Triste e profundo é o que melhor descrevem o livro ‘’De bala em prosa: Vozes da resistência ao genocídio negro’’. Tendo somente 120 páginas é uma leitura breve, porém pesada para alma, sendo lançado em 24 de fevereiro de 2020, o livro é uma reunião de textos de mulheres e homens negros sobre o trágico episódio que tirou a vida do músico negro Evaldo Rosa dos Santos no Rio de Janeiro, ferido também na mesma ocasião, o catador de materiais recicláveis Luciano Macedo, também negro, que morreria uma semana depois, no hospital. Esses dois homens pretos foram vítimas do estado, especificamente do Exército brasileiro. Na tarde do dia 7 de abril de 2019, um domingo, doze militares descarregaram os fuzis contra o Ford Ka branco em que Evaldo trafegava com a família, na zona oeste carioca. A perícia revelou que não foram só 80 tiros, os militares puxaram o gatilho mais 257 vezes. Um fato interessante sobre balística, assunto do qual eu sou interessado, é ter o conhecimento, tido como básico, que cada disparo de bala do fuzil .600, de acordo com a CREF (Centro de Referência para o Ensino de Física), que pesa 900 grãos terá o impacto de seu tiro sobre o alvo, equivalente a 4 toneladas. Agora, como um exercício de reflexão e imaginação, pense em um carro recebendo essas quatro toneladas 256 vezes por todos os lados. É uma boa forma de entender e imaginar como foi abordagem em um carro de família, composta por inocentes que não tinham passagem nenhuma pela polícia. Simplesmente inaceitável, assim como a fala do presidente Jair Bolsonaro que se referiu ao ocorrido como: "O Exército não matou ninguém, não. O Exército é do povo e não pode acusar o povo de ser assassino, não. Houve um incidente, uma morte." O livro tem como objetivo em juntar o relato de várias pessoas NEGRAS para relatar suas opiniões, choros, angustias, pensamentos e anseios sobre a vida em um país racista e preconceituoso. Pessoas de diferentes classes sociais, cursos acadêmicos diferentes, vidas diferentes, pensamentos diferentes, filosofias diferentes, entre homens e mulheres. Ironicamente, cada relato e história do livro é como se fosse um tiro dado no peito da gente. Todas essas pessoas, todos, unidos somente pela dor, medo e angustia de ser o próximo preto que vai se estampado em um jornal ou na televisão, vítima de uma chacina programada igual à que aconteceu em jacarezinho ou ‘’acidente policial’’. Todo o desenvolvimento do texto é triste, depressivo, te da raiva, ódio e não apresenta esperança, o que simula perfeitamente o que é ser uma pessoa preta em uma sociedade que mata um jovem negro a cada 23 minutos por violência. Você nunca está bem, você nunca está OK, você nunca está 100%, pois sabe que qualquer dia e qualquer hora pode ser você no lugar. E, infelizmente, o caso continua aberto. Mesmo após 2 anos nenhum militar presente na operação foi preso. A conclusão é desesperançosa... O sentimento é que você nasceu errado, cresce errado e existe errado e ainda ter que aguentar tudo isso nos ombros é surreal e (im)possível. O livro é cru e fiel com o que ocorre com o negro brasileiro. Um excelente e difícil obra de ser absorver.