“A verdade é que estão se devorando uns aos outros. E depois nós é que somos os abutres, nós os fatídicos, os mau-agourentos, o ser humano é um bicho estranho mesmo. A nós deixam o trabalho de livrá-los de seus próprios restos. Deviam nos agradecer. Desta vez demos cabo de tudo rapidamente, afinal, era tão pequeno o manjar, terminamos sem deixar resquícios, raspamos o prato, como eles dizem, cientes da importância do nosso trabalho. Pois se estamos no fim da cadeia, também fechamos um círculo, somos: recomeço.” CARLA BESSA é tradutora literária e escritora, autora de “Aí eu fiquei sem esse filho” (2017).
O cheiro do lixo impregnou quando o moleque encontrou o tal fantasma na montanha de lixo. Aparecida me lembrou de um aperto no coração e das escolhas que nunca saberemos se foram as certas. Quem garante que o outro amor não era mais vermelho? Os colantes da mesa, a maça raspada, a alma penada... essa senhora está me apertando o coração até agora. O celular roubado e a sorte do amante e da Paloma por ter voltado para casa e para a novela. O dinheiro, o fim de semana e a admiração que os garotos levaram do caixa do ônibus. As cartas que nunca saíram do peito do remetente. O pão Vita no lixo, o presunto mofado no chão, o pedaço preso no dente, na solidão do velho. O embrulho feito de dor e desespero boiando no mar. O pai, o colo, a barriga, o damasco. Tanta gente, tanta história, tanta verdade na ficção da vida. É isso. Deu dor de estômago, deu aperto, deu aflição e uma vontade de menos desamor no destino de alguns. Urubus voou e deixou a carniça do desconhecimento-da-existência-do-outro com seus óculos de lentes cor de rosa à mostra. Bicho danado. Bicou no ponto certo.
Um livro de contos muito consistente, dos melhores que tenho lido neste ano. As histórias estão de certa forma interligadas, o personagem que aparece de relance em uma história pode virar o protagonista da história seguinte, e tudo isso faz sentido, já que somos mesmo uma porção de pessoas vivendo histórias que se cruzam e descruzam o tempo inteiro. Achei que foi um recurso interessante e que contribuiu para dar uma boa unidade ao livro.
Em relação ao tema, é "a série contínua de pequenas tragédias", como diz a citação do Bukowski que aparece na epígrafe, pequenas mazelas e misérias (também financeiras, mas não apenas) que afetam pessoas pobres comuns.
Apesar da ligação entre elas, a maioria das histórias também funciona individualmente. O conto de que mais gostei foi "Um dia na vida (de Wellington)", sobre um motorista de ônibus que é assaltado no trajeto e com isso perde o dinheiro com o qual planejava uma viagem com a esposa.
Também "Todo sábado, todo domingo", sobre uma senhora que prepara o café da manhã para a família do neto e da "nora-neta", é um dos destaques, por ser bastante pungente e verdadeiro.
Há ainda "Ele como qualquer outro (Fuga imaginária que no fim nem houve), sobre uma mulher que havia planejado fugir com o amante e até chegou a sair de casa, mas no fim desistiu (é uma verdadeira joia de história).
Sem falar na própria crônica-título, que abre o lixo já com muita força, ao tratar de crianças catando coisas em um lixão, além de um homem que aparentemente lá vive.
Aí está um livro que acho que mereceu os prêmios que recebeu.