Porto Alegre é cenário de muitas vidas perdidas, incluindo de pessoas que ainda não morreram. É da pior cadeia do Brasil que a violência pulsa e se espalha pela cidade. Afinal, mais que encarcerados, presidiários estão presos ao crime. Gabriel Michels mistura ficção com essa triste realidade, que faz todo o sentido quando se conhece a história de quem vai parar no Presídio Central. O resultado é uma narrativa forte e que prende o leitor do início ao fim
Um livro duro de ler — pela violência, pelo retrato triste da realidade de uma parte da sociedade. Por ter morado em POA, uma boa parte dos relatos me soou familiar. Conheço os lugares, sei da violência que assola a cidade há anos, já me vi no lugar do narrador (fui assaltada a mão armada). No entanto, o que mais me impactou no livro foi a completa falta de perspectiva que Di tinha: criado largado no mundo, filho de pai desconhecido e mãe drogada, sem NENHUM adulto minimamente responsável para poder tomar conta dele, sem nem saber que poderia ir à escola “porque ninguém nunca me disse que eu podia”. Não chega a ser surpresa quando, um a um, os personagens vão morrendo no caminho...
A narração do livro não é a obra mais elaborada já feita, então o livro perde um pouco de riqueza por isso. Tem horas que o narrador é simplório no raciocínio, até inocente. Mas acho que isso é reflexo da distância entre a realidade do personagem principal (favelado, preso, abandonado, sem ninguém no mundo, muito provavelmente negro, certamente pobre, tendo como único emprego ocupações ligadas ao tráfico) e do narrador (branco, com ensino superior, assalariado, etc). Quase tudo que um narrador desse possa descobrir sobre a realidade de um Di passará pela surpresa e espanto, daí a ingenuidade do relato. Talvez se o autor fosse mais próximo à realidade desse tipo de personagem o “enquadramento” da história seria outro. Mas nesse caso a chance do livro ser publicado infelizmente seria pequena — afinal, quem se interessaria em comprar um livro de um autor negro, falando da realidade dos negros (e pobres, e criminosos)?
Enfim, é um livro bem legal, gostei muito e recomendo fortemente para quem quer conhecer um pouco mais dessa triste realidade.
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presídio central eu li, basicamente, numa sentada. comecei num início de noite de um dia e terminei na manhã do dia seguinte.
essa leitura me lembrou muito a dos textos do Falero - talvez pela rapidez da leitura, mas muito em função da história se passar em porto alegre e, principalmente, mencionar lugares que eu passo todos os dias. é arrebatador ler um livro que se passa onde tu vive e sempre viveu.
pensando enquanto escrevo, essa literatura crua, com histórias e pensamentos distantes do discurso moralizante e socialmente esperado, tem sido a que mais tem me envolvido e me chamado a atenção.
por outro lado, o que mais me incomodou na leitura foi um tom, por vezes, moralizante e quase determinista do discurso do narrador-autor. não sei se por querer manter, na escrita, a diferença do uso da língua que ele tinha no contato com o personagem principal do livro, mas essa discrepância me pareceu, por vezes, a ponto de chegar na arrogância.
para além disso, eu gostei muito da leitura - e, confesso, fiquei triste com o fim.