Já li muitos livros de Victoria Holt e este foi um dos que mais desgostei. O clima gótico está
lá, mas é apenas isto: clima. Nada realmente acontece além das maquinações da
protagonista e relata sua vida desde os doze anos, voltando um pouco no tempo para
relatar o que lhe havia acontecido antes de chegar a Cornualha, onde vivia com a avó e o
irmão. Holt tem o hábito de relatar as vidas de suas protagonistas desde a infância, mas
geralmente é um processo muito agradável de ler, já que favorece a inteiração com os
personagens e ela não se prende a narração ano a ano, mas sim de fatos importantes para
o desenvolvimento da trama. O que muito me desgostou neste livro e, ao mesmo tempo o
tornou interessante, foi a protagonista; ela é exatamente o tipo de personagem que
normalmente faz o papel de vilã nos livros de Holt: egoísta, arrogante, fria e calculista e
assim por diante. E o mais interessante ainda é que tem por amiga a moça que
normalmente faz o papel de protagonista de Holt, a jovem forte, romântica, decidida, justa
e assim por diante. Na maior parte dos livros de Holt sempre temos duas mulheres
importantes na trama, a mocinha e alguém importante para ela que na verdade lhe deseja
o mal ou lhe fara o mal por consequência de seus atos egoístas. Aqui Kerenza é a
protagonista, mas é exatamente como as amigas, irmãs, etc que traem a protagonista
comum e Mellyora é a sua amiga forte e bondosa, que é traída e usada e que normalmente
faz o papel de protagonista.
SOBRE A TRAMA (Com Spoiler):
Kerenza é uma garota de doze anos que mora em uma casinha de sapé com o irmão mais
novo e a avó. Sua mãe havia morrido anos atrás e seu pai, pescador, certo dia saíra para o
mar e não voltara. Kerenza então pegara o irmão e o levara consigo numa longa viagem a
pé até a casa da avó, numa cidade mineira da Cornualha. A menina era orgulhosa e
arrogante e extremamente ambiciosa. Odiava e invejava a todos os que tinham mais que
ela e tinha planos de grandeza para si e para o irmão. Logo no inicio do livro ela invade a
propriedade dos St. Larnston para espiar o local onde haviam encontrado os ossos de uma
mulher, confirmando em parte a teoria das 7 virgens. É daí que conhecemos personagens
que vão ser muito importantes ao longo dos anos: Justin e John St. Larnston (o filho mais
velho e o mais novo da família da Larnston), Kim (filho de um militar e colega de Justin
na universidade) e Mellyora (a filha do reverendo). É triste, de inicio, acompanhar
Kerenza em seu ódio, especialmente por Mellyora, porque esta tem belas roupas, sapatos e
comida em casa. Sua descrição da moça como uma tola de cabelos loiros e olhos azuis vem
por terra com o tempo. Mellyora é uma pessoa de vontade firme e bom coração. Numa
virada de acontecimentos as duas se tornam próximas e íntimas e isso é mais trágico ainda.
A filha do reverendo é apaixonada a muito tempo por Justin, mas era mais jovem que o
rapaz (quase uma criança) e então ele se casa com a ultima filha de uma rica família com
um vasto histórico de loucura. Kerenza, vivendo na casa do pastor, de criada passa a
acompanhante de Mellyora, com quem aprende a ler e escrever e então passa a ter aulas
com a professora da amiga. De menina sem sapatos a moça bela e estudada, cheia de classe
de forma que, se não lhe conhecessem a história, jamais suspeitariam de suas origens.
Então, o que Kerenza faz? Ela trai repetidas vezes a amiga que mudou sua vida para
melhor e sempre apoiou e protegeu. Casa-se com o irmão mais novo dos Larnston após
muito trabalho (ele era uma pessoa desprezível, mulherengo, maldoso, arrogante, etc),
fica grávida e passa a cuidar para que Justin jamais tenha filhos com a esposa, Judith e
também que jamais a abandone por Mellyora porque apenas seu filho poderia herdar a
propriedade e as terras da família. É repugnante sua inveja cada vez mais crescente e todos
os demais sentimentos que lhe vão no coração. Casada com um homem que detesta,
cobiçando tudo o que não lhe pertence, ela vai contribuindo para a tristeza de algumas
pessoas, o que me fez detestá-la cada vez mais ( de certa forma ajudou na decadência de
Judith, esposa de Justin, depois da morte da mulher ocultou fatos que impediriam que o
povo suspeitasse de Justin ter matado a esposa e com isso conseguiu separar de vez a
amiga dele; Justin partiu e jamais voltou a sua casa). O final foi perfeito, na minha opinião.
Eu percebi logo de cara o que aconteceria e não me enganei. Depois de tudo o que havia
feito, Kerenza ainda acalentava o desejo de casar-se com Kim, que quando jovem salvara
seu irmão da morte. O marido de kerenza morre (aí há uma história interessante que
deveria ter sido mais explorada) e ela sente-se realizada, pois poderia ficar com Kim e com
a propriedade mas.... o marido dela havia dissipado a fortuna da família com jogo e ela se
viu obrigada a vender a casa para Kim... só que tudo ficaria bem, uma vez que eles se
amavam e casariam. Acontece que Kim nunca amou Kerenza, hahahaha. Ele amava
Mellyora, então, comprou a propriedade para ajudar Kerenza e o filho e casou com
Mellyora, que acabou sendo a senhora da casa que Kerenza tanto desejara. Castigo divino.
Eu gostei muito desta parte. Mellyora foi finalmente feliz e Kerenza ficou sem seu amor.
Eu resumi bastante a história. Muita coisa acontece e ao ler você se vê realmente
participando das vidas daquelas pessoas. Gostei de Mellyora e fiquei triste por não poder
acompanhar os pensamentos dela, a sua história por completo, ao invés da maldosa
Kerenza. De longe é um dos piores livros de Victoria Holt que já tive nas mãos, mas, como
sou fã dela, foi uma boa experiência, mesmo que só por ver a outra face de uma história,
com a malvada sendo protagonista :-)