Em A Morte e o Meteoro, Joca Reiners Terron constrói uma narrativa em que o legado de Coração das Trevas, de Joseph Conrad, encontra uma travessia cósmica e pós-moderna. Dividido em quatro capítulos curtos, acompanhamos a história da fuga do Brasil e da Amazônia destruída de uma comunidade de 50 indígenas em extinção: os kaajapukugi. Cabe a Boaventura, uma espécie de Kurtz indigenista, conduzi-los até um santuário no México. Contudo, Boaventura morre misteriosamente, e o narrador da história, um funcionário público da Funai, assume a responsabilidade de concluir o plano, não sem antes entrar em um vórtex conspiratório. Este é o enredo inicial de A Morte e o Meteoro. Como sugere, a narrativa ressoa com a ficção especulativa ao imaginar o futuro próximo da Terra, de uma Gaia caminhando a passos largos rumo a um desfiladeiro. E, como toda ficção especulativa, o que ela traz de mais marcante são as rimas com o tempo presente, construídas por meio de metáforas e metonímias.
“Os kaajapukugi trajavam vestes cerimoniais de palha inteiriças com chapéus e máscaras que lhes deixavam à mostra apenas a parte inferior das pernas. Não carregavam bagagem ou sacolas, e pisaram nos degraus em ritmo pausado e uníssono, como se provassem os pés descalços o material de que eram feitos, até atingirem o tapete tão vermelho quanto insensato estendido para recebê-los. Parecia a chegada à Terra de seres de outro planeta.” (p. 28)
O trecho acima ganha significância por sua semiótica: o estranhamento das civilizações ocidentais em relação aos povos originários é aqui expresso como se eles fossem “alienígenas” (o próprio narrador constata isso um pouco adiante). Contudo, as principais rimas são narrativas. Com o avanço da história, após o suicídio coletivo dos kaajapukugi ao final do primeiro capítulo, o narrador encontra uma gravação em vídeo de Boaventura, que revela sua história, assim como Charles Marlow em Coração das Trevas. É por meio dessa gravação que Boaventura admite o horror que cometeu nas terras dos kaajapukugi e como sobreviveu a uma flecha que alvejou seu rosto. Boaventura é o típico “bom moço” da sociedade ocidental e atua como avatar de um ideário colonizador:
“Aos poucos, percebi que desejava apagar meu sobrenome e me tornar outra pessoa. No fundo, desejava ser um selvagem como aquele que disparou seu arco contra mim, com suficiente livre-arbítrio para decidir se um homem devia viver ou morrer, sem obedecer a ordens de ninguém.” (p. 48)
A flecha dos kaajapukugi, em sua presença simbólica, ecoa a narrativa de Conrad: o horror não apenas é testemunhado, mas praticado. Boaventura, a figura central do romance, pode ser lido como uma releitura contemporânea do capitão Kurtz, mas, em vez de sucumbir ao horror com suas últimas palavras, sobrevive o suficiente para perpetuar seus próprios horrores e desejos. Sua morte, um suicídio forçado, não carrega a carga trágica de um destino interrompido, mas uma constatação: o Grande Mal, aquele que opera a máquina colonizadora, morre tranquilamente após a devastação.
“Boaventura olhou fixamente para a câmera do computador e balançou a cabeça devagar, em sinal de negativa. Notei que os ruídos na gravação cessaram, e, a não ser pelo ranger da cadeira onde ele estava sentado e mexia as pernas com nervosismo, o quarto mergulhou em quietude.” (p. 50)
A forma do diário em vídeo de Boaventura instaura uma narrativa em abismo: é a história contada por aquele que registra e se registra, ampliando a reflexão sobre a colonização não apenas como tema, mas como estrutura narrativa. Esse recurso evoca o diário de campo antropológico, mas também dialoga com gêneros que perpetuam o olhar colonizador, questionando os limites entre observação e apropriação. Esse formato também amplifica a metalinguagem, tornando-se parte do comentário crítico. Assim como Conrad transformou a viagem pelo Congo em uma metáfora da escuridão interna e externa, Terron utiliza o diário em vídeo de Boaventura para revelar o abismo moral do protagonista e, ao mesmo tempo, da modernidade colonizadora. Um abismo dentro de um abismo.
Outra camada de complexidade emerge nas rimas narrativas, que sugerem um diálogo entre A Morte e o Meteoro e Pedro Páramo, de Juan Rulfo. O pai do narrador, professor universitário, possuía uma edição com dedicatória do próprio autor, que ele, num ápice de vontade desprendida, joga fora junto aos bens paternos. Boaventura, por sua vez, rapta, molesta e estupra a única mulher kaajapukugi, que acaba engravidando. Após o suicídio da indígena — perpetuando assim a extinção do povo kaajapukugi — Boaventura busca redenção ao entregar o filho. Aqui, enquanto o romance de Rulfo narra a busca do filho pelo pai ausente, Terron apresenta uma desconstrução dessa busca: o narrador não busca o pai, mas deseja se libertar de sua herança. Por outro lado, Boaventura encarna uma figura paterna que não apenas repete o ciclo de violência, mas o intensifica. Essa dualidade — filhos assombrados por pais ausentes ou violentos — sugere o peso de uma paternidade marcada pela destruição. O filho de Boaventura, um homem branco e mestiço, maior do que todos os outros kaajapukugi, não foi a salvação do povo, mas a constatação de sua própria destruição:
“Meu plano tinha falhado, não havia salvação para os kaajapukugi. A índia pariu um menino em vez de uma mulher. E morreu. Agora só restavam homens entre eles.” (p. 94)
Ao amarrar a narrativa, Terron também tensiona as concepções ocidentais e indígenas do tempo, contrastando a linearidade produtivista capitalista com a cosmogonia cíclica dos kaajapukugi. Enquanto o homem ocidental busca a imortalidade e a perpetuação infinita de seus recursos e narrativas, os kaajapukugi representam uma visão contrária: um retorno à repetição, à finitude que reforça a interdependência entre seres e ciclos — talvez uma alusão ao plano de imanência deleuziano.
“Ao contrário da jovialidade e da integralidade que permitem ao homem branco na juventude, enquanto ainda está subindo a montanha e, portanto, não vê a morte do outro lado, viver ignorando o que o aguarda, o kaajapukugi encarava a morte e a via com melancolia desde cedo.” (p. 99)
Dentro das concepções de tempo articuladas no romance, destaca-se a narrativa paralela de uma corrida espacial rumo a Marte. Neste mundo especulativo de A Morte e o Meteoro, são os chineses, ao enviar um único casal, que conseguem colonizar Marte. E, veja só, o narrador descobre que um pictograma dos kaajapukugi mostrado na gravação nada mais é do que uma representação de um traje espacial.
“O mecanismo de recuar e avançar do tocador de vídeo me pareceu fascinante, e fiquei movendo para a frente e para trás a barra de rolagem por um tempo indefinido. O que minha imaginação via naquele instante era sincrônico, mas a realidade estava condicionada à linearidade, como aquele vídeo também estava. No vídeo existia um antes e um depois; já o mesmo não ocorria na vida.” (p. 106)
Os trajes cerimoniais dos kaajapukugi, que evocam astronautas, conectam a cosmogonia indígena a uma reflexão sobre o tempo e o espaço: os kaajapukugi são, antes de tudo, chrononautas, viajantes de um tempo não linear, que antecipam o fim do mundo apresentado no final de A Morte e o Meteoro.
Ainda há salvação para a humanidade ocidental, que se pensa infinita? O romance parece nos perguntar. Como diz Ailton Krenak em Ideias para Adiar o Fim do Mundo: “O fim do mundo talvez seja uma breve interrupção de um estado de prazer extasiante que a gente não quer perder”. Um tempo linear, um tempo de recursos infinitos, nada mais é do que uma mentira criada por nossa concepção de mundo. Escute os kaajapukugi e leia A Morte e o Meteoro para se preparar.