Em seu novo romance, Santiago Nazarian mescla histórias do genocídio armênio a uma narrativa situada no Brasil contemporâneo para abordar com uma coragem incomum problemas de classe, etnia, gênero e orientação sexual.
Estamos numa época de minorias perseguidas, de nativos expulsos de suas próprias terras, da religião majoritária se impondo sobre um povo. Estamos no Brasil de 2017, às vésperas de uma eleição reveladora; e estamos em 1915, em plena Primeira Guerra Mundial. Quem une essas duas épocas é Cláudio, um jovem cuidador de idosos que vai trabalhar para Domingos, um senhor armênio, no bairro dos Jardins, em São Paulo. Como homossexual e neto de indígenas, Cláudio sabe bem o que é ser minoria, e na convivência com Domingos conhece uma história que remonta a mais de um século: o genocídio armênio perpetrado pelos turcos. A partir da leitura de um livro de memórias, Cláudio começa a suspeitar de que possa estar diante de um dos últimos sobreviventes de um dos maiores massacres do século XX, e sua responsabilidade como cuidador é mantê-lo vivo. Com Fé no Inferno, Nazarian se firma como um exímio contador de histórias, mestre indiscutível do ritmo e da condução. Com duas linhas narrativas que se cruzam e se entrelaçam, e mesclando pesquisa histórica, folclore armênio e uma observação mordaz do Brasil contemporâneo, este romance mantém o leitor emocionado e absolutamente envolvido até seu desfecho surpreendente.
Não há terror maior que a história de um genocídio. Por isso, não é de se estranhar que a transição de Santiago Nazarian para o realismo esboçado em "Fé no Inferno", seu mais recente romance, se dê ainda com uma boa dose do terror que lhe rendeu títulos como os últimos "Biofobia" (2014) e "Neve Negra" (2017).
Intercalando capítulos realistas com outros mais alegóricos (que em seus melhores momentos me lembraram um improvável encontro entre a literatura Safran Foer e o cinema Lars von Trier), Nazarian dá um salto ambicioso em sua prosa e se propõe a narrar o genocídio armênio, historicamente anterior ao judeu e menos privilegiado que este na memória coletiva do século 20.
Brasileiro descendente de armênios, Nazarian constrói um paralelo interessante entre dois genocídios - o armênio e o americano - ao escolher um jovem brasileiro com ascendência indígena como narrador de seu livro. Cláudio é um empenhado cuidador de idosos contratado para fazer companhia a Domingos, um senhor armênio de idade indefinida que vive nos Jardins, na zona nobre de São Paulo. Suposto sobrevivente do genocídio armênio, seu Domingos vive sua velhice numa biblioteca cheia de livros, escritos todos com versões de uma mesma história: o massacre perpetrado pelos turcos ao seu povo, no contexto da Primeira Guerra Mundial.
Para além da questão étnica, Cláudio carrega um outro estigma que aproxima seu drama do de Domingos: a homossexualidade. Do seio de uma família evangélica, Cláudio foi abusado na infância e teve passagens por instituições penais antes de se dedicar à sua profissão, que veio justamente em consequência dos imbróglios judiciais pelos seus atos. Vivendo com seu namorado artista numa quitinete no Baixo Augusta, contemplando a ascensão do bolsonarismo num Brasil que flerta descaradamente com o fascismo de outros tempos, Cláudio não é apenas o sobrevivente de um genocídio do passado: mas de um genocídio em curso, de indivíduos iguais a ele.
Um laço de empatia vai se firmando entre Cláudio e Domingos à medida que o cuidador passa as noites no apartamento da família, lendo um dos livros que retirou da estante do velho quando seu game portátil já não era distração suficiente para as horas mortas em que atuava como "extintor de incêndio de um carro estacionado" - o idoso, que exibe uma saúde sobrenatural, como que renovada por uma lata de amêndoas que guarda e vampirizada pela sobrinha-neta, de olho em sua herança.
Talvez a resposta para a juventude eterna de Domingos esteja nas parábolas daquele livro, que quando Cláudio abre nos coloca numa posição isomórfica à dele: como o sultão que se torna escravo das histórias de Xerazade em "As Mil e uma Noites", nós - leitores de "Fé no Inferno- nos vemos também escravizados àquele livro, só acessado pela leitura de Cláudio. À parte não conseguirem manter a mesma potência que têm no início, derivando cada vez mais para a alegoria, fugindo um pouco da crueza visceral das primeiras páginas, são as narrativas daquele livro, supostamente escrito por Domingos, o motor do romance: o que nos mantém rondando a armadilha, até o ponto que somos devidamente capturados e já é impossível não terminar o livro (bem mais longo que os anteriores de Nazarian: com quase 400 páginas).
Próximo ao final, a "ficção" de Domingos vai se tornando menos interessantes que a "ficção" que temos nas mãos, de Cláudio (cujo passado, felizmente, vem em nosso socorro, como um novo abismo dentro do abismo). Mas aí a lâmina do sultão já descansou e está nas mãos da Xerazade: Nazarian, que nos brinda com seu epílogo que dá uma dimensão quase bíblica a toda esta história.
Desde sempre essa é a crença que se associa ao simples fato de estarmos vivos porque não se pode viver sem temer o inferno seja ele real ou imaginário e, pior, quando somos forçados a viver o inferno não por alguma condenação divina, santa ou casual mas, pelo simples fato terreno de não nos encaixarmos em algum tipo de normatividade social, sexual, racial ou qualquer outra que o ser humana parece ter um prazer inesgotável em inventar.
Neste livro cheio de fé, duas histórias cheias de infernos se cruzam numa esquina temporal, um vórtice unificando um sobrevivente do Genocídio Armênio idoso e um sobrevivente do genocídio diário que os não normativos enfrentam no dias do governo messiânico brasileiro.
Cláudio e Domingos são quase reflexo um do outro, o primeiro descobre a vida perseguida através dos olhos livros do segundo e este, por sua vez, encontra alguém capaz de lhe findar a narrativa porque, como ele mesmo diz, a história de um homem só termina quando acaba de ser contada e sobreviventes não podem terminar suas histórias sem ter passado ela adiante ou incorreremos no risco de repetir as tragédias que lhes fizerem sobreviventes e não viventes.
Entre uma realidade incerta enfrentada por Cláudio e a história fantástica e horrenda contada por Domingos, um tapete de memórias se constrói e se desfia, como se ao ler a história do velho Domingos o jovem Cláudio fosse tecendo sua realidade com nuances do velho. Talvez numa simbiose, numa simbologia única, a vida que se esvai é usada para construir a nova, dar-lhe senso de propósito, sentido, norte e direção.
Domingos e sua biblioteca de volumes repetidos é a memória que precisa viver, que busca alguém para se perpetuar, pergunta de suas estantes se tudo aquilo foi em vão e se nada pode ser aproveitado, aprendido, reutilizado, a felicidade ensina a esquecer e as tragédias a lembrar. Domingos vai sumindo conforme Cláudio sai das sombras, a caverna, o mito, os velhos são úteis quando descobrimos que sua inutilidade é fachada, feita por nós para esquecer que vida é minuto, conto, breve feito um espirro.
Domingos precisava de um herdeiro para seu legado, para sua história, para sua existência, alguém que ratificasse todo o horror que passou, que o visse como real e não fantasias senis. Um herdeiro para seu inferno, o inferno precisa de herdeiros, o inferno precisa de crianças e de filhos para não ser esquecido. O inferno precisa de fé fresca para seguir existindo.