Dois garotos, de origens muito diferentes, são forçados a conviver por alguns anos e acabam por ver suas trajetórias enlaçadas por um destino irônico. Do Morro do Livramento, passando por Portugal e pelo Rio de Janeiro do final do século XIX, os meninos, agora homens, se reencontram e retomam uma rivalidade pela qual vale dedicar a vida. E hoje, enquanto um é celebrado como um dos maiores escritores brasileiros, Pedro Junqueira, nosso personagem marcado pelo azar e pela usurpação, tem pela primeira vez a chance de ver sua história narrada sob outro ponto de vista... porque ter como adversário o escritor de maior prestigio na literatura brasileira não deve ser fruto apenas do acaso, maus uma maldição. Junqueira não teve apenas ideias roubadas e oportunidades minadas, mas também a perda de seu grande amor. Nesse romance, uma outra face de Machado de Assis é apresentada e convidamos os leitores a conhecerem a versão de ser adversário mais desgraçado.
Natural de Mossoró (RN), é formado em Direito pela Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), com pós-graduação em Direito Processual e em Direito Civil. Há dez anos reside em brasília, onde exerce o cargo de Defensor Público do Distrito Federal.
Um dos nomes mais promissores da ficção histórica contemporânea, o potiguar José Almeida Júnior venceu o Prêmio Sesc e foi finalista do Jabuti com o ótimo "A Última Hora", seu romance de estreia. Na esteira do sucesso deste e dos 180 anos de Machado de Assis, chegou às livrarias ano passado seu "O Homem que Odiava Machado de Assis", uma fantasia ainda mais ambiciosa, retrocedendo não apenas um século (como era o caso da narrativa sobre o periódico getulista), mas dois (o século 19, do fundador da Academia Brasileira de Letras e nosso maior cânone literário: o Bruxo de Cosme Velho).
O salto temporal é maior, mas é feito com o mesmo maquinário construído em seu primeiro livro: uma voz narrativa sóbria e direta, quase monocórdica com seus diálogos curtos e objetivos, desenvolvidos em capítulos breves, que tentam impor um ritmo leve a uma prosa extensa ("A Última Hora" tinha em torno de 350 páginas; este tem cerca de 240).
Aqui, o narrador é Pedro Junqueira, nêmesis de José Maria Machado de Assis desde a infância, que abre o romance fazendo uma reconstituição do velório de Machado de Assis na ABL e introduzindo já alguns dos personagens que flanam por ali e que irão compor a trama ficcional: Carolina, esposa e musa de Machado, o crítico literário Sílvio Romero, um de seus maiores detratores em vida, entre outros. A partir do segundo capítulo, segue a saga que explica o antagonismo entre Junqueira e o escritor, que data dos tempos de meninice.
É saborosa a forma como a rixa é exposta, elaborando uma espécie de imaginário em torno da gênese de "Dom Casmurro" - não de forma denotativa, mas a partir de uma série de piscadelas que Almeida Jr. começa a dar ao leitor mais escolado (que pode enxergar nos episódios contados nos primeiros capítulos uma possível inspiração para o início da obra-prima de Machado). Aos poucos, a personagem Joana vai se desenvolvendo como um dos possíveis modelos para Capitu - Carolina também será um outro modelo, como mais tarde se verá.
Além de "Dom Casmurro", "Memórias Póstumas de Brás Cubas" é outra obra incidental aqui: mais um motivo de controvérsia entre Junqueira e Machado, numa história que não fica apenas no cenário da então capital do Império, o Rio de Janeiro, mas viaja também além-mar, para Coimbra, então uma das mais importantes cidades da Coroa portuguesa. Não satisfeito em montar um ágil e emocionante enredo (que em alguns aspectos lembra os de outro colega seu de Sesc, o paranaense Marcos Peres), Almeida Jr. ainda oferece um panorama de bastidor do movimento abolicionista no Brasil, munido de uma competente pesquisa histórica.
O final súbito é que parece carecer de um fechamento circular, que o primeiro capítulo insinua com um certo pendor à metalinguagem - sugerindo a biografia de Junqueira, que é efetivamente escrita com este livro, oferecendo uma feição de Machado contrária às versões oficiais (como um vilão - e não como um herói). Por falar em contrariar a narrativa oficial, o livro tem o mérito de exibir já em sua capa a verdadeira face de Machado: negro "embranquecido" por uma história de apagamentos identitários em prol de uma noção de intelectualidade profundamente racista.
A imagem da capa, bem como as internas, são infelizmente das poucas virtudes estéticas do projeto gráfico que, a cargo da Faro Editorial, mais nos afasta que nos aproxima de suas páginas.
O que falar do aguardado livro do promissor escritor José de Almeida Júnior, que em seu primeiro romance (“A Última Hora”) já emplacou um Prêmio Sesc e muitos elogios? “O Homem que Odiava Machado de Assis” já veio ao mundo criando muitas expectativas de seus leitores, a começar pelo título instigante; depois, pela ousada ideia do autor misturar mais uma vez ficção com fatos históricos, aproveitando brechas pouco exploradas da vida do considerado maior romancista brasileiro de todos os tempos: Machado de Assis.
Não vou fazer um resumo completo e nem cronológico do romance, pois há várias resenhas disponíveis na internet que o fizeram muito bem. Destaco este, em especial (por ser bastante completo): https://www.pontozero.net.br/2019/07/...
Por meio de um personagem fictício, Pedro Junqueira, filho de um rico cafeicultor, que se apresenta logo nas primeiras páginas como o maior detrator de Machado de Assis, e é o narrador dessa história se não cheia de reviravoltas, mas com gradações de imprevisibilidade e escolhas errôneas que o levam a outras escolhas, até ser reduzido a mero figurante de um período importante da História do Brasil: a movimentação em prol do fim da escravatura, primeiro por meio da Lei Áurea, depois a Lei dos Sexagenários, até a promulgação definitiva da Abolição da Escravatura, o leitor terá oportunidade de enxergar Machado de Assis como um ser humano mesquinho e dado a rompantes vingativos, e que ainda se apropria das ideias de um escritor menor (no caso, o próprio Pedro Junqueira) para escrever um de seus maiores clássicos e um dos mais prestigiados romances: “Memórias Póstumas de Brás Cubas”. Mas, como se sabe, ideias e temas são universais e de domínio público; não há como defini-los como sendo de um só escritor, a não ser quando este os materializa. E cada um o materializará a seu modo, com sua genialidade (no caso de M.A.) ou mediocridade (no caso de P.J., a quem Machado de Assis sugeriu que desistisse de continuar escrevendo, pois estava muito ruim). E não nos esqueçamos de que a apresentação de um Machado de Assis sob um prisma nada favorável tem tudo a ver com esse recorte e parcialidade (para não dizer animosidade) com que é retratado pelo narrador desta história — ou seja, sagazmente não houve brechas para apresentar o outro lado da moeda, uma vez que narrado sob o ponto de vista de seu inimigo.
A rivalidade entre os dois permeou todos os campos: literário e amoroso, haja vista ambos desejarem a mesma mulher: Carolina de Novais, que inicialmente se entregou a Pedro, em Portugal, e quando se viu abandonada por este, difamada e mal falada, veio para o Brasil, onde se casou com Machado de Assis. Assim, o nosso narrador passa a cobiçar uma mulher casada e faz de tudo para reconquistá-la, sem medir consequências.
Para piorar sua situação, ele constrói sua carreira em torno de um modelo de assertividade aos ideais progressistas à abolição da escravatura, sendo até sondado para sair a candidato como deputado pela Província de São Paulo, quando se vê às voltas com mais de 1200 escravos herdados de seu pai, logo após a morte deste. É confrontado com a dura realidade de que nem sempre os ideais se coadunam com os interesses econômicos, pois não pode se desfazer dessa mão de obra gratuita nas fazendas herdadas, de uma hora para outra. Logo vê ruir por terra seus projetos de se eleger pelo Partido Liberal, após ser sumariamente expulso do Movimento conhecido como Sociedade Brasileira contra a Escravidão, que o apoiaria nas eleições, quando é difamado por meio de uma nota em jornal assinada por um tal de Lélio — pseudônimo que Machado de Assis utiliza para atacar seus inimigos.
E é em torno de todos esses conflitos e reveses de um protagonista nada heroico que o autor trabalha para criar uma história saborosíssima.
Uma ficção histórica instigante, que apresenta a incompleta biografia do gênio da Literatura mundial através das memórias de um conviva, com quem partilhou lembranças, histórias e um pouco mais. Uma espécie de 'Vida de Brian' localizada no fim do Brasil Império, carregada por uma trama envolvente e diversas homenagens à personagens e narrativas das obras do bruxo do Cosme Velho.
E se você descobrisse que Machado de Assis é uma fraude? Ou que a pacata vida do Bruxo do Cosme Velho é marcado por mexericos, rancores, desavenças, traições e segredos? Pois bem, essas características comuns aos chamados folhetins são a matéria-prima do romance de José Almeida Júnior.
Com destreza e leveza, ele nos apresenta ao interessante Pedro Junqueira, aristocrata do café, vivendo em Portugal para formar-se em Direito, apaixona-se pela jovem Carolina. Enfrenta a fúria e ciúmes de seu irmão, mais por capricho e vaidade que por disposição. Após uma tragédia familiar, a moça vem para o Rio de Janeiro a busca de um recomeço.
Ao retornar ao Rio, anos depois, Pedro Junqueira desfruta da cidade e dos prazeres proporcionados pelo dinheiro e moças do Alcazar, onde reencontra Joana, vinda de sua infância na casa de uma tia no Morro do Livramento.
Joana, Pedro e Joaquim construíram amores e desavenças no Morro do Livramento. Aliás, entre Pedro e Joaquim há ressentimento é um ódio calmo e perene que o primeiro nutre em tom de vingança. O reencontro é inevitável. Joana virou Nicole uma dançarina/prostituta do Alcazar. Joaquim tornou-se escritor, conhecido por Machado de Assis é tomou por esposa a portuguesa Carolina, por quem Pedro Junqueira havia se apaixonado.
Estão postas as peças para esse jogo entre rivais, o que é muito bem aproveitado pelo autor. O azedume do narrador e sua parcialidade explícita é digna de nossa desconfiança, à semelhança de Bento Santiago, alimentando alguma inveja por aquele “mulato” ter conquistado respeito ma Literatura, a mulher que almejou e o status que glosava entre seus pares. O seu fracasso - nem conseguiu ser escritor, nem a mulher desejada, nem o respeito de seus pares - alimenta seu ódio e macula suas pequenas vitórias. Um romance divertido e leve, sem reconstruções históricas enfadonhas ou professorais, a que vez ou outra acometem aos romances históricos. Afetivamente, me remeteu à adolescência entre os livros de meu pai e a seu amor por autores como Alexandre Dumas. ____________ #ohomemqueodiavamachadodeassis #josealmeidajunior #leianordeste
Devo confessar que o começo do livro me deixou bastante empolgada, a premissa me atraiu muito, então as expectativas foram lá no teto. Afinal, por que o nosso personagem principal odeia tanto Machado de Assis? O que se segue então é a narrativa de um personagem que não tem um real motivo para odiar Machado, a não ser pura implicância e por Machado de Assis ter tido coragem de fazer o que ele não fez. O personagem principal se recusa a aceitar seus próprios erros e assumir a culpa pelas péssimas decisões que ele fez na vida, então por que não culpar alguém do qual você tem birra desde a infância? Durante toda a leitura fiquei com uma sensação de incômodo que até o momento não consegui identificar o motivo, talvez tenha sido o personagem principal, não sei. Entrei com altas expectativas, sai com uma pequena decepção.
Amei esse livro !! A história é ótima e realmente mexeu comigo Fiquei com tanta raiva do Pedro Junqueira e suas atitudes que nem acreditei. Há muito tempo uma personagem não mexia tanto comigo kkkkk A leitura me envolveu tanto que li mais rápido do que estou acostumada. É aquele tipo de livro que vc não quer parar de ler até acabar Além disso, tem a parte histórica que permeia a história e vc se sente no Rio de Janeiro de 1870 Muitas vezes me pegue pensando: e se isso for verdade ? Será que esse Pedro Junqueira existiu mesmo ? A história é muito verossímil e divertida Recomendo demais a leitura
What a delight of romance, read in 2 seats, 3 at most.
The author creates a well-constructed plot, using the story fictionally to play with one of the main axes of Machado, that of perspective, of doubt about character, and to reverse that against the writer himself.
But in addition to that, another issue well explored in the work is that of slavery, putting everything in perspective too, by giving voice to the various views on the subject, existing at the time and even today.
For all the fans of Machado de Assis out there. If I were you I'd read it. It took me just a couple of weeks to go through. Enjoyable reading for sure.
E se a vida de Machado de Assis virasse tema de folhetim açucarado (e apimentado)? Uma leitura rápida, fácil, sem grandes pretensões. E com alguns deslizes gramaticais.