Volvidos seis anos da separação, Diogo e Manuela refletem, em voz alternada, sobre os acontecimentos que levaram a esse desfecho. Ao ritmo a que a mágoa lhes permite recordar, vão revelando os contornos do seu trauma indizível num discurso intimista e confessional. É-lhes vital esquecer, superar. Mas será que ainda há vida depois de uma perda desta dimensão?
«Um breve encontro de mãos. O corpo a ser-me cingido num abraço e depois largado. Os olhos envenenados de sonhos e o teu pai à distância, a repelir-me, a fugir-me por entre os dedos. Água a escapar-se-me da palma da mão. A boca dele era o Pacífico no seu ponto mais profundo, onde a Terra é um abismo de escuridão e de pressão indomável. Eu desejava-o, irracional e imoralmente, inconsciente do que era a ânsia física e do muito que me entorpecia cada movimento. Era jovem e crente. O tempo revolve-se como uma onda sobre esse desejo enterrado, que ainda pulsa. Lateja sete palmos abaixo da superfície. Somando todos os meus dias, vejo que tudo o que foi meu se agita sob pazadas de terra. Um império de pó.»
Célia Correia Loureiro nasceu em Almada, em 1989. É escritora e tradutora. Demência foi o seu primeiro romance publicado (Alfarroba @ 2011). Que descreve como “um grito de revolta contra as circunstâncias da mulher portuguesa no século XX, e da mulher ainda vulnerável, isolada e silenciada pelos bons costumes, em contexto rural, em pleno século XXI”. Em Abril de 2019 é reeditado pela Coolbooks, numa edição revisitada na íntegra, juntando-se assim a O Funeral da Nossa Mãe (Alfarroba @ 2012), A Filha do Barão (Marcador @ 2014, coleção Os Livros RTP), Uma Mulher Respeitável (Marcador @ 2016). Pela mesma chancela da Porto Editora lança Os Pássaros (Coolbooks @ 2020) e, em edição de autor, por se tratar de uma autobiografia ficcionada, Até os Comboios Andam aos Saltos (2021), que explora temas como o cancro terminal do pai, o alcoolismo da mãe e os dilemas de uma mulher de 30 anos com um passado por resolver. Em 2024 publicou No Tempo das Cerejas, no grupo Infinito Particular, e Erros Crassos da História: Figuras Histórias e os Erros que Mudaram o Mundo (Ideias de Ler).
Mudou-se para o Alentejo no início de 2025, a fim de poder dedicar-se aos estudos em História e Artes. Vive com dois cães, rodeada de muitas planícies e vacas.
Neste pequeno mas intenso livro, conhecemos Manuela e Diogo, um casal que está há 6 anos separado. Em pequenas cartas ou conversas para o filho, vamos conhecendo a vida de Manuela e Diogo, como se conheceram, a sua relação, e o que levou à sua separação. Encontramos uma história, aparentemente, simples, do quotidiano das personagens mas, é acima tudo, um relato cru e duro, carregado de dor e vazio. E sentimos que tanto Manuela, como Diogo, estão como “mortos por dentro”, e sentimos o seu sofrimento. Acredito que não é um livro para todos os leitores, quer pelo tema mas acima de tudo, pela crueza e tristeza da narrativa. A Célia conseguiu, para mim, retratar na perfeição, toda esta sensação de “vazio”, de ausência de sentimentos perante a vida que se desenrola, mas ainda assim, capaz de sentir aquela dor específica. E chegados ao final, compreendemos a escolha do título. Uma história bem dura mas que não deixará os leitores indiferentes.
Terminei de o ler ontem. A angústia que me acompanhou ao escrevê-lo estava lá.
"Vi-a, desta vez não julguei apenas vê-la. Parecia um rapazinho, de cabelo curto a emoldurar-lhe o pequeno rosto alerta. Em oposição à mulher que me conquistou ao dançar tango, de cabelos negros por prender e tez cor de mel, pareceu-me pálida - ela era só olhos. Olhos enormes e horrorizados a fitar-me, cada um no seu limite do pátio, e havia uma oliveira entre nós. Estava encostada a um carro, de braços cruzados, e estavam duas raparigas com ela, uma delas era a minha cunhada. Pareceu-me que passava mal, que cambaleava. Está tão diferente, aqueles membros que rodopiavam e esvoaçavam ao dançar, agora mal a sustém de pé. E aquele xaile escuro nos ombros... Está calor, Manuela. Algum dia sairás da nossa frieza sepulcral? Talvez chorasse. Vi as outras duas reclinarem-se para ela uma e outra vez. Deixei de lhe ver o rosto por detrás da outra, que se atravessou no nosso caminho como se fosse resgatá-la de um sonho mau. Levaram-na para dentro do carro, não houve mais nenhum vislumbre daqueles olhos, daquele rosto desolado e desolador. Não houve nada em mim que me impulsionasse a atravessar aquela estrada, nenhum impulso de atravessar um pé à frente do outro e aproximar-me, mas desconfiei que teria ficado ali para sempre, se ela se deixasse estar do outro lado também. E talvez fiquemos."
“He would rather have misery with one than happiness with the other.” Of Human Bondage, Somerset Maugham
What is the capacity we have to deceive ourselves? To start over? Can we truly start over? How much misery can one take before we break? Or break the other?
Diogo and Manuela were once married. Then a life trauma happened.* They try to start over but the painful memories and traumas keep them apart. Manuela has started a relationship with Diana. Diogo starts anew, as well. Life is not that simple. Manuela struggles; drugs to calm, drugs to sleep, drugs to forget. It’s painful. The birds flying overhead are ever present.
All of this book unravels in a series of letters each of them writes. They are painful, tender and raw. Everything is out there. Eloquence to anger; joy to despair. A rollercoaster ride through a painful chapter in this relationship.
Célia Courrea Loureiro writes a poignant reflection on trauma. She even apologizes for it not being a happy book. But I will not apologizing for enjoying this book.
*Note: I am being vague as to the exact subject matter. When I understood what happened, everything falls into place. So I would rather not give it away because this makes the book much more unique.
A escrita de Célia é incomparável. Nota-se uma grande maturidade neste livro. Não é simples de ler, exige pausas e reflexão, embora por vezes me sentisse tão mergulhada na história que só queria continuar a ler até encontrar todas as respostas.
Em menos de 24h li compulsivamente este livro. É um livro pequeno mas duro em todas as suas arestas, que nos engole, que nos esmaga lentamente, que nos faz sentir o peso do fado. É um aperto no coração.
Narrado a duas vozes, M. e D. são personagens emocionalmente complexas que me deixaram com o coração nas mãos e as lágrimas à janela. Senti as dores de cada um, tomei partida de um, tomei partido de outro, no fim tomei partido dos dois. É uma história profunda envolta em reflexões sobre as suas vidas antes e após se conhecerem e na qual somos convidados a acompanhar este percurso emocional marcado por um sofrimento e dor sem dimensão que nos pertuba, que nos arrepia.
Foi o primeiro livro que li da Célia e isto sim, é arte de bem escrever. Fiquei deliciada com a sua escrita, com uma surpreendente diversidade de vocabulário, muito rica e arrojada, umas vezes simples outras vezes exigente, mas maravilhosa e sem dúvida insaciável. 🤍
Cap 20 e 22 💘. "É fácil aproximarmo-nos de alguém, tocarmos-lhe por um momento na infinidade do tempo. Um instante é um espetáculo fácil de forjar. Mas uma vida? Suster toda a alegria, a realização, o conforto de um instante num tão amplo somatório de horas? (...)
Bom, no final acabou por não se revelar tão estranho quanto aparentava. Escrito em forma de missivas dirigidas a um filho, em capítulos alternados - ora ele, ora ela, um casal (separado) vai desfiando episódios presentes e passados em tom de justificação (mais própria do que para terceiros), acerca dos seus comportamentos face a situações do quotidiano e de um relativamente ao outro. Ainda que o final explique alguma coisa, para mim, enquanto pai, continua a ser incompreensível e inverosímil o tipo de relatos e linguagem utilizados em algo que se destina a um filho. Mas isto é apenas a minha opinião… que sei eu? O tipo de narrativa não é novidade nem tão pouco é tão desgarrada e doída quanto se quer fazer parecer… Não é tão mau como “Até os comboios anda mais saltos” e, garantidamente, não chega aos calcanhares do “O funeral da nossa mãe”. Lê-se…
"Preferia experimentar a miséria com essa do que a felicidade com outra."
Gaivotas. Melros. Canários. Rolas. Pombos. Pássaros: a premissa na base das sucessivas cartas que discorrem a avassaladora história de amor de Manuela e Diogo. Uma história que tem tanto de bela quanto de melancólica. A escrita da Célia é pautada de riqueza e brilho. A estrutura, em jeito de cartas, que oscila entre o passado e o presente pode afigurar-se complexa nos primeiros capítulos, porém arrebatou-me e não mais se largou de mim, como se da minha pele se tratasse. A avaliar por este maravilhoso livro, o presente e o futuro da literatura portuguesa está muitíssimo bem entregue.
Um livro pequeno mas que não se lê num ápice. Não por não ser viciante, mas por ser duro, muito intenso e cru. Durante as primeiras páginas, confesso que não estava a perceber muito bem o que é que estava a acontecer e para onde a história ia caminhar. Mas assim que percebi o que poderia ter acontecido…. foi emotivo e doloroso. Parabéns Célia, consegues sempre tirar-me o fôlego.
Inicialmente tive alguma dificuldade em entrar na história, sobretudo porque achei a escrita algo complexa e exigente. No entanto, à medida que fui avançando na leitura, chegou um momento em que as peças começaram a encaixar-se e dei por mim a formular hipóteses sobre o que realmente teria acontecido na narrativa. Sabia desde o início que iria ser uma história triste, mas não estava preparada para o quão desoladora ela se revelou. É uma leitura que pesa, que fica connosco mesmo depois de terminada. A Célia consegue sempre surpreender, tanto pela forma como constrói a história como pelo impacto emocional que deixa no leitor.
Já o disse mais do que uma vez: não gosto de não adorar um livro, ainda mais quando se trata de um autor português. Porque o que é português é nosso e é bom! Mas a verdade é que este livro não resultou para mim… A escrita de Célia Correia Loureiro amadureceu neste seu último livro, no entanto, o enriquecimento nas palavras fez-me perder inúmeras vezes ao longo da narrativa. Foram muitas as frases que precisei reler para entender o verdadeiro sentido subjacente. E isso fez com que eu perdesse o fio à meada e não me tenha sentido conectada com as personagens nem com a história.
“Os meus olhos não encontraram os dela e, nesse desencontro, ela obteve a sua resposta. Éramos duas garças na costa, de asas húmidas na areia. Entretanto, a (oc)cisão veio e levou-nos.” – Célia Correia Loureiro.
Esta história narra a vida e relação de Diogo e Manuela, que, após um acontecimento trágico, que os dilacera, ameaçam destruir tudo o que até então construíram.
“Os Pássaros” é escrito na primeira pessoa e narrado a duas vozes. Os capítulos são curtos; apesar disso, esta é uma narrativa profunda, envolta em sofrimento e trauma. A escrita da autora é intimista, pessoal, chega até ao leitor invocando as emoções que os personagens sentem.
Ambos os personagens estão muito bem construídos. A sua complexidade emocional agita, revolta e até perturba o leitor. E é devido a esta magnífica construção que tanto me rebelei contra as suas ações. Foi-me difícil, em certos momentos, sentir empatia pelo Diogo. No entanto, a sensibilidade perante a sua dor prevaleceu.
Senti que os eventos estavam um pouco desconexos, pelo que, muitas vezes, não sabia em que ponto da cronologia me encontrava. Por outro lado, a história encaminha-nos pelo percurso emocional dos personagens que, recordando os acontecimentos, nos mostram as nuances da sua dor.
No início, senti que a narrativa era um pouco abstrata. Durante algum tempo, tentei compreender qual o evento que dilacerou as personagens de tal maneira. Porém, este só foi revelado no final. E, quando o descobri, a história ganhou um novo sentido, uma nova dimensão. E que doloroso foi!
Confesso que gostei mais de “Demência”, mas este livro é, também, um aperto no coração. Parabéns à autora Célia Correia Loureiro!
o meu segundo livro favorito do ano e novamente de uma autora portuguesa. não sei se é um presságio de que tenho de ler mais na minha língua materna, mas creio que alguma coisa quer dizer. 😌
a escrita da Célia já me tinha levado às lágrimas com o seu “Até os Comboios andam aos Saltos”. talvez também pelo tema central, sobre o seu pai que já partiu e com o qual me relacionei muito.
mas nada me preparou para Os Pássaros. a Célia tem o dom de se reinventar, com uma escrita rebuscada, extremamente rica e um vocabulário surpreendente! entretanto em conversa com a autora compreendi que todo esse vernáculo foi necessário para construir a personagem do Diogo.
não vou contar muito, porque o bom deste livro é ir. simplesmente ir, sem saber muito, pouco ou nada. o que posso deixar, sem revelar em demasia, é que encontramos o livro escrito em formato de cartas, o que vai traduzir-se em capítulos muito curtos e que não dá vontade de parar.
estas cartas são escritas por Manuela e Diogo, amores de uma vida e para a vida. ambos com as suas falhas e defeitos e que foram incapazes de lutar contra o que sentiam. no momento em que os conhecemos estão separados e vão escrevendo estas cartas ao filho.
a partir daqui desenrola-se uma narrativa maravilhosa. um novelo de palavras que nos envolve. voei com Os Pássaros e um pedacinho de mim foi com eles. ✨
Depois de Demência, esta jovem autora portuguesa traz-nos o seu novo livro Os pássaros, com uma linguagem diferente, mais evoluída e intimista. Escrito na primeira pessoa, chega-nos o relato emotivo de Diogo e Manuela sobre os terríveis acontecimentos que levaram à sua separação. Percorremos todo o livro em busca de respostas que só nos chegam num final cortante. Gostei!
Mais uma bonita, embora triste, história que a Célia nos conta. Será preciso ler a história num momento em que estejamos mentalmente preparados para tal. Tem muito sofrimento a envolver os diferentes personagens. Mas recomendo muito. É um bom livro para nos pormos no lugar do outro e de alguma forma, fantasiada claro, nos aproximarmos das suas dores para o compreendermos.
No início não me pareceu uma escrita fácil de ler mas à medida que avança torna-se mais fluida. Retrata a vida de um casal que, devido às circunstâncias da vida, acaba por sofrer, e muito, às custas de um terrível acidente. Um livro que nos deixa com um vazio e um pesar tão grande que não tem explicação. Aborda ainda a questão da saúde mental que faz todo o sentido. Para quem gosta de leituras que agarrem, esta é uma delas.
Unfortunately I hate open endings and the narrative jumping timeline wasn’t my favourite either, but the story is really compelling, the characters well rounded and deep. This book really pull on the heart strings. Tragedy, loss, love, and so beautifully written. It really only nagged me from what I mentioned before, otherwise it was a great read, diverse, candid, and heartbreaking.
Content Warnings Graphic: Child death, Suicidal thoughts, Sexual content, Addiction, Self harm, Grief and Mental illness Moderate: Infidelity, Alcoholism, Panic attacks/disorders, and Homophobia Minor: Gore, Animal cruelty, and Forced institutionalization
4,5 ⭐ Este foi o primeiro livro que li desta autora. Uma história que entristece o coração e que houve partes que chorei compulsivamente. A escrita da Célia é poética que nos faz compreender os comportamentos de uma relação entre 2 seres humanos. Só no final conseguimos perceber o título deste livro. É uma jovem autora portuguesa com muito talento e pela qual quero continuar a ler mais livros da sua autoria.
“Não posso vender a alma. O meu corpo é uma coisa - está destruído por dentro, ofereço-lho para que dele retire o entulho que quiser. Mas a minha alma está em ruínas, seria uma crueldade metê-la, neste estado desastroso, nas mãos de quem quer que fosse.”
Maravilhoso, este é dos poucos livros que pretendo ler novamente. Mexeu muito comigo! Lindo, angustiante, dor, amor. É o terceiro livro da Célia Loureiro que leio, mas, este fez-me sofrer mais do qualquer outro. Muito real. Adorei!
Confesso que o meu começo com este livro não foi uma história de amor. Não sei se pela altura em que escolhi lê-lo ou pela escrita que, ao início, me parecia demasiado pomposa para me permitir mergulhar. O que é certo é que, aos poucos, me foi conquistando. Depois de uns tempos sem pegar nele, assim que o voltei a fazer, li-o até ao fim. Não vos direi sobre o que é porque acho que estragaria a experiência. Digo-vos apenas que é de apertar o coração. Recomendo muito!
Escrita bonita, capítulos inteligentes e uma verdadeira carta ao amor, mesmo aquele que não dura para sempre!
“(…) É fácil aproximarmo-nos de alguém, tocarmos-lhe por um momento na infinidade do tempo. Um instante é um espetáculo fácil de forjar. Mas uma vida? Suster toda a alegria, a realização, o conforto de um instante num tão amplo somatório de horas? (…)”
Uma colega que viu que eu gosto muito de ler emprestou-me este livro.
Está muito bem escrito e consegue-se sentir a dor do casal, Manuela e Diogo, que contam ao filho, cada um no seu capítulo e de forma alternada, a história da vida deles, história muito trágica, em que um instante pode mudar toda a nossa vida.
Recomendo, mas leiam quando estiverem com espírito para tal, o livro é muito forte.
Não sabia ao que ia quando comprei este livro para ler. Inocente. Tão inocente. Conhecendo a escrita da Célia como conheço tinha que ter adivinhado que ia ser mais um livro extremamente duro, diria até triste (porque me senti triste tantas vezes, angustiada até) e que ia ter um profundo impacto nos meus sentimentos. Uma perda como a de Diogo e Manuela, agora ex casal, jamais se supera, e existir vida após isso existe mas de que forma? Num constante estado de torpor diário em que não se sente apenas se existe? Num estado de consciência inconsciente em que nos agarramos a todas as pequenas coisas para nos sentirmos neste Plano? Um livro muito bem escrito, onde não queremos ouvir falar de pássaros, e onde não há um desfecho para concretizar. Porque existe solução para tudo menos para a morte. @bibliotecamil_insta