O Portugal que se autocelebrou em 1998 não imaginava o que seria o novo milénio, não poderia conceber algo como os ataques terroristas às Torres Gémeas, a «Guerra das Civilizações», a ocorrência da maior crise financeira depois da grande depressão, em 2008, ou a ascensão dos nacional-populismos. O Portugal que se autocelebrou em 1998 vivia antes da entrada da China na Organização Mundial do Comércio, do alargamento da União Europeia aos países de Leste ou da introdução do Euro. Assim sendo, o Portugal que se autocelebrou em 1998 vivia uma globalização feliz. Vivia de bem consigo mesmo, democrático e europeu, e dava-se de presente a renovação de uma parte esquecida da sua capital (a zona industrial transformada em Expo ’98) e a ponte mais longa da Europa (a Ponte Vasco da Gama). Neste volume, interpretamos o ano-charneira com que Portugal julgou ter fechado o segundo milénio com chave de ouro.
JOSÉ MANUEL VIEGAS NEVES nasceu em Lisboa em 1978. Licenciado em História (2001) e doutorado em História da Cultura no Período Contemporâneo, pelo ISCTE-IUL (2008). É Professor Auxiliar no departamento de História e Subdiretor para o Planeamento e Infraestruturas da FCSH‑UNL, investigador do Instituto de História Contemporânea (IHC-FCSH/UNL), do qual foi Presidente, e foi director da revista Práticas da História, Foi Professor Visitante no Departamento de História do King's College - Universidade de Londres (2011-2012) e Director-Adjunto (área da História) da revista Análise Social (2011 - 2014). Ao longo dos últimos anos, tem-se interessado sobretudo por três áreas de debate e de estudo: a história do comunismo, os estudos sobre nacionalismo e a história do desporto. Entre outras publicações, escreveu o livro Comunismo e Nacionalismo em Portugal. Política, Cultura e História no século XX e coordenou as obras Como se Faz um Povo. Ensaios para a História do Portugal Contemporâneo e, com Bruno Peixe Dias, A Política dos Muitos. Povo, classes e multidão. Em 2002 recebeu o Prémio Gulbenkian de Estímulo à Investigação, que lhe permitiu investigar a «questão colonial» na história do Partido Comunista Português. Finalmente, no quadro da sua militância política, tem ainda tomado parte em debates intelectuais em torno do pensamento radical contemporâneo. Neste contexto, organizou um volume de textos intitulado Da Gaveta para Fora – Ensaios sobre Marxistas.
José Neves toma como ponto de partida 1498, ano esse que esteve em destaque em 1998; é uma opção que lhe permite discutir uma das questões mais relevantes em 1998, o ano à volta do qual o presente volume gira: a relação de Portugal com o mundo.
Os estudos sobre os nacionalismos são uma das áreas de predilecção do autor (pp. 86–87) e, nesta abordagem de projecção internacional, o nacionalismo, enquanto identidade nacional que se forma dentro do país, mas também em oposição ao que está para lá do país, é especialmente relevante.
Outro aspecto abordado, tal como se esperaria de um livro sobre eventos históricos tão recentes, é a teoria da história, e para isso muito contribui a secção final do livro, Bibliografia, em que podemos ler uma “Nota sobre as leituras realizadas”. Nesta secção são feitas as recomendações bibliográficas mais significativas para interpretar este período histórico e ela torna evidente a preocupação na fundamentação bibliográfica.
A ideia com que conclui salienta a importância dos processos, contrastando-os com os acontecimentos, na pág. 87: «tenho para mim que cabe ao historiador escrever não apenas sobre os acontecimentos e protagonistas que fazem a história de um país, mas também sobre os processos que fazem esse mesmo país constituir-se e reproduzir-se enquanto entidade histórica, assim como sobre o modo por que as sociedades se relacionam com o seu próprio tempo histórico.»
Efectivamente, parece-me que as figuras de Vasco da Gama, Camões, António Ferro, Salazar, George W. Bush, António Guterres, Cavaco Silva, Jorge Sampaio, Zinedine Zidane, José Sócrates, José Saramago, entre outras, são referidas para exemplificar a clarificar os processos históricos, frequentemente de forma cabal.
Outras vezes, gostaria de um mais aprofundamento daquilo que afirmado. A título de exemplo, um dos conceitos que é mais interessante, o de formação e transformação da identidade nacional portuguesa, está pouco fundamentado; ou pelo menos eu não o pude perceber de forma satisfatória: na página 19, podemos ler: «Sensivelmente até finais do século XIX, a identidade nacional portuguesa esteve em grande medida confinada às elites políticas e intelectuais do país.» Depois, explica-se como se transforma «a formação da nação enquanto comunidade imaginada» (pág. 20), incluindo interessantes observações sobre o papel dos jornais e sobre como «o processo de construção das identidades nacionais foi e é mais internacional do que as histórias nacionais e os mitos nacionalistas sugerem» (pág. 21). Contudo, não há considerações sobre como se formava a identidade nacional antes do séc. XIX, o que penso que seria aqui crucial, até porque a Paz de Vestefália, de 1648, é apresentada como um desses elementos das relações internacionais importantes para a identidade nacional.
A linguagem utilizada ao longo do livro é rigorosa e muito correcta — o autor é claro e foi feito um bom trabalho de revisão —, mas é, algumas vezes, algo opaca, complexificando com a linguagem aquilo que deveria ser simples, talvez com o intuito de disfarçar um posicionamento histórico relativamente a acontecimentos recentes, talvez por excesso de zelo; o maior problema, do meu ponto de vista, deste «tom historiador», é que lhe dá um tom insípido e obriga à releitura de algumas frases para clarificar o seu sentido.
Outra impressão menos positiva com que fiquei é a de que há uma concentração na região de Lisboa, que não é benéfico para o volume como um todo. O autor reconhece-o nas páginas finais (pág. 86), salvaguardando que procurou não ser indiferente outros elementos que vinha nomeando.
O grande mérito deste volume é que transmite, a partir de diferentes perspectivas, a transformação sofrida por Portugal no último quartel do século XX e (poderíamos dizer inevitavelmente, mas isso retiraria o mérito ao autor) sofrida pelo mundo. (Em particular, é verdade, o mundo Ocidental, o que se auto-justifica por ser o panorama internacional em que Portugal imediatamente se insere, mas com referências a outros continentes.) A título de exemplo, algumas perspectivas são: perspectivas críticas sobre a celebração dos «descobrimentos», a alienação da etnia cigana da Expo 98, as populações deslocadas, e a precarização (e algum combate à mesma) dos trabalhadores que construíram a Expo 98. A este evento é, ao fim e ao cabo, dado o principal mérito, na interpretação que consigo fazer do livro, mas um mérito mais simbólico do que efectivo, de traduzir uma visão de mudança positiva em relação ao mundo anterior a ela: alguma pioneirismo na chamada de atenção para a problemática ecológica, a valorização do conhecimento e da tecnologia em detrimento da industrialização, a aposta na educação e na ciência, e uma maior consciência da relação com o mundo que está além de nós: os oceanos e os animais.
É um livro que merecerá uma releitura, a seu tempo, para clarificar a sua intrincada teia de relações, e justamente porque destecê-la é perceber melhor de onde vimos, como viemos, onde estamos e como é o nosso presente.
José Neves mergulha no ano de 1998, aquele em que os portugueses se consideraram europeus de pleno direito.Mas a análise da Expo98 vai mais fundo: o novo nacionalismo português e o conhecimento; a interpretação pós-colonial dos Descobrimentos; a história dos sem história e que cujas casas foram removidas aquando do evento para dar espaço a uma nova cidade; as reacções dos antigos colonizados indianos e brasileiros às comemorações portuguesas ("anticomemorações", p.76). Concluo com o aspecto que me parece mais inovador neste volume: a afirmação de que os anos pós 1974 já podem ser objecto da história (p.84).