Este segundo volume de “O Vermelho e o Negro” mantém, na minha opinião, a qualidade narrativa, a atualidade do enredo e as circunstâncias da ação, fatores esses tão bem conseguidos na primeira parte.
Agora, encontramos o nosso protagonista, Julian Sorel, em Paris, abandonando a imaginária vila de Verriérres, onde mantivera uma relação amorosa com Madame de Rênal que, assim como o seu marido, constituíam a nata social desse burgo provinciano, para ocupar o cargo de secretário do marquês de La Molle, passando, assim, a habitar a nobre residência convivendo com a sua família na qual se destaca a presença de Mademoiselle de La Molle, filha do seu benfeitor. Julian Sorel, com uma personalidade muito suscetível ao amor-próprio, depara-se com o brilhantismo, mas ao mesmo tempo, com a fatuidade dos salões parisienses do primeiro quartel do séc. 19, Possuidor de um talento intelectual acima do que se considerava próprio a um camponês, de um aspeto físico extraordinário, o jovem, com apenas 20 anos de idade, vê abrir-se perante si um mundo que jamais faria parte do imaginário das suas melhores e mais altas expectativas.
Tendo desenvolvido um enorme desdém pelas atitudes burguesas, próprias da belle époque francesa, antagonicamente, Julian vai, à medida que o tempo passa, acumulando uma ambição desmedida por tudo aquilo que Paris lhe poderia oferecer. Podendo ser caracterizado, no mínimo, por um ser obscuro, a sua enorme audácia fará com que se misture ao que o “orgulho da gente rica chama boa sociedade”. Sentindo-se menosprezado num meio em que, a “proveniência de uma boa família” é garantia de sucesso social e económico, Julian sentir-se-á um dos mais irremediáveis apóstatas, um dos mais execráveis injustiçados, pese embora toda a sua enorme sensibilidade e consciência de uma personalidade promissora numa sociedade que cada vez mais o oprimia, tanto por não receber o reconhecimento dos seus extraordinários dotes intelectuais como o desdém daqueles que dela faziam parte.
E será, dentro deste estado de espírito que a jovem Matilde de la Mole se apaixonará definitiva e irremediavelmente por Julian. Como seria de esperar, é aqui que se dá aquilo que, no cinema, se chama a definição do argumento, ou seja, aquele momento em que tudo muda na narrativa e que, daí para a frente, irá influenciar a ação até ao seu desfecho. Caracterizando a personagem de Matilde, podemos constatar de que se trata de uma jovem com uma personalidade intrépida, orgulhosa dentro dos seus costumes, mimada ao limite mas com uma perceção muito clara do que não quer: “Não seria esse o papel que eu representaria se amasse o marquês de Croisenois [de condição social igual à sua e promissor consorte]? Teria uma nova edição de felicidade das minhas primas, que eu desprezo tanto. Sei com antecedência, tudo o que diria o pobre marquês, tudo o que teria de lhe responder. O que é o amor que faz bocejar? Mais valia ser beata”. Quanta iluminação para uma jovem oitocentista!
Julian também sente a flecha do Cupido mas a sua desconfiança em relação a uma atitude com poucos precedentes na história da aristocracia francesa, fará com que entre num jogo de sedução aconselhado por um jovem russo que lhe cede 53 cartas de amor, todas dirigidas a Madame de Fervaques mas com o objetivo de conquistar a alma e o coração de Matilde, de forma perentória e definitiva, através do ciúme e da raiva que incendiariam uma alma inquieta, insegura embora indomável.
Tendo Matilde engravidado esta, contra tudo o que a sociedade exige e contra todos os seus pares, decidira casar com o pobre camponês/seminarista/secretário de alma boa e nobre no entender da jovem marquesa, ele que não se fez rogado na sua escalada ambiciosa aos mais altos padrões sociais. Sucede, porém, que toda essa situação iria trazer custos inimagináveis a Julian. E esses custos estão diretamente ligados ao primeiro volume desta obra simbólica das metamorfoses sociais e políticas operadas no início do séc. 19 em França.
É uma narrativa muito própria da vertente ligada à corrente realista, enquanto movimento artístico embora ainda convencionada ao romantismo literário.
Para mim, o vermelho representa a paixão e o negro do que, neste caso, dela decorre. Não consigo atribuir as qualificações da crítica colocando o exército (vermelho) versus o clero (negro), se bem que ambas surjam, para mim de forma mais ou menos sub-reptícia, em todo o argumento, pese embora o facto de Julian ter uma vertente ligada ao clero, creio que não justifica a mensagem deste magnífico livro.