Um passeio pela história da filosofia Um dos pensadores pop mais respeitados pelo público e pela crítica, Luiz Felipe Pondé apresenta neste livro uma história da filosofia diferente – a história dele com a filosofia. E não só: ele cita romancistas como Nelson Rodrigues, cientistas como Charles Darwin, economistas como Karl Marx e os psicanalistas Sigmund Freud e Carl Jung. Todos foram importantes na formação deste intelectual que, semanalmente, através de artigos, aulas e vídeos, nos questiona e nos ajuda a pensar e a entender o mundo em que vivemos. Dividido cronologicamente em seis capítulos, Como aprendi a pensar começa na Antiguidade com os gregos e romanos, passa pela filosofia cristã dos primeiros séculos sob a forte influência de Agostinho e chega na idade medieval de São Tomás de Aquino. O renascimento, a formação da modernidade com o debate entre iluminismo e romantismo e, por fim, o contemporâneo. Não faltam tragédias como Antígona e Medeia e os filósofos estoicos, epicuristas e céticos que tanto influenciaram na formação de Pondé. “Sempre achei que os céticos têm, pelo menos, ‘alguma razão’ em duvidar da razão”, diz ele. Nietzsche, Dostoiévski e Camus dividem as páginas com seus colegas mais contemporâneos como o polonês Zigmunt Bauman, o francês Tristan Garcia e o romeno Émil Cioran. Como aprendi a pensar é um convite para pensar, seguindo uma constatação do próprio autor: “Filosofar é aprender a fazer perguntas significativas que nos tornam mais inteligentes e mais interessantes – não, necessariamente, mais felizes”.
Pernambucano, filósofo, escritor e ensaísta, doutor pela USP, pós-doutorado em epistemologia pela Universidade de Tel Aviv, professor da PUC-SP e da Faap, discute temas como comportamento contemporâneo, religião, niilismo, ciência. Autor de vários títulos, entre eles, "Contra um mundo melhor" (Ed. LeYa). Escreve às segundas na versão impressa de "Ilustrada".
Considero filosofia dificilimo de ler, sem estar inserido no contexto de um estudo ou trabalho específico. Ou em um caminho formal, como um curso de mestrado ou doutorado. A leitura de filósofos isoladamente não é muito produtivo, porque a gente fica perdido em um mundo de opções e de linhas filosóficas diferentes. Acaba se perdendo e entendendo pouco ou quase nada, data a vastidão de possibilidades e combinações. O livro do Pondé ajudou demais, pois mostra uma trilha moderna seguida por um filósofo contemporâneo e respeitado, que é o Luiz Felipe Pondé. Coincidentemente, boa parte dos filósofos que ele cita eu já li alguma coisa, alguns mais, outros apenas superficialmente. Foi a oportunidade para ler por exemplo Antígona (Sófocles) como exemplo da tragédia grega (e finalmente entender o que a tragédia significa no nosso mundo). E também li Sobre a brevidade da vida... (Sêneca), como exemplo da linha estóica. Fantásticos, foi uma parada estratégica nas leituras para me dedicar inteiramente ao estudo da filosofia, e não apenas leitura da filosofia. Estou me sentindo menos ignorante depois deste livro, que é obra de referência e tem que ser relido eventualmente. Por isso, li o livro impresso, sem marcar nada nele próprio, apenas anotei no meu caderno de leitura. Para não viciar as releituras, que certamente vão levar a entendimentos diversos. Se você gosta de filosofia, ou se ainda não gosta mas tem vontade de gostar, este livro é um excelente começo. Mas prepare-se para estudar e não apenas ler. E para uma infinidade de desdobramentos em novas leituras e ideias que vão se abrir. Fantástico!
Dos livros de divulgação filosófica que o Pondé tem escrito nos últimos anos, este me parece ser de longe o melhor. Mais do que defender uma tese ou analisar um argumento, ele se propõe a desvelar quais são as suas grandes influências intelectuais. Para facilitar a vida do leitor, ele as organiza em uma ordem cronológica. O resultado é que o livro se transforma em uma breve, mas bastante legível história idiossincrática da filosofia. Estão presentes alguns dos grandes – Platão, Sócrates, Aristóteles, para lembrar de alguns – mas vários outros que são vistos com frequência como menores – céticos gregos, estoicos, místicos medievais – e ainda outros tantos que são lidos com uma outra lente – Maquiavel, Montaigne e por aí vai. Há também, os mais próximos de nós no tempo, o inclui romancistas como Dostoievski ou Nelson Rodrigues. Posto isso, talvez a frase-chave de toda a filosofia vista pelo Pondé seja a frase do filósofo grego Protágoras: “O homem é a medida de todas as coisas” e talvez até seja mesmo a linha condutora do livro: no final das contas a filosofia é o homem diante de si no espelho. E o homem é essa criatura cheia de medo, que não entende bem o que acontece consigo e com o mundo ao seu redor. Disse medo e talvez essa ideia seja um dos grandes pilares do livro. Uma das coisas boas dos trabalhos do Pondé é que ele recupera a filosofia como prática, como um modo como cada indivíduo, mesmo que jamais tenha pretensões acadêmicas, possa refletir sobre si, o mundo e as suas angústias. Essas últimas, aliás, não nos faltam e como ele próprio observa, apenas cresce à medida em que vivemos mais tempo e com mais saúde. Pensa-se muito, mal e por mais tempo. Meritória é a sua busca em transformar ideias complexas, às vezes com longas genealogias, em coisas mais digeríveis para um público mais amplo. É claro que às vezes, a simplificação cobra um preço. O que significa, por exemplo, “A fundamentação da verdade é rasgada pelo problema do mal” p. 121. É um ensaio que faz uma avaliação bastante pessoal da história da filosofia. Dito isso, é uma leitura que me foi bastante proveitosa.
Com magnifico poder de síntese, Pondé passeia por séculos do pensamento humano organizado. A obra começa na Grécia com as tragédias e os filósofos gregos que a sucederam. Passa para a idade média, onde a religião judaico-cristã tenta se compatibilizar com Aristóteles e a fogueira queima aqueles que, ao expressarem uma lógica diferente, colocam em risco a supremacia da igreja. Em ato contínuo, Pondé chega à filosofia e à ciência da modernidade realizando um rápido mas não menos impressionante resumo do pensamento de homens magníficos que viveram mais perto de nossa época e da dialética entre os Iluministas e Românticos. Em conclusão o autor chega à pós-modernidade citando a literatura deste período como mais poderosa do que a filosofia e finaliza dedicando a obra a todos aqueles que (como eu) estão cansados da opressão da lógica do sucesso e do marketing da felicidade. Leitura absolutamente instrutiva e deliciosa !
O desencanto e o ceticismo são sempre estados de afetos que nos ameaçam nas brechas do dia a dia.
A reverência é uma virtude máxima dos verdadeiros sábios.
A primeira coisa que se aprende em filosofia é que o que importa são as perguntas, e não, necessariamente, as respostas. Filosofar é aprender a fazer perguntas significativas que nos tornam mais inteligentes e mais interessantes (não, necessariamente, mais felizes), mesmo que sejamos mera poeira que pensa no vazio do universo, ou talvez, exatamente por isso.
No mundo grego a esperança é um mal porque não há qualquer esperança, uma vez que somos mortais e joguetes de forças cegas maiores que nós.
postulado fundacional da filosofia: “Quanto mais sei, mais sei que nada sei”.
Para Aristóteles, o objetivo da ética é desenvolver certas virtudes que, por serem praticadas com frequência, se transformariam numa “segunda natureza” da pessoa.
a base da fé é o medo da vida e dos deuses, e a ignorância das verdadeiras causas materiais das coisas
Agostinho afirma que todos merecem a condenação, mas Deus, por pura misericórdia, dá a graça contingente e eficaz a alguns poucos, sem que eles mereçam, sem que eles saibam que receberam a graça
As questões intelectuais sempre transitam pelo universo religioso:
O destino do homem é ser um artista como Deus, e sua vida é essa obra de arte, fincada na liberdade de quem não tem uma determinação a priori do que deve ser.
O amor precisa ser alimentado todo dia, o temor, só de vez em quando. O efeito do temor é muito mais durador do que o do amor.
posso duvidar de tudo, mas não de que algo está duvidando de tudo.
O cientista é um intérprete de como a natureza se revela, levantando hipóteses não absolutamente completas, mas radicadas no modo como a natureza oferece seu “temperamento”, por meio de eventos que se mostram ao longo do tempo de observação da natureza.
a vida é monstruosamente contingente, e o homem vive nessa contingência tanto fora quanto dentro de si, porque ele está à mercê de uma série de afetos e movimentos de alma à semelhança do fluxo de variáveis exteriores que o atormentam.
Um imperativo categórico é um enunciado ético que afirma que a moral só é universal se for racional. E para ser racional, deve ser válida para todos, sem exceção, portanto, universal: um ciclo lógico de mútua dependência. Se você mora numa casa e todos lavam louça e você não, você não é ético.
A consciência da impossibilidade de relaxamento enlouquece a todos.
autenticidade é mais importante do que a felicidade, a riqueza ou o sucesso, porque a autenticidade fala de quem você é, e não de quem gostariam que você fosse.
Somos frutos de um processo cego e elegante que privilegiou caracteres randômicos, mas que se adaptaram ao meio, por sua vez também randômico.
a única forma de viver sem desespero é desistir da felicidade e viver autenticamente, sem se iludir ou negociar com as falsas esperanças ou falsas versões de si mesmo.
Não se perde o medo porque nos convencemos que não há razões para se ter medo, mas quando mesmo tendo razão para se ter medo suportamos a vida cotidiana.
O erro do projeto de uma vida intensa é que a intensidade só é intensidade quando nos ameaça de alguma forma.
Austin Kleon fala de alguns livros que "te mandam para fora dele": livros que fazem você querer ler outros livros. Assim é *Como Aprendi a Pensar*; é óbvio que Pondé não queria se aprofundar em nenhum assunto, mas discorrer quase livremente sobre como ele vê a história da filosofia. Ler esse livro me fez pensar nos autores/engenheiros/pensadores/programadores que me formaram, ao mesmo tempo em que me deu vontade conhecer mais os filósofos que Pondé cita.
É uma pena que o autor faça questão de polemizar pelo prazer de polemizar (ao mesmo tempo em que critica as redes sociais), o que não agrega nada ao livro. Há também passagens bastante confusas, onde fica a impressão de que faltou uma edição mais cuidadosa (ou que o próprio autor ignorou as sugestões de edições).
Como um breve compêndio sobre autores e ideias da Filosofia, com uma visão bem pessoal, vale a leitura.
The proposal of presenting chronologically the authors and the schools of thought with which he identifies was a very smart decision. Philosophy has many comings and goings, a roller coaster of proposals and significance... Following this timeline helps to organize one's own thinking for those who, like me, see the present work as a set of philosophy classes, in the style that I wish I had had in high school, I guess.
Pondé nesse livro faz um resumo autores e autoras que formaram o seu pensamento. A síntese é incrível, dá pra ter uma noção legal dos pensamentos dos escritores. Deu muita vontade de ler alguns, principalmente os gregos. Alguns momentos são cansativos por causa dos conteúdos mesmo.
A primeira parte dá um sono... entendo que é necessária para explicar as bases do que será abordado mais a frente, mas particularmente gostei mais do meio pro fim, especialmente o último capítulo dedicado a autores contemporâneos (Camus, Dostoiévski, Freud..).
Pondé é uma referência para oBrasil. É difícil uma mente tão lúcida nos tempos de hoje, onde ser Bolsonaro e PT parecem ser as únicas alternativas e qualquer coisa diferente é traidor. Pondé faz um resumo da evolução de seu aprendizado na filosofia, o que é muito interessante, pois pode ser um roteiro para qualquer pessoa.