Depois de Bandolim e Manhã, Estar em Casa é o mais recente livro de poesia de Adília Lopes, que completa esta trilogia de forte componente autobiográfica e acompanhada de fotos incluídas pela autora.
"Adília Lopes da Silva and Maria José de Oliveira Viana Fidalgo are one and the same person. They are me. As poppy is a poppy. And many other names that I don’t know. Adília Lopes is water in gaseous state, Maria José is the same water in solid form. I'm a woman, I'm Portuguese, I’m from Lisbon, I’m a poet, I'm a linguist (we all are), I'm a physicist, I'm a librarian, I'm an archivist, I'm shortsighted, I was born on 20 April 1960, I'm single, I have no children, I'm catholic, I have brown eyes, I measure 1.56 m, now I weight 80 kg, I use the short hair since 1981, the hair is dark brown with many white hairs. (...) it's clear that the poet is always the idiot of the family, the crazy one".
Adília Lopes dedica este livro à sua gata Lu que morreu em 2016, ano de que datam muitos destes textos, e só por isso ganhou ainda mais a minha estima.
A minha gata Lu morreu está sempre viva mas agora não lhe posso dar festinhas
Ainda que “Estar em Casa” não esteja ao nível das outras obras que li anteriormente, a verdade é que gosto da Adília Lopes, das suas recordações...
(...) Tive a sorte de crescer no Pátio das Cantigas, na Aldeia da Roupa Branca. É por isso que sei tantas coisas.
...das suas associações de ideias...
O elevador de Santa Justa é um caligrama.
...do seu amor pelos objectos que possui...
Tenho um bule de que gosto muito, que acho muito bonito. Mas de repente do que gostei mais foi de reconhecer a sombra do bule nas costas de uma cadeira, de dar com a sombra do bule. É fácil dizer que lembra uma ave. Mas é o que está certo dizer. Essa repentina ave, estou a lembrar um verso, deu-me muita paz. Ao fim da tarde, depois de os amigos se terem ido embora, a sombra do bule fez-me ver como sou feliz às vezes.
...dos seus jogos de palavras...
Um melro desgrenhado esgravata a terra do vaso
Escrevo esgravato com o bico da caneta o caderno
Escrevo Escaravelho
...e até de algumas coisas sem sentido que escreve.
“A Lu estava a morrer e quis ir para a janela apanhar Sol. De repente estava a olhar com muita atenção o Almeida a varrer as folhas lá em baixo na rua. De uma vez demorei-me mais, ao voltar para casa, a Lu pôs-me uma pata no peito com muita força. A Lu amava-me muito. Acho que só os animais são capazes de amar assim tanto. Eu não sou capaz.”
Apesar de ter lido “Dobra - poesia reunida 1993-2021”, hoje, um ano após o seu falecimento, quis recordar aquela que um dia me fez ler poesia e apreciar a sua prosa. Bem haja!
Hoje fui para a biblioteca ler poemas. Adília Lopes, em "Estar em Casa", constrói um universo que é ao mesmo tempo íntimo e universal. Entre as frases que falam de gatos, costuras e objectos quotidianos, há uma afirmação poderosa: viver no pequeno, no íntimo, é também uma forma de enfrentar o mundo. No coração do livro, encontramos uma espécie de retrato do "homem bom", um poema que se destaca pela delicadeza e profundidade. A poetisa com a sua voz inconfundível, não nos fala de heroísmo ou gestos grandiosos, mas de bondade. Para mim, é este o poema que condensa o espírito do livro: uma poesia que nos ensina a olhar para o pequeno e a ver nele o infinito. Também gosto muito do poema onde a autora pede flores em vida, questionando a hipocrisia dos gestos póstumos, num apelo por reconhecimento e afecto enquanto ainda há tempo.
A ideia de sermos sempre criança também percorre a poesia de Adília Lopes como um fio encantado, que nos convida a ver o mundo com olhos curiosos, simplicidade e uma certa teimosia em acreditar na magia das coisas pequenas. Essa infância permanente não é sinónimo de ingenuidade, mas de uma força poética que transforma o banal em algo bonito.
Gosto muito de comparações. Escrevo muitas vezes a palavra "como". Como gosto muito de comer até tem mais graça»
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«Só gosto das pessoas boas quero lá saber que sejam inteligentes artistas sexy sei lá o quê se não são boas pessoas não prestam»
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«Sou deste lugar como as árvores e as casas»
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«A minha gata Lu era mansa meiga bondosa macia minha filha e minha mãe»
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Comecei a explorar a poesia da Adília Lopes durante a fase do confinamento e este pequeno livro vem reforçar as primeiras impressões que na altura se instalaram: há uma simplicidade inquestionável na forma como escreve (que por vezes peca pelo excesso — e sei que esta opinião pode parecer paradoxal, mas é como se o esvaziar total da palavra e do sentido se tornasse excessivo, estridente) mas há sempre algo que me seduz: por vezes um jogo de palavras (e nesse aspecto a autora é particularmente brilhante, sempre achei que o humor construído a partir destes elaborados jogos de palavras mostra inteligência e perspicácia), por vezes uma leveza e singeleza, até beleza, na forma como se expõe.
Na sequência de Manhã e Bandolim, Estar em Casa traz-nos de volta os poemas e textos curtos em que Adília Lopes brinca com a sua autobiografia e as suas memórias. Agora que praticamente deixei de ler poesia, estes livros da AL levam-me a sítios onde poucos outros me conseguem levar. Um lugar raro de onde podemos contemplar a beleza do mundo, que está sempre nos olhos de quem contempla. A beleza simples e pura, frágil e desamparada. Só o choro parece ser resposta à altura a que estes textos nos elevam.
Vandalizei uma ou outra página com dobras e gatafunhos a lápis.
"No Vale Abraão de Agustina, não me interessa a Bovarinha nem as considerações sentimentais. Gosto da página sobre os chinelos de quarto de inverno."
"Quando se partia uma chávena, a Tia Paulinha dizia: ficou viúvo o pires."
Mas não há muito mais que isso. Tem mais graça o que o sublinhado me lembra do que o que sublinho em si. Entendo que é isso que quer provocar, mas irrita me poesia de página vazia.
Houve 3 a 4 páginas que me ficaram a pairar na cabeça. Brincadeira é das minhas palavras favoritas e adoro que Adília Lopes me lembre disso, por isso é que gostei tanto do "54-45". Mas é desequilibrado. Há passagens que me sabem a tanto e outras que me sabem a pouco ou nada.
Poemas de caráter quotidiano, fugazes, sem profundidade. São lidos e ultrapassados sem dificuldade porque são tão diretos que o processo reflexivo e introspectivo deixa de ser necessário.
É estranho como podemos tão facilmente nos identificar com certas ideias da Adília e no momento a seguir estarmos completamente à nora com as coisas que ela diz. A Adília faz-nos lembrar que nem tudo tem de estar sempre dentro dos eixos. Desanuviar também é bom.
Adília Lopes pega em somente duas palavras e consegue formar mundos. Meras frases que marcam, só comprovam que a literatura não precisa de muito, mas antes já o é. A literatura é tudo.
This is a charming little book full of thoughts and childhood memories - that place in time where curiosity could dazzle us with the simplest things. Adília Lopes transports us back with her, giving us the ability to be little again, to admire and learn from every detail and experience. It reminded me that we are made of memories, and they are individual ways of conveing one-self.
"Só gosto das pessoas boas quero lá saber que sejam inteligentes artistas sexy sei lá o quê se não são boas pessoas não prestam"
Estar em Casa é um livro que nos toca a todas. Um livro de uma poesia que achegado ao estilo naif e privado do doméstico não deixa de mostrar uma cadência poética e política que nos faz tirar partido de cada página.
Agarrei neste livro no dia da morte de Adília Lopes. Era o único que tinha cá em casa que ainda não tinha lido. Não me ocorreu melhor forma de a homenagear.
A livro é Adília Lopes como a conhecemos, na simplicidade e contundência das palavras. É obrigatório, como todos os outros. Farão muita falta mais palavras de Adília. Saboreemos as que ficaram.
Poesia aparentemente ingénua, em que o que interessa é o quotidiano, os objectos banais, as lembranças comezinhas...Mas é aparência, porque por detrás da banalidade, estão muitos sentidos.
«Os meus poemas são papéis, acções, obrigações.» P. 30
é como ler anotações das pessoas de quem gostamos. o tom despretensioso é tal que é absurdo de uma forma encantadora. não é uma obra excepcional, mas deixa apetite para mais.
Não é a melhor obra de Adília Lopes, é um facto. Dois poemas de grande qualidade. O resto é prosa de 2016, essencialmente. A prosa em si não tem defeito nenhum mas também não tem "flair."
“No gato no cão no periquito acredito em pessoas não acredito”. Sabe tão bem lê-la como estar em casa. Uma simplicidade que invade. E depois volta-se, para saborear.