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Quando Servi Gil Vicente

Gil Vicente, figura insigne do Teatro e das Letras portuguesas, de vida incerta e misteriosa, mas alvo de admiração e honrarias ao longo dos séculos. Menos afamado, talvez, seja seu servo, Anrique de Viena, homem humilde e leal que conheceu em batalha o mundo, e que regressou para o lado de seu senhor, para o acompanhar no inverno de sua vida e o ajudar na escrita da sua última peça. E através da pena de Anrique, ágil e dedicada, veremos o mestre como nunca antes foi visto: completa e profundamente humano.

Irónico, divertido e comovente, Quando Servi Gil Vicente é um exercício extraordinário de estilo e invenção que, prestando homenagem a um dos maiores autores portugueses, nos permite acesso àquilo que, para o bem e para o mal, poderia muito bem ser Gil Vicente no seu tempo e mundo.

208 pages, Paperback

First published January 1, 2019

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About the author

João Reis

113 books623 followers
João Reis (1985) is a Portuguese writer and literary translator. His books are published in Portugal, the USA, Brazil, Serbia, Georgia, Egypt, Greece and Iran. He writes both in Portuguese and English.

The Translator's Bride was his first work to be translated into English, and his novel Bedraggling Grandma with Russian Snow was longlisted for the 2022 Dublin Literary Award.

He's also the author of The Devastation of Silence (longlisted for Prémio Oceanos 2019, published in English in November 2022), Quando Servi Gil Vicente (shortlisted for Prémio Fernando Namora 2020), Se com Pétalas ou Ossos (2021), Cadernos da Água (2022, shortlisted for Prémio Fernando Namora and Prémio Fundação Eça de Queiroz), and An Atavic Fear of Hailstorms (2023).

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Community Reviews

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41 (53%)
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24 (31%)
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7 (9%)
2 stars
3 (3%)
1 star
1 (1%)
Displaying 1 - 28 of 28 reviews
Profile Image for Cláudia Azevedo.
436 reviews238 followers
April 10, 2020
Sou, cada vez mais, uma fã confessa da escrita de João Reis. Li este seu mais recente livro sempre com um sorriso nos lábios. O seu humor é singular.
Anrique serve Gil Vicente com desvelo na fase final da vida do dramaturgo. As peripécias vividas pelos dois, aos quais se junta Jorge, são hilariantes.
Adorei!
Profile Image for Maria Ferreira.
227 reviews49 followers
May 25, 2020
João Reis é um conhecedor profundo da Língua Portuguesa, escreve uma história fictícia com uma escrita muito peculiar e belíssima, vero, as rimas e os trocadilhos de uma língua antiga aqui retratada por Reis de forma exemplar, traz à narrativa um humor fora do comum.

Impossível conter o riso nos diálogos de Anrique com Gil Vicente, um por ser o Grande Mestre dramaturgo, o outro, aluno de excelência aprendeu eficientemente a postura e a fala, tornando-se a sua imagem e, não menos eloquente. Muito me ri com a história do barbeiro e do espelho.

Anrique de Viena, ou Anrique Hispano, ou simplesmente Anrique, conta-nos, em jeito de carta, as suas aventuras.
Nascido meio Português e meio Espanhol, foi sob a proteção de Gil Vicente que teve contacto com as letras, cresceu e aprendeu muitas outras coisas.

Após uma temporada na frente batalha por terras estrangeiras, volta a Portugal e procura seu Mestre. Junta-se a ele e a Jorge, mas é preciso ganhar a vida, as forças vão faltando a GV para escrever os autos.
Eis o mote que dá “vida” a uma história imaginária sobre o final da vida desse grande Dramaturgo, pai do teatro Português e seu fiel servo.
Profile Image for Ana.
Author 14 books218 followers
March 12, 2021
Esta foi a minha estreia com o autor, conduzida pela mão da minha querida amiga Silvéria.
Obrigada Silvéria por este maravilhoso presente de Natal!

É cedo para dizer que fiquei fã, mas para lá caminho, uma vez foi mesmo muito positivo o efeito desta primeira leitura.

Achei o texto simplesmente brilhante. Fez-me lembrar um pouco outros autores que muito admiro, como por exemplo António Victorino D'Almeida, pela audácia de brincar saudavelmente com o que é nosso, com o que é português e tido por vezes como "intocável", ou Jonathan Swift pela sua ironia mais cáustica que resulta de uma quase completa falta de esperança na humanidade ...

Mas o que encontrei neste livro de João Reis foi para mim completamente original e inovador:

Pelo léxico, gramática e estruturas utilizados (sem nunca esquecer que escrevia para leitores de hoje) João Reis conseguiu "enganar" a minha mente, transportando-me com imensa facilidade para um hipotético cenário do tempo de Gil Vicente;

Pela mistura inteligente de várias formas de humor, intermediando a "piada" mais flagrante ou óbvia, com a mais subtil e engenhosa, proporcionou-me uma leitura muito divertida e ao mesmo tempo bastante perturbadora, uma leitura com um tom único e diferente de qualquer outra que li até hoje;

E pelo enredo original e criativo, totalmente imprevisível, foi um daqueles livros que ao terminá-lo me deixou uma daquelas sensações incómodas inesquecíveis...

Quero muito ler os outros livros do autor. Depois desta leitura, tenho-o como um autor excepcional. Diria até genial.
Profile Image for Paula Fialho Silva.
228 reviews123 followers
December 7, 2019
Vivi estes dias no século XVI porque a escrita de João Reis para lá me transportou. Não é uma leitura fácil, mas esse é mais um dos motivos pelos quais lhe dou 5⭐. É um desafio ler este livro de tempos antigos, complexo e sem capítulos, mas ainda bem que o fiz. Quando sair o próximo livro de João Reis cá estarei para o ler!
Profile Image for Célia Loureiro.
Author 32 books996 followers
December 15, 2020
A vida de Gil Vicente é, acima de tudo, uma incógnita. Trata-se daquelas biografias ou x, ou y, e o autor valeu-se dessa escassez de factos sobre a vida do dramaturgo para ficcionar. Dizia eu, ainda antes de ler este livro, que João Reis é o melhor escritor contemporâneo português no momento (dos que li, como é evidente). Digo-o porque me parece que vai vencer o teste do tempo, os seus livros terão sempre significância, ou pelo menos alguns deles sim.

Nesta pequena (grande) obra de 200 páginas, o leitor é puxado para dentro de um rodopio de acontecimentos, e no fim é cuspido para fora - esta opção pelo fluxo de consciência oferece sempre uma experiência de submersão. Não é facil entrar no ritmo, parece que aterramos na cabeça de alguém, e esse alguém assume que sabemos uma série de coisas que desconhecemos, e a história vai escorrendo, e aquela voz torna-se mais e mais familiar, e de repente entendemos tudo o que diz e como o diz, e é como compreender outra língua.

A Lisboa do século XVI era um sítio insalubre, prenhe de vigaristas, oportunistas, beatos e peneiras. As crianças e cães vagueavam pelas ruas em bandos, igualmente indisciplinados. O rio estava povoado de embarcações que chegavam dos sítios mais exóticos, os Painéis de São Vicente ornamentavam a capela-mor da Sé e a Inquisição estava prestes a chegar para silenciar os atrevidos. A excelência do romance dá-lhe cor, som, cheiro e sabores. Já JRS diz que o objetivo neste seu último livro era que o leitor percepcionasse Auschwitz com os sentidos... Não sei se aqui o autor pretendia que Lisboa ganhasse vida, mas conseguiu-o como só nos bons livros se consegue. Adorei descobrir expressões da época, ou encontrar a Língua Portuguesa mais próxima do ramo a partir do qual se distinguiu da castelhana - perro ainda era um cão, e a profissão de perreiro era espantar os vadios das igrejas. Não é fascinante?

O narrador é Anrique de Viena - e ele há-de explicar-vos porque é assim apelidado -, um mentiroso, aventureiro, pinga-amor, violento, mas acima de tudo dedicado servo de Gil Vicente. O que me tocou acima de tudo, na narrativa, além dessa imersão na Lisboa antiga, foi a noção de como este país já seria um pouco como é agora. Ou seja, o génio de Gil Vicente é menosprezado, embora o próprio, segundo o retrato, pareça ter vistas curtas e sonhos de grandeza. Tal como Camões, outro português viu parte do seu trabalho perdido, e acabou a vida como um renegado, na miséria e no oblívio, enterrado em parte incerta. Gil Vicente era também joalheiro, terá, entre outras peças, talhado a famosa Custódia de Belém - que, no século XIX, o rei D. Fernando II por acaso resgatou a um antiquário. Essa peça-mor da joalharia nacional está exposta no MNAA e é o que de mais palpável nos chegou das mãos do mestre.

Narrado com humor, sensibilidade e um ritmo muito próprio do estilo do autor, Quando Servi Gil Vicente é, acima de tudo, um livro sobre relações humanas, sobre as dificuldades de extrair génio - arte - a homens em situações desfavoráveis, e retrata muito bem os vícios de ser-se português (a fanfarronice, a preguiça, a soberba, a gula, a negação, a implicância por desporto)...

Vale muito a pena.
Profile Image for Silvéria.
525 reviews256 followers
November 2, 2019
Antes mesmo de ler este “Quando servi Gil Vicente” (já passei pelas obras anteriores do João Reis), já dele esperava algumas coisas: uma escrita bastante competente, alguma jocosidade e zero “palha” (li algures que a concisão é uma arte em desuso, fico feliz quando encontro exceções).

Não me enganei e de bónus ainda me cruzei com um narrador peculiar e de linguagem bem doseada, não ficando a dever nada à época retratada. Não é uma leitura fácil o tempo todo, nem sequer de apreensão imediata – não só pelo uso de algum vocabulário inerente ao contexto, mas também pela ausência da habitual divisão em capítulos e pelo recurso a parágrafos longos –, mas torna-se interessante também por isso mesmo. Estranha-se, depois entranha-se. Mas há mais!

Através do Anrique e da sua convivência com o mestre, conhecemos algumas situações inusitadas que levam, inevitavelmente, a um misto de divertimento e compaixão. Não deixa de ser curioso pensar nisto do processo criativo e do reconhecimento/notoriedade do artista no século XVI, sobretudo quando em comparação com o século XXI.

Em suma, e embora “A noiva do tradutor” continue a ser o meu preferido (meramente por razões pessoais), tenho de reconhecer que “Quando servi Gil Vicente” talvez se encontre num patamar acima.
Profile Image for Filipe Rodrigues.
28 reviews2 followers
May 3, 2020
Uma notável surpresa. Na compra, atraiu-me, ao folhear o livro, a linguagem que me despertou a atenção, raiano que sou. Com um domínio absoluto do português, o autor cria um tratado de linguagem enquanto conta uma história em que mescla os últimos dias de Gil Vicente (fictícios, penso) com as viagens pela Europa do narrador, o Anrique, que também teve como mestre um tal Niklas Vanberg. Com uma ironia que já descende do próprio Vicente, passando por Eça e Camilo, Reis cria uma obra de que não conheço paralelo contemporâneo (o mais próximo será o belo livro «Conde de Fróis», de Mário de Carvalho, sobre uma praça fictícia na guerra do Mirandum, mas Reis vai mais longe porque cria um livro sem capítulos e com saltos temporais). Muito divertido, com cenas como a do barbeiro ou da sopa, penso que se pode considerar um romance epistolar, porque é uma carta muito longa. Melhor lido e absorvido se lido quase de seguida. Estranha-se e depois entranha-se.
Muito bom.

*Leitura iniciada a 2 de maio, concluída na madrugada de 3 de maio.*
Profile Image for Paula M..
119 reviews56 followers
January 2, 2020
Anrique, Anrique Hispano ou refinando e engrandecendo , Anrique de Viena, um mandrião espirituoso e com propensão para a mentira , conta em retrospectiva, numa longa carta, as suas aventuras e desventuras a pelejar pela Europa fora, ao lado de N. Vanberg e, regressado a casa, os seus dias ao serviço de Gil Vicente.
O mestre que lhe ensinou as letras e 'outros conhecimentos' é agora um homem exausto , pouco inspirado e facilmente irritável. Sem as comodidades que a coroa outrora lhe proporcionava, vive num edifício cujas brechas facilitam constantes quezílias e esgota-se com os rumores e acusações de Lopo Enes, que se movimenta na corte. As peripécias carregadas de humor sucedem-se , ora com Anrique ao lado do mestre trovador ora junto do seu mestre de armas.

J. Reis escreveu um romance picaresco maravilhoso! Os personagens adquiriram corpo e alma e movimentam-se ao nosso redor sem cerimónias e cheios de graça. O humor fez-me rir espontaneamente a todo o instante . A linguagem coaduna-se com a época. Os ambientes surgem nítidos aos nossos olhos e há odores que chegam até ao nosso nariz. Alguma da crítica à sociedade , usos e costumes da época mantém-se atual!
Que ideia genial! Presumo que tenha dado que fazer ao ponto de lhe fazer querer arrancar os cabelos, não ?


Adorei o livro no seu todo e particularmente a visita ao barbeiro da casa torta ( lembrei-me de 'Sweeney Todd' ...) e todos os momentos à volta da panela do caldo.
A par da 'Noiva do Tradutor' esta é para mim a obra-mais-que-perfeita de JR. Volto a tirar-lhe o chapéu.

Cheguei ao fim e voltei à primeira página para uma nova leitura ...maravilhoso na mesma!
Profile Image for Rita.
70 reviews
November 5, 2019
Extraordinário!
Mais uma vez o João Reis brinda-nos com um livro inesperado e invulgar. Se há algo de que gosto quando leio os livros do João Reis é o de, ao mesmo tempo que reconheço o seu cunho, ser sempre surpreendida pela inventividade da escrita, pelo inesperado do tema, pelo modo incisivo e mordaz mas ao mesmo tempo sensível e humano com que nos devolve o mundo e, naturalmente, pelo seu inegualável humor.
Fiquei arrebatada por este Gil Vicente e pelo Anrique de Viena! E não mais beberei água depois de comer pêssegos!
Obrigada, João.
Profile Image for Manuel Alberto Vieira.
Author 69 books182 followers
December 12, 2019
Aqui se condensam (num universo mais amplo e «aberto») os predicados já evidentes nas obras prévias do João Reis — mas como que amplificados por uma maior generosidade e inteireza narrativas.
Sublinhe-se o trabalho — irrepreensível — da linguagem e este dom raro de arrancar um gajo do tempo e do espaço em que está.
Profile Image for S..
216 reviews86 followers
October 22, 2019
Mais um livro hilariante, possivelmente, de todos os do João, o mais bem disposto e jocoso, sem lhe faltar a perspicácia e a crítica social. Já Gil Vicente nos mostra que vida de artista é vida precária, lá desde os primórdios da história, na era medieval. O que lhe valeu à subsistência, foi que tinha tanta pinta de regateador no mercado, quanto de dramaturgo, pelo menos nesta narrativa. Valha-lhe Anrique para lhe dar algum juízo, tal Sancho Pança deste "Jardim da Europa à beira-mar plantado".
Profile Image for Sofia Fidalgo Vicente .
36 reviews1 follower
February 23, 2021
O primeiro livro que li de João Reis foi “A Avó e a Neve Russa”. Por ter gostado não só da história comovente, como da escrita do autor, decidi que um dia haveria de ler “Quando servi Gil Vicente”.
Esta obra em especial porque, além da admiração que me ficou dos tempos em que estudei “O Auto da Barca do Inferno”, tinha curiosidade em saber como João Reis abordaria uma personalidade mítica como Gil Vicente.
Mais curiosa ainda estava pelo facto de Gil Vicente ter uma biografia marcada por tantas incertezas ou factos que carecem de confirmação.
“-Sobre esse Gil Vicente nada sei, mas na minha aldeia há um Gil que dizem ter roubado dinheiro da igreja, e o primo dele o haver ajudado. E diz-se que a mulher o enganou.”
Não se assustem ao início, como eu, pela ausência de capítulos uma vez que, além de fazer sentido e de conferir mais ritmo à própria leitura, não se lhes dá pela falta.
João Reis humaniza Gil Vicente, revelando-o com as suas fraquezas e oscilações de humor, através da narrativa do seu protegido e aprendiz, Anrique de Viena. Fá-lo utilizando uma linguagem e expressões próprias daquela época, com o cuidado de nos contextualizar no Portugal daqueles tempos.
Muitas vezes senti que estava a assistir a uma peça de teatro, sendo que para mim esse foi o aspeto mais rico deste livro, que lhe confere toda a sua unicidade e originalidade.
Todo o estilo deste livro é muito próprio e bastante diferente da outra obra que li do autor, o que revela a versatilidade de João Reis, dando-me ainda mais vontade de continuar a explorar outros livros seus e descobrir novos mundos.
Concordo com o Jornal das Letras: “No intrincadíssimo horizonte da atual literatura portuguesa, João Reis oferece uma marca de singularidade muito original” e acrescento que contribui para o enriquecimento a nossa literatura portuguesa.
Profile Image for Andreia M..
73 reviews6 followers
June 20, 2021
João Reis é sem dúvida um escritor multifacetado de muito talento.
É o terceiro livro que leio deste autor e todos são completamente diferentes uns dos outros, embora encontre em todos uma singularidade muito própria que o caracteriza.

A linguagem utilizada neste livro confere mão só uma melodia muita própria como nos transmite a atmosfera perfeita para nos embrenharmos no século XVI.

Muito engenhoso, mais uma vez, sem adiantar nada e a abordar tudo.
Profile Image for Ana.
9 reviews
September 11, 2026
Sem comentários. Leitura prazerosa que nos mergulha no jargão e universo vicentino, esquecendo-nos nós deste tumultoso século XXI em que vivemos, transportando-nos naturalmente para medievos tempos...
Profile Image for Joaquim Margarido.
299 reviews41 followers
December 24, 2019
Anrique de Viena, Anrique Hispano, Anrique dos Cascos ou, simplesmente, Anrique. É esta a personagem cujas palavras e acções preenchem “Quando Servi Gil Vicente”, o mais recente romance de João Reis, dando conta das aventuras e desventuras deste “aprendiz e valido” de Gil Vicente, regressado ao convívio do mestre após longa ausência de uma década a pelejar por essa Europa fora. Sob a forma de uma longa carta, Anrique estende-nos a mão e convida-nos a acompanhar os derradeiros dias do dramaturgo e poeta, a dimensão humana posta em evidência sobre o seu génio criador, ao mesmo tempo mergulhando o leitor nessa cidade violenta, de ares insalubres e gentes boçais que é a Lisboa do segundo quartel do século XVI.

Na escrita refinada de João Reis, como na recriação dos ambientes de quinhentos, são muitos e bons os motivos que recomendam a leitura de “Quando Servi Gil Vicente”. O autor mostra-se exímio na reconstituição de uma sociedade fechada, medieval, imune aos ventos humanistas que sopravam da Europa, curvada à forte influência do dogmatismo religioso e do misticismo sobre a cultura e a sociedade. Uma sociedade feita de gente de fraco “cabedal de entendimento”, voltada sobre si mesma, de expediente fácil, sobrevivente, mesquinha, menosprezando os valores que norteiam o conhecimento e desconsiderando e caluniando os seus melhores. Fá-lo à custa de uma escrita visualmente muito rica, assente numa linguagem que recupera algumas preciosas pérolas do nosso vocabulário - da ventana às pantalonas, dos mirabólanos ao aguazil – e na deliciosa apropriação de um estilo narrativo carregado de ambiguidades, suposições e redundâncias, ao mesmo tempo elegante e profundamente poético, remetendo claramente para a obra de Gil Vicente.

Em toda a sua dimensão, “Quando Servi Gil Vicente” não pode deixar de ser visto como uma sentida homenagem àquele que é tido como o pai do teatro português. João Reis revela um particular cuidado no tratamento dado ao material biográfico reunido, devolvendo-nos um Gil Vicente despeitado com a magra pensão que recebe da coroa, em conflito com aqueles que na corte o querem denegrir, atormentado por um passado que não se escreve apenas de glórias, continuando a fazer da palavra a sua mais preciosa arma mas mostrando-se completamente exausto, o tempo e as ideias escassos face às encomendas que continua a receber e a aceitar. É disto que o mui fiel Anrique se faz arauto, oferecendo-nos o seu peculiar ponto de vista através de uma prosa picaresca, engenhosa, criativa e recheada de momentos insólitos e muito divertidos. Narrado em contínuo, quase de um fôlego, este é um livro que se lê na mesma medida, revelando em João Reis um criador com uma imaginação delirante, um sólido domínio da escrita e um sentido de humor ímpar. Gil Vicente não desdenharia ter um servo assim.
Profile Image for Rui.
153 reviews
October 7, 2020
Em plena quarentena, recebo uma encomenda: este livro excelente, escrito por um autor extremamente talentoso.

Foi delicioso ler as aventuras vividas por Anrique e Gil Vicente - quantas vezes me ri no autocarro/metro, atraindo os olhares dos restantes passageiros...

Mas o sentido de humor do autor é, de facto, notável, e estou muito entusiasmado por ler mais obras do mesmo.
Profile Image for Mª João Monteiro.
1,031 reviews82 followers
January 29, 2020
Este livro alia uma escrita magistral, inspirada no português medieval e no tom de um cronista (que poderia ser Fernão Lopes, mas também poderia ser Saramago - e o que me lembrei dele!!) que vai narrando o quotidiano do seu amo Gil Vicente, a uma série de assuntos que, por serem quotidianos, têm algum interesse ou não têm nenhum. A par da ironia deste narrador, Anrique Hispano ou de Viena, consoante o local onde se encontra, encontramos um Mestre Gil envelhecido e caído em desgraça na corte, após a morte da "rainha velha" e algo desprovido de bens, a par com alguma caloteirice... Não era o Mestre que eu queria conhecer, pois nada escreve, mas procura inspiração e essa creio que seria útil, pois reconheci assuntos e personagens tipo que ele apresentaria. O que me afastou um pouco da história foi exatamente o contar pouco, o ser apenas uns quantos dias na vida de um Gil Vicente envelhecido e algo caduco, sem nenhum acontecimento mais colorido (mas talvez menis verosímil). A escrita, apesar de não ser de fácil adesão ao início, é magistral.
Profile Image for Bruno Carriço.
201 reviews17 followers
January 6, 2020
Que bela ventura esta, na companhia de Anrique, umas vezes de Viena, outras quantas Hispano, as mais das vezes apenas Anrique. Personagem marcadíssima deste passeio por tempos idos, séria e cómica homenagem, mais do que a um autor, a uma época. E se as letras nos levam a datas outras que não as que vivemos, mérito a quem as escreve. Não sei se João Reis algum dia aspirou a Gil Vicente, mas naquilo que labuta é convincente. Sirva-se de mais meia estrela, por obséquio.
Profile Image for Moisés.
271 reviews25 followers
December 27, 2021
Quixo o azar que lese este libro ao tempo que unha antoloxía de Cristina Peri Rossi cun breve poema que parece falar de "Quando servi Gil Vicente": "El poeta no escribe sobre las cosas / sino sobre el nombre de las cosas". Ese me pareceu o fío da novela: conseguir un nome, conservar un nome, exprimir a literalidade do que se nomea. Pareceume que esa obsesión daba forma aos personaxes, guiaba a trama e estaba detrás das motivacións do narrador, dos diálogos delirantes e as escenas máis confusas e divertidas.
Para min foi unha lectura desafiante, porque os seus maiores logros son tamén atrancos para un lector ao norte do Miño sen formación académica no portugués de Lisboa: a estrutura sen capítulos e con longuísimos parágrafos, a linguaxe premeditadamente arcaica, non sei se fiel ou parodia dos modos do século XVI, o vocabulario riquísimo. Tiven que volver atrás en varias ocasións e ben seguro que me perdín matices polo camiño, pero desfrutei moito desde libro escrito á contra de calquera tendencia.
Profile Image for Joana Filipe.
54 reviews
February 21, 2025
“(…) se a um galgo cai no chão naco de pão embebido em gorduras faz-se ele pouco rogado se conde lhe chamarem, de focinho ensebado fuçando e resfolegando sem dar conta de gritos ou chamamentos, assim também homem de nome sonante cai por terra de igual ou mais rápido modo que sujeito de nome único e sem patronímico, (…).”

—

“(…) não sabia se no mundo espiritual podia repelir as pessoas as não desejando ver nem ouvir, de resto, não sabia se essas ditas pessoas seriam capazes de falar e ele de as ouvir ou ver, isso inquietava-o, poderia ser capaz de as ouvir e não de as ver, ou de as ver e não de ouvir, mas o pior lhe passando pela ideia seria ouvi-las e vê-las a todas sem conseguir fugir.”

—

“- Anrique, toda a adoração é inútil. Este mundo é uma reles aparência enganosa, e nós tentados pelo mal a cada passo, morrem as pessoas e deixam para trás sua cupidez estúpida.”

—

“- Estes brutos entendem apenas o que veem diante das fuças, e de preferência bem desenhado, com cores e imóvel de parado para o mais apreenderem.”

—

“(…) em quadro qualquer pascácio passava por duque, em quadro o artista pintando um camponês com faces pálidas e jaqueta de veludo o transformava em senhor poderoso, quem longos anos depois o visse o julgaria um proprietário de terras vastas e sendo ele o camponês que as cultivava, (…).”

—

“(…) a maior parte dos problemas os resolvemos com pinças, tenazes, martelos, adagas ou espadas, me dizia ele as muitas vezes, em dadas ocasiões eram necessários canhões, porém, eram amiudadamente desnecessárias as rezas e benzeduras, (…).”

—

“- Um filho não tem culpa dos seus pais, mestre. Um pai indigno pode gerar filho proveitoso (…).”

—

“(…) não havendo natureza em volta estão eles sozinhos e quem está demasiado sozinho com humanos se entristece de mágoa prolongada, pois é impossível ser feliz vivendo demasiado sozinho consigo mesmo, as pessoas se odeiam não havendo ligação que as prenda à terra, e olhando umas para as outras em seus tugúrios fechadas em barracos se matam e estropiam, (…).”

—

“(…) falar com os outros é como atirar pedras a um lago, as pedras caem entrando fundas na água somente alguma ondulação causando, falar a tais pessoas era como atirar pedras a poços (…).”
Profile Image for Ana.
53 reviews
August 11, 2026
João Reis tem uma escrita e um humor singulares que se destacam especialmente neste livro. Pessoalmente, não estava no melhor estado de espírito para ler, passando por uma fase com alguma dificuldade em focar na leitura, o que considero bastante injusto para a qualidade deste livro. Por vezes, o ritmo acelerado e sem pausas ajudou-me a mergulhar na história, mas, em outras, tive dificuldade em seguir o ritmo. Sinto que preciso reler com a mente mais calma e, aí sim, irei apreciá-lo como merece.
Profile Image for Débora Sofia.
236 reviews20 followers
February 5, 2023
Participação no projecto #Lusiteratura mês de Janeiro: livel escrito por um homem.
Profile Image for Ana Sofia Filipe.
299 reviews4 followers
August 16, 2023
Um dos típicos casos em que queria muito gostar, mas não consegui terminar o livro. Deixei-o de lado a 1/3.

Li “A avó e a neve russa” do mesmo autor e foi uma boa experiência de leitura. Talvez agora as expectativas fossem demasiado altas.

- Foi-me muito difícil entrar na cabeça do narrador, num fluxo acelerado de narração de eventos que presumia que o leitor já soubesse;
- um linguagem mais arcaica, num português do século XVI;
- um texto com poucos diálogos e muitas dissertações circulares sobre alguns eventos ou peculiaridades, que me dispersou por completo. Rapidamente perdia a atenção à leitura.

Provavelmente problema meu. Ainda darei mais uma oportunidade com “Cadernos da Água”.
Profile Image for Paulo Teixeira.
1,028 reviews14 followers
December 4, 2020
(PT) Gil Vicente, já idoso, algures no século XVI, tem dificuldade em escrever os seus autos, e é ajudado por um criado, Anrique de Viena. E entre peripécias, ele lá leva a sua água ao moinho, qual fiel criado do seu amo.

"Quando Servi Gil Vicente" parte de uma boa ideia: a velhice de Gil Vicente, um dos autores mais conhecidos do século XVI. Escrito como se fosse na época, esbarra num grande obstáculo: o estilo de escrita escolhido para nos presentear aos leitores. E para quem deixou de ler Gil Vicente nas aulas do nono ano, não é fácil entender as falas de Anrique de Viena, especialmente as circunstâncias que ele descreve quer as suas aventuras como mercenário, quer agora, que serve o deu mestre envelhecido.

Dito isto, também a falta de pausas - tudo tem de ser lido de uma só vez, e nem todos têm esse fôlego - faz deste livro complicado de ler e do qual nem todos consigam fazer isto até ao fim. E apenas tem pouco mais de 200 páginas! De resto, todois estes defeitos encobrem o facto de João Reis ser provavelmente um dos novos escritores da literatura portuguesa, e com potencial para ser muito bom.
Profile Image for Aida .
110 reviews
February 20, 2021
Quando acabamos de ler certos livros, queremos colocá-los nas mãos de outro leitor e pedir-lhe que leia. Quando Servi Gil Vicente é um desses livros.

Como o próprio título deixa antever, o livro é narrado na primeira pessoa por Anrique, fiel servidor de Gil Vicente. O Gil Vicente que encontramos nestas páginas não é o dramaturgo no seu auge, mas na sua velhice, tentando roubar à decrepitude e à morte mais um auto e vivendo ensombrado pela perda de prestígio junto do poder político. A escolha de retratar esta fase da vida de Gil Vicente é tanto mais interessante se pensarmos que a altura da sua morte coincide com um período de transição em Portugal em que D. João III introduz a Inquisição no país e em que até a própria língua evolui e se altera, com a passagem para o português clássico.

Ao iniciar a leitura, e antes mesmo de Gil Vicente ser nomeado, a sua presença faz-se sentir pela linguagem e também pelo tipo de crítica social sobre a qual Anrique discursa e de que facilmente encontramos exemplos na obra do dramaturgo. Este é um dos pontos fortes deste livro: Gil Vicente não é apenas um nome na página, a sua presença faz-se sentir porque para a narrativa são trazidos o seu tempo, a sua língua, os temas e características da sua obra. A cada passo, encontramos o recurso aos tipos cómico (de personagem, de situação, de linguagem) presentes no seus autos, por exemplo.

O autor consegue transportar-nos para a Lisboa quinhentista e, apesar de haver certamente muita pesquisa envolvida na escrita deste livro, os resultados dessa pesquisa são criteriosamente usados. Não há aqui informação desnecessária e cada referência a acontecimentos históricos, personalidades ou até o recurso a características de géneros literários em voga na época é naturalmente inserida na história. Também a linguagem é muito bem trabalhada. O autor não se limita a usar léxico específico da época, mas faz uso também da sintaxe e, ao tomar a língua como um todo, consegue que o leitor se sinta imerso num tempo que não é o seu, sem que nada pareça falso ou forçado.
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