Sabe quando você termina um livro e se pergunta, é sério que árvores tiveram de morrer para que isso fosse impresso? Foi com esse sentimento que terminei Corpos Secos: Um Romance de Luisa Geisler, Marcelo Ferroni, Natalia Borges Polesso e Samir Machado de Machado. Uma das experiências mais frustrantes para um leitor é se deparar com uma boa premissa e notar ao ler que a execução deixou a desejar.
Aquela sensação da narrativa ir te perdendo aos poucos, ao ponto de cada vez que se chega mais perto do final se pensar, ok tem um monte de pontas soltas, vai ficar por isso mesmo? Geralmente ao fazer apontamentos evito entregar trechos do que li, mas para poder ser justo em minha crítica a Corpos Secos preciso entregar partes do enredo, então se não leu e pretende ler, sugiro que pare por aqui.
Acho que primeiramente precisamos tirar o elefante da sala. Relevar o fato de que os autores pareciam julgar que em 2020 ninguém conhecia The Last Of Us, um dos jogos mais aclamados e com uma legião de fãs. Ingenuidade? Vou dar o benefício da dúvida. Hoje após o advento da série a possibilidade de alguém não notar a “homenagem” é quase nula. Detalhe eu não joguei o jogo nem vi a série, mas sério é impossível não notar. Mas ok, podemos aceitar usarem a mesma premissa: uma infecção por fungos transformando pessoas em zumbis e claro, um misterioso não infectado. Essa ideia do não infectado é quase que uma necessidade do gênero, tudo bem.
Daí temos o ponto que a obra simplesmente não se propõe a explicar e sim um capítulo minimamente contextualizando o porquê da epidemia seria o mínimo. Nada, se comenta de agrotóxicos (porque precisamos ser ecológicos), daí parte para lagartas e de algum modo não explicado chegamos a humanos zumbis “fazendinhas” de fungos sencientes. Um biólogo lendo esse livro acho que teria um colapso de tanto absurdo. “Ainn mas tem a suspensão da descrença”, sim de fato, quando o texto minimamente estabelece regras para que o leitor possa se apoiar, não o autor (autores) sair atirando para tudo quanto é lado e o quê colou, colou.
Talvez o maior problema em Corpos Secos inclusive, seja a escrita a oito mãos, considerando que temos quatro núcleos é justo pensar que cada autor se encarregou de um, A pergunta é, eles não se comunicaram? Ninguém considerou que em dado ponto as narrativas precisariam convergir? Esse é só mais um dos problemas, porquê mesmo as narrativas individuais são problemáticas.
Comecemos pela narrativa do ponto de vista do Mateus, um personagem com o carisma de uma porta. Sabemos de início que ele é o paciente imune. A cena inicial o óbvio paralelo utilizado é promissor, torna uma cena que parece despropositada em algo com camadas. O problema é que daí para frente é só ladeira abaixo. O relacionamento homoafetivo é descrito da maneira mais porca possível. Do nada estamos num Brasil onde todo mundo sabe que um policial teve um marido e agora tem um “namorado” e temos zero comentários homofóbicos. Jura? Verossimilhança mandou beijos, para não dizer a oportunidade de crítica social desperdiçada.
Daí temos o arco do Murilo, um arco um pouco melhor, mas novamente, se o leitor tiver um mínimo de repertório já era. Vamos combinar que falar do Apocalipse pelo ponto de vista de uma criança não é exatamente original, Cormac McCarthy corre aqui. Ainda assim é um arco que consegue prender o leitor, pelo menos até cair no melodramático e no exagero. Sem contar a incoerência: O moleque passa pelo inferno e zero traumas??? Ahh e antes que eu me esqueça, “Baleia”???? Vocês tão me zuando.. Quando me toquei quase sofro um acidente do tanto que revirei os olhos.
Próximo arco, Regina. Sério, eu realmente queria saber o que passava pela cabeça de quem o escreveu. O livro todo tem esse problema, aliás um dos problemas atualmente na literatura. Essa ânsia por “militar” a todo tempo, esquecendo de trabalhar o que se escreve. Nesse arco, o preconceito de classe tomou a mão de quem escreveu, que parece não ter se dado conta de que quis ser tão pró feminismo, quis tanto denunciar a violência contra a mulher e caiu num racismo rasteiro. Alguém vai objetar, “ahh, mas seria natural uma mulher branca ter empregados negros”. Sim, seria e até aí ok. Agora quando o arco está o tempo todo reforçando o quanto a mulher branca se mantém humana e sensata enquanto as meninas negras viraram “bichos” fica meio difícil de defender.
Constância, esse e o arco anterior parecem competir qual vai conseguir gabaritar o bingo da pseudo militância e do preconceito. Preconceito que escorre pelas mãos de quem escreve tentando ser progressista e descolado, Um casal de gêmeos, ambos LGBTs. Te parece moderno o suficiente? Não, como já comentei um dos problemas que atravessa o livro é o exagero. Não basta o personagem ser gay, ele também precisa “se montar” e ter sua drag (tudo muito “muderno”) O fato do personagem ser um fraco, mimado e afetado é só um detalhe. E tome incoerência, ao mesmo tempo que o livro parece ter um discurso pró ecológico, o veganismo do personagem é ridicularizado. Nesse arco ainda teremos uma inversão, nada de um personagem negro sábio ou mesmo indígena conhecedor das ervas. Não a “bruxona” é a mãe branca e “natureba” dos gêmeos.
Não bastassem esses pontos, temos ainda referências políticas desnecessárias jogadas de qualquer jeito, uma homenagem a um escritor, que é uma das coisas mais vergonha alheia que eu já li. Mas o que provavelmente mais me irritou, foi o arco desperdiçado do “Pastor dos Mortos”. Um personagem pretensamente relevante, que possuí uma ligação com um dos protagonistas e no entanto, nenhuma explicação, nada sobre suas motivações. O final em aberto não teria sido um problema, agora a quantidade de pontas soltas deixadas, mostra um trabalho de revisão porco e um desrespeito com o leitor.
Corpos Secos: Um Romance de Luisa Geisler, Marcelo Ferroni, Natalia Borges Polesso e Samir Machado de Machado é um romance que quer ser tão desesperadamente, relevante, militante e descolado que se perde numa infinidade de clichês, pontas soltas, preconceitos e referências mal aproveitadas e distorcidas. O fato de ter sido premiado só mostra o quanto uma boa propaganda pode elevar um livro medíocre. Sem sombra de dúvidas a pior leitura de 2025.