Nesta investigação, que cruza uma recolha exaustiva de testemunhos reais a um sólido trabalho científico, aborda-se a visão da homossexualidade durante o salazarismo. Numa síntese perfeita de História e Antropologia, visitamos o Estado Novo nos seus parâmetros estatais, a partir de três eixos centrais e que fazem o seu fundo científico: a diferença de tratamento devido à classe social; o eixo do não-dito, e a visão da sexualidade a partir da referência do masculino.
Diz a autora, Raquel Afonso, investigadora integrada do IHC-NOVA e doutoranda em Estudos de Género (ISCSP/NOVA-FCSH/NOVA-FD:
“Este é um estudo que pretende ligar a investigação académica à sociedade e aos movimentos cívicos. Este é um livro de memórias. Procurou-se dar voz a quem não conseguia expressar-se. Procurou-se compreender uma parte da Ditadura que tem sido muitas vezes relegada para a sombra. Aqui, procurou-se desconstruir um tempo pretérito, do qual pouco se sabe e pouco se fala em Portugal. Não porque se queira ficar «agarrado» à história, porque há futuro, mas porque é necessário conhecer o que está para trás para se poder caminhar para a frente.”
O prefácio é assinado pela Dra. Paula Godinho, docente de Antropologia na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e investigadora do Instituto de História Contemporânea.
Excelente e necessário livro. A história lgbt em Portugal continua, em grande medida, por escrever, e este urgente contributo traz-no dados importantes sobre o que foram as vivências gays e lésbicas durante o regime facista Português. Muito bem fundamentado e com uma bibliografia consistente, este é um valioso trabalho académico que veio enriquecer os estudos queer Portugueses.
Valioso contributo para o conhecimento das vivências lésbicas e homossexuais nas últimas décadas do Estado Novo. Estudo bem fundamentado, com um suporte bibliográfico pertinente e que abre para diversas problemáticas, permite compreender melhor as formas de resistência possível face às subtilezas da opressão nos anos da ditadura. Leitura obrigatória para quem trabalha (ou se interessa) pela época e/ou pela temática.
Uma visão extremamente interessante sobre um dos aspectos mais ignorados da Ditadura - a repressão sexual. Ao fim da leitura uma pessoa só se pode entristecer por perceber a quantidade de histórias como as apresentadas neste livro que ficaram por contar. Também é dificil de ficar indiferente ao efeito direto do regime na vida destas pessoas. É uma boa leitura.
Publicação que resulta da tese de mestrado da autora, uma muito jovem investigadora na área da Antropologia, tem o enorme mérito de trazer finalmente à luz do dia testemunhos de pessoas que viveram na pele a opressão pesadíssima da homofobia institucional e social da vida durante o Estado Novo. Pode-se iniciar um debate sobre o termo resistência, quando o que parece sobressair aqui são sobretudo as estratégias de sobrevivência e de navegação nas possibilidades de expressão da sexualidade nos insterstícios que a clandestinidade foi permitindo, em diferentes formatos, espaços e momentos (centrando-se essencialmente na região urbana de Lisboa). A resistência ativa, essa, poderá questionar-se de onde viria, quando só conhecemos exemplos notórios do mundo das artes, como os de António Botto, Judith Teixeira, Mário Cesariny, entre poucos outros. Estas vozes permitem-nos imaginar a dimensão dessa outra gigantesca polifonia silenciosa que ainda aguarda, na invisibilidade, a sua oportunidade. Fundamental também o capítulo final, que demonstra, mais uma vez, que a liberdade alcançada com o 25 de abril não alterou de forma significativa a experiência de pessoas homossexuais. Teríamos de esperar mais de duas décadas para que a herança dessa mentalidade dominante começasse a ser questionada de forma visível, e irreversível. É urgente e necessário registar estas histórias, esta História.
O livro resultou de uma dissertação de mestrado em Antropologia pela FCSH/Nova. São ainda muito escassos o estudos sobre a homossexualidade em Portugal durante o Estado Novo e Raquel Afonso, com o seu estudo, dá um excelente contributo para colmatar essa falha. Destaca-se a metodologia interdisciplinar, onde cruza a Antropologia com a História, tendo recorrido a entrevistas a sujeitos protagonistas da época, realizadas pela própria, e a uma base bibliográfica teórica sobre a temática muito consistente.
Destacam-se as seguintes conclusões da autora: que a repressão da homossexualidade durante o Estado Novo não era igual para todos. A questão de classe está sempre subjacente ao nível de repressão - ou não - pelo regime, aquilo a que a autora chama de "níveis de permissividade diferenciados", mas, também, ao nível do género: a homossexualidade masculina era muito mais reprimida que a feminina, quer seja pelo desconhecimento do lesbianismo, quer pelas concepções estadonovistas e patriarcais sobre o papel da mulher na sociedade.
A autora aborda ainda a questão da liberdade sexual e do 25 de Abril, cuja conclusão, mais evidente e esperada, é que o golpe militar que desencadeou a revolução não concedeu, de imediato, as liberdades públicas para os homossexuais ou proporcionou a mudança de mentalidades, o que só ocorre muitos anos depois. Essa luta estamos ainda a travá-la. Aponto, no entanto, que a autora podia fazer alguma crítica bibliográfica no início do seu trabalho, por exemplo, ao estudo de São José Almeida (2010), com muitas debilidades metodológicas, ao qual António Araújo dedicou uma crítica: http://malomil.blogspot.com/2011/12/d....
Um livro tão importante para preservar as memórias das pessoas lgbt durante a ditadura, um tema praticamente não abordado. "É preciso lembrar para não se repetir".