“Crise de alma e crise de instituições; um abalo profundo que atormenta as consciências e desorganiza a convivência humana, em todos os seus graus — familial, nacional, internacional — eis o espetáculo doloroso que nos oferece a civilização moderna. Só uma ruptura de equilíbrio nas exigências essenciais da nossa natureza pode explicar agitação tão funda. Dir-se-ia que a personalidade e a sociabilidade foram atingidas nas fontes vivas da sua existência e progresso”. Neste livro, o Pe. Leonel Franca convida o leitor a examinar, sob diversos aspectos, a gênese e o desenvolvimento das “forças espirituais” que, ora se entrechocando, ora convergindo, fazem trabalhar o “dinamismo profundo da nossa civilização”. A crise do mundo moderno é, antes de mais nada, um conjunto de notas introdutórias à filosofia da cultura, passando ao largo da pretensão de esgotar esse assunto praticamente inesgotável. Capa 276 páginas Ecclesiae (29 de abril de 2019) Português 8584911251 978-8584911257 Dimensões do 22,8 x 16 x 2 cm Peso de 699 g
O Pe. Leonel Edgard da Silveira Franca, S.J., nasceu em São Gabriel, no Rio Grande do Sul. Fez os primeiros estudos no Colégio Anchieta, em Nova Friburgo no Rio de Janeiro, onde viria mais tarde a lecionar. Ingressou na Companhia de Jesus em 1908, e em 1910 iniciou o curso de letras próprio da formação dos jesuítas. Foi para Roma em 1912 para cursar o triênio de filosofia na Universidade Gregoriana, e voltou para o Rio em 1915 para exercer o magistério no Colégio Santo Inácio. Como um prolongamento de suas aulas desta época, publicou seu primeiro e famoso livro Noções de história da filosofia. Tornou a Roma em 1920 para cursar os quatro anos de teologia, sendo ordenado sacerdote em 1923, mesmo ano em que publicou A Igreja, a Reforma e a Civilização. Em 1924 doutorou-se em filosofia e teologia, e no ano seguinte completou a formação jesuítica em Oya, na Espanha. Estabeleceu-se definitivamente no Rio de Janeiro em 1927, onde publicou vários de seus livros, como A crise do mundo moderno e A psicologia da fé. Em 1931 foi um dos fundadores do Conselho Nacional de Educação. Em 1939 foi encarregado de criar a primeira universidade católica do Brasil, a PUC-Rio, da qual foi o Reitor até sua morte.
"A Crise do Mundo Moderno" foi o meu primeiro contato com a obra do Pe. Leonel Franca e cheguei até o livro através de uma das notas de rodapé de "O Jardim das Aflições" de Olavo de Carvalho. Inicialmente tratei como uma leitura complementar, mas me surpreendi muito positivamente com o nível de qualidade com o que Pe. Leonel Franca estrutura e apresenta a crise civilizacional moderna.
O livro é um grande ensaio sobre a civilização ocidental, sua crise e suas possibilidades de reordenação e é estruturado em três grandes partes:
(i) uma reflexão sociológica e moral sobre o conceito de civilização, estruturada nos moldes da clareza conceitual tomista, dando a clareza necessária ao objeto de estudo e definindo seu contorno através da confluência de elementos distintos - a natureza e o espírito humano, ou seja, nem puramente materialista, nem exclusivamente idealista;
(ii) um estudo sobre as raíses históricas e filosóficas que assinalam o início da ruptura da continuidade da tradição para com o pensamento moderno. O diagnóstico do Pe. Leonel Franca é muito preciso e é corroborado por outros estudiosos, como Olavo de Carvalho, Roger Scruton e Christopher Dawson, cada qual os nunces próprios de identificações das conexões históricas do caminho das ideias filosóficas. Em resumo, Pe. Leonel Franca identifica duas rupturas originais graves: em Lutero e em Descartes, que por fim levarão ao idealismo de Kant e de Hegel, bem como suas mutações mais recentes nas ideologias revolucionárias;
(iii) o último tomo do livro é uma contraposição do caminho de ruptura através de uma análise de como o Cristianismo é suficiente, e necessário, para restaurar a ordem e conciliar elementos que hoje encontram-se desencontrados e segmentados dentro da concepção moderna de realidade, como humanismo, filosofia, ciência natural e dinâmica social (especialmente envolvendo o tema "trabalho", que no período era fortemente sequestrado pelos marxistas).
Essa obra do Pe. Leonel Franca é um estudo ao mesmo tempo amplo e resumido do grande drama civilizacional que assola o Ocidente deste o século XV, dando os contornos gerais do problema e aprofundando pontualmente em alguns personagens históricos e suas constribuições para a crise. Além disso, o livro é muito bem estruturado, o que demonstra o nível de clareza que o tomismo é capaz de oferecer aos bons estudiosos, e também é um ótimo ponto de entrada para o conjunto de obras do Pe. Leonel Franca.