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336 pages, Kindle Edition
Published May 13, 2019
Que livro difícil esse foi pra mim. Estou dando três estrelas, mas na verdade, gostei bem menos que isso. A questão é que eu simplesmente não sou o público-alvo desse livro, então nem é justo com o material. Eu não tenho nenhum interesse macabro em serial killers e suas idiossincrasias, mas também não costumo simplesmente fugir de tópicos pesados só porque eles são desconfortáveis (apesar de ter quase desistido de terminar a leitura inúmeras vezes).
Achei interessante a proposta do livro de mostrar o serial killer "post-mortem", como observador-narrador da história. Era um twist no velho plot de puro gore que me chamou a atenção, e de uma autora brasileira, então decidi sair da minha zona de conforto e dar uma chance ao livro. Eu jamais teria feito isso se fosse escrito por um homem, por exemplo, porque já tenho bem clara a ideia da violência gratuita contra mulheres que autores gostam de jogar aqui e ali por puro shock value. E apesar dos pontos negativos que vou mencionar ao longo dessa resenha, em nenhum momento eu senti que as violências narradas ao longo do livro estavam lá só pra chocar o leitor (apesar de, claro, chocar, mas não era o único objetivo).
O livro segue basicamente três POVs, ou pontos de vistas: o de Kate, o do ex-agente do FBI Ryan e, o principal dentre eles, Nathan Bardel, o póstumo serial killer que Kate estuda para escrever um livro de true crime. O que vemos ao longo do livro é o desenrolar das relações entre esses três personagens, mesmo Bardel estando morto e se relacionando com os outros personagens apenas platonicamente. Aos poucos, ele vai percebendo as interações possíveis com os outros dois personagens vivos, e isso é desenvolvido de forma bastante orgânica pela autora.
(A partir daqui, há spoilers!)
Fora isso, tem pouco nesse livro que realmente gostei. Tenham em mente que, como falei, não sou o público pra livros sobre investigação policial e serial killers, apesar de me divertir o suficiente vendo seriados e alguns filmes. Mas o investimento de tempo, energia e imersão com um livro é bem diferente de assistir algo, como qualquer leitor sabe.
Primeiramente, já quero ir falando desse subtítulo: "O despertar de um seria killer", lê-se. Só que não. Esse subtítulo aí me fez acreditar que acompanharia de perto o despertar desse serial killer, ou seja, seria um dos nossos protagonistas vivos, Kate ou Ryan. Acaba que não é o caso: o subtítulo parece se referir ao sobrinho de Kate, Morris… O que foi bem anticlimático, pra ser sincera, considerando essencialmente o subtítulo.
Mas tudo bem. Não vamos nos ater a isso.
Outra coisa que me chamou a atenção nesse livro foi que, apesar de ser escrito por uma brasileira, ele soa... Traduzido. E com algumas frases e termos não muito bem encaixados no Português, e sim no Inglês, o que faz algumas partes do livro causarem certo estranhamento na construção da frase/expressão. Não cheguei a anotar nada, mas senti isso mais de uma vez ao longo da leitura.
Foi difícil ler esse livro, e apesar dele ser relativamente curto, levei muito mais tempo do que esperava. Chegar em casa frustrada, cansada e emocionalmente destruída pra sentar e ler sobre Kate sendo torturada e estuprada múltiplas vezes é uma barra. Recomendo só se você estiver numa fase legal da sua vida e espaço no seu psicológico pra um sofrimento e angústia alheias. Engraçado que o desespero também me forçava a tentar ler essas cenas gráficas o mais rápido possível: eu nunca interrompia a leitura no meio de uma cena chocante, porque de jeito nenhum queria dormir com esta sendo a última imagem com a qual pensava e de jeito nenhum queria voltar pra ela no outro dia. Então… Talvez isso seja um ponto positivo no livro?
O que mais me incomodou no livro, na verdade, foi a relação de Kate com Ryan. No começo, tava tudo bem, ele sendo o "fuck boy" dela, e até o eventual crush entre eles, eu tava conseguindo entender aquele relacionamento. Mas não demora muito pra Ryan demonstrar vários comportamentos escrotinhos em relação a Kate, e a única coisa que eu pensava é que alguém devia fisicamente removê-la desse livro. Não bastava ela ter um rol de ex-amantes terrível (em certo ponto Ryan olha pra Savannah, amiga, ex-amante e editora de Kate, e diz pra ela na cara "você é uma péssima amiga", e isso é absolutamente verdade), agora tinha esse Ryan borderline escroto na cola dela e eu deveria torcer por eles? Ah não.
Em certo ponto, Ryan vai embora dizendo que se não for "vai bater em Kate". Ele é possessivo, confronta o ex-escroto de Kate não por ela, mas por ele e seu sentimento de posse em relação a Kate, faz ela se sentir mal quando na verdade ela não tem culpa de nada e no final da briga, KATE é quem pede desculpas… Fora que existe uma conversa (juro por deus) em que eles estão discutindo a gravidez de Kate (que a princípio eu achei que queria abortar, mas depois Ryan aparece todo feliz com a notícia e não deu pra entender se Kate decidiu por ela ou por ele), e eles falam "vamos ter tempo pra nos conhecer depois que o bebê nascer" eu simplesmente não acreditei nessa lógica de adolescente deles.
Isso não é necessariamente um ponto negativo do livro, mas me pareceu que a autora queria que o leitor embarcasse nesse relacionamento e torcessse pelo casal… O que não foi o caso comigo.
Em certo ponto, Lemes cria um "redemption arc" pra Bardel, como se, finalmente removido do mundo dos vivos, só assim ele poderia compreender para além de sua psicopatia e sadismo. Fiquei super cética no começo, quando os primeiros sinais disso começaram a brotar, mas no final, realmente me convenceu e considero uma ótima escolha narrativa, porque era difícil empatizar com ele, apesar de seus capítulos serem os mais interessantes.
Provavelmente, nunca mais voltarei a ler nada sobre seria killers, mas se tinha que ser algum livro sobre o assunto, que fosse esse.