Alucinante e alucinada, melódica e sonora, sensível e cruel, frágil e dura, bela e grotesca. Assim é a poesia e a linguagem do Adolfo Luxúria Canibal.
ROCK & ROLL
Ao Ginsberg, talvez
Vi dor de minha carne que se soltava nas ruas em manifestações de poesia com uma vontade enorme de mudança que batia nos andaimes da crueldade e sorrindo continuava a bater até sangrar que lia Sade e Lautréamont e só depois calmamente enrolava um charro que conhecia a violência do Estado e dos cidadãos exemplares por a ter já sentido de forma monstruosa como vingança de ser jovem e ser bela que tripava com prazer indescritível cabelos ondulando nas estrelas e pegadas na areia que escalava o Gerês procurando o estado de Graça encontrando apenas a solidão absoluta que enlouquecia em espasmos repentinos e incontroláveis à uma da tarde para às sete os escrever à beira rio que chutava ópio nos prédios em construção utilizando água da chuva sem se importar com nada que deambulava em bando pela cidade carregada de drunfos tentando comunicar o desespero sem o conseguir que viajava em velhos Ford à boleia para fugir da angústia e ia parar a festivais de jazz que se embebedava por garrafas poeirentas e após imprecações grunhidas com raiva acabava a noite a vomitar nas retretes que chorava indefesa no regaço do amor e recebia em troca festinhas de consolação
Vi pedaços de mim estilhaçados pueris que se suicidavam na docilidade quando queriam era viver que se guerreavam entre si em batalhas incompreensíveis para não agredirem o mundo que sofriam em silêncio sem uma ponta de revolta sequer porque queriam terminar com o sofrimento que já fartos se encheram de rock & roll e cuspiram niilismo que impossibilitados da aventura e da vida decidiram a vingança como última esperança de gozo
Vi-me por fim mergulhado nesta indiferença cultivando o isolamento num saciar de prazeres há muito esquecidos