Todas as formas de pensar que comandam a vida do ser humano tiveram uma origem própria e ficar a conhecer a génese de cada uma só traz mais conhecimento e, porventura, um melhor entendimento associado a um refinamento da grau de aceitação perante cada uma delas. Até porque, na essência, não seremos todos iguais, com as mesmas crises, penitências e dúvidas existenciais?
Partindo desta questão que aflora no seu espírito, desde tenra idade, vamos conhecendo Siddartha Gautama, um indiano nascido no século VI a.C., numa comunidade guerreira da cultura indiana, idolatradora da ideia das castas. Cansado da constrição exercida pelos ascendentes e a sua intemporal projecção nos seus sucessores de pretensões próprias não atingidas, ele pretende conhecer o Mundo ao redor que, qual tronco bonito, está infestado de térmitas destruidoras, a ponto de o fazer ceder ao mínimo encosto.
Sem se contentar com o estatuto fácil de pássaro enjaulado que aguarda pelos aperitivos e deixa as suas asas atrofiar mesmo com a porta entreaberta, Gautama bate com a porta e decide partir ao encontro da morte, da doença, da pobreza e da espiritualidade subvertida que os seus pais lhe que querem esconder qual manto de desvirtuação do mundo. Não se revendo nas religiões antigas que encaram o Homem como mera peça do xadrez divino, exortando mortificações e excomungando os prazeres, assume a árdua tarefa de iniciar um culto próprio em que o ser se sobreponha ao ter, para depois negar o primeiro inclusivamente, quebrando os ciclos repetitivos de criação e destruição que das sementes geram apenas árvores, flores e frutas, para depois retornar outra mera semente.
Neste processo de despertar, caracterizado por uma admiração constante pela Natureza e pelos outros - onde a flor não é colhida para que o aroma que dela emana possa ser admirado por todos -, funda-se um entendimento do mundo físico interpretado como um cilindro dividido em quatro níveis: o primeiro, das almas penadas, dos homens sedentos do desejo carnal mas também dos deuses antigos que os manipulavam, comum a todos; o segundo, o mundo das formas, ao qual se acede após as quatro fases da meditação, num total esclarecimento relativamente à dor e ao sofrimento que envenenam o mundo; o terceiro, o mundo sem forma, ao qual se acede pela Caminho da Libertação, o óctuplo, onde a consciência inicia o seu processo de desmaterialização; e, finalmente, o quarto, conhecido como monte sagrado, onde apenas existe o vazio e o nada mas onde paradoxalmente se acede à plena e infinita existência, o nirvana. Para além disso, existem diferentes conceitos que se encaixam, quais matrioskas, como as quatro nobres verdades, os cinco males e as cinco categorias, os doze domínios e os dezoito elementos. Mas é, nesta descrição, que o autor se perde e deixa o leitor confuso sobre o seu propósito de querer dar a conhecer a vida de um messias ou, ao invés, mascarar uma hamilia, pregando uma religião.
O Budismo surge pois como uma corrente filosófica, complexa como a física quântica nela baseada, que analisa fenomenologicamente a existência humana comparando-a a um balão de ar quente que, apenas despejando os sacos de peso de dualidades que abarca no seu cesto, poderá atingir a quinta essência, tais como apenas escalpelizado historietas acessórias seria mais entendível a vida deste desperto. E depois deste que venha Hesse, com a sua obra magistral, para melhor me imiscuir nestes conceitos.