4,5*
- Ai, ai, como toda a gente parece ser tão pobre em Inglaterra – disse Grace. – É tão terrível quando até mesmo os noveaux riches são pobres!
Em Nancy Mitford tudo é afiado: a língua, a mente, o humor... E eu fustigo-me por ter demorado tantos anos a chegar a ela, apesar das inúmeras recomendações que me fizeram e que, agora, me cabe a mim transmitir.
Grace, uma jovem inglesa, casa-se com um francês pomposo prestes a ir para a guerra, engravida e reencontra-o sete anos depois, quando Sigi, a bênção propriamente dita, já é um belo e inteligente rapazinho, cheio de manhas e caprichos. Já em França, Grace, que é uma paz de alma, sofre um choque cultural ao conviver com a alta sociedade francesa.
São poucos os ingleses que não detestam viver em França. Sempre achei que tem muito a ver com as pratas francesas. Não percebem que se trata de outra liga, pensam que têm aquele ar escuro por não serem bem limpas e é isso que faz com que odeiem os franceses. Tu sabes como são os ingleses em relação às pratas, é um fetiche.
Não se pense, porém, que Nancy Mitford fez deste livro uma crítica aos franceses, povo que ela tão bem conhecia, porque, na verdade, ela não poupa ninguém. Sejam franceses, ingleses, americanos ou russos, nenhum povo escapa ao olhar mordaz desta autora, que explora de forma hilariante os seus tiques e idiossincrasias culturais.
O sexo não desempenharia grande papel em todo aquele cenário. O marido francês, como seria de esperar, tê-la-ia satisfeito para sempre e, afinal de contas, as pessoas podiam viver juntas e felizes para sempre sem sexo. Ele próprio conhecia muitos casos.
Há uma galeria de personagens excepcionais, com amas lamurientas, ingleses insípidos e hipócritas, velhas gaiteiras, francesas frívolas e americanos limitados, que se interrelacionam através dos diálogos mais estaladiços que já vi em literatura. E no meio disto tudo, está a pobre Grace, que é a pessoa mais pacata e normal deste elenco, mas que, na sua tentativa de agradar a todos, não me deu o final marcante que eu antecipava.
- Lembras-te da Carolyn, aquela minha amiga?
- A bela da lésbica?
- Não, não, a Carolyn Dexter.
- Tu disseste que era lésbica na escola.
- O que eu disse foi que estávamos todas apaixonadas por ela, o que é muito diferente. Além disso, na idade em que se anda na escola as pessoas são todo o tipo de coisas... A Carolyn era comunista naquela altura... Quando havia visitas na escola, nós apresentávamo-la sempre como a comunista da escola... e olha só para ela agora! Aquilo é o Plano Marshall até à ponta dos cabelos.