Eu esperava mais do livro, mas ainda há o que se aproveitar aqui. Sem dúvida, as melhores cartas do livro são aquelas em que os autores se aproveitam da identidade da mãe misteriosa para criar um enredo ficcional a respeito. Não é à toa que a primeira seção do livro começa com frases sobre como ficção e realidade se confundem. Afinal, o que temos nestas cartas são formas de os remetentes transformarem suas experiências, sofrimentos e reflexões pessoais em histórias que podem ser sentidas por qualquer pessoa.
Encaixam-se aqui especialmente as cartas da Letícia Lanz, que aborda seus sofrimentos de décadas com seu gênero; do Christian Ingo, que expande bastante o contexto da mãe do rapaz homossexual; a do Adilson José, que se preocupa em adicionar à problemática da carta questões étnico-raciais; e a do Acyr Maya, que apresenta um relato estarrecedor da homofobia de uma mãe contra sua própria filha.
Outras cartas não tão impactantes, mas interessantes para reflexão, envolvem descrições dos contextos históricos da luta contra a homofobia e as constantes altercações necessárias para fazer avançar a sociedade e manter os direitos conquistados.
Infelizmente, fora dessas duas categorias boas, as cartas deixam a desejar bastante. Alguns autores viajam demais na maionese, iNo nventando cenários fictícios pessoais demais. Muito confuso. Também tem autores prolixos ao extremo — um em específico diz em seis parágrafos o que poderia apresentar em um, mas mais parece que ele estava redigindo uma carta ao rei Carlos V do que ao Dr. Freud, pelo tanto de floreios e divagações.
É especialmente frustrante que tantos psicanalistas tenham aproveitado o espaço para usar e abusar da terminologia da sua área. Apesar de o livro ter como figura principal o Dr. Freud, ele é extremamente popular e influente para a sociedade em geral, então pensei que haveria o cuidado por parte desses autores de garantir que leitores leigos fossem capazes de entender satisfatoriamente as suas cartas. Afinal, Freud é o meio pelo qual o livro quer tocar no tema da homossexualidade, que é um tópico de interesse geral. Freud não é o fim do livro. Aliás, falando nisso, tem uma autora em particular que, além de escrever algo breve demais e aproveitar o espaço para se promover, mal toca no tema do livro. Não tem cabimento, tem?
No fim, há três ensaios dos quais eu gostei bastante. Eles falam um pouco sobre Freud e a evolução das suas ideias, além de contextualizarem melhor o conteúdo do livro.
Em geral, eu diria que o livro é muito bom onde é bom e muito ruim onde é ruim. Existem pérolas que servem para sensibilizar e conscientizar o leitor para as questões homossexuais que o tornam uma boa leitura; mas tem partes tão entediantes que pelo menos me fizeram agradecer o fato de serem breves, por estarem em formato de carta.