sem as amarras da repetição e do falso diálogo que tanto me incomodaram. Por isso, apesar da percepção majoritariamente negativa, dou 4 estrelas porque, no final das contas, acabei a experiência da leitura satisfeito por ter encontrado, ainda que nos últimos 10% da obra, aquilo que eu estava procurando desde o início.
“Literatura é estilo, dizem os que entendem. Madame Bovary não é a história de um adultério, é o autor e sua sensibilidade escrevendo as contradições, os anseios e perplexidades da humanidade que leva, à base de profunda reflexão, cravados no ventre e o obrigam a gritar como só os escolhidos fazem, voz que é música, música que é pensamento, obra que é arte e tudo junto é o desejado estilo, a literatura.” Pilar del Rio
A delicadeza da narrativa de Adriana Lisboa, sua habilidade para enxergar o singelo, a capacidade de verbalizar o que se sente e não se diz, e sua maestria na condução de tecer os fios do enredo continuam a me impressionar, porém, devo dizer que hora ou outra estive entediada neste romance (sensação a mim inédita em todos os outros dela).