Principais trechos:
* [Weber] 1)Uma pluralidade de pessoas tem em comum um componente causal específico de sus oportunidades de vida, na medida em que 2) este compenente está representado, exclusivamente, por interesses econômicos, de posse de bens e aquisitivos, e isso 3) em condições determinadas pelo mercado de bens ou de trabalho ("situação de classe") 9
* Ainda que sem utilizar a mesma terminologia, foi disso que Marx tratou em uma série de artigos acerca do debate legislativo na assembleia provincial romana de 1841 sobre o tema "roubo de madeira". Indignado com uma legislação que criminalizava não apenas o corte de madeira nas flroestas resguardadas como propriedades privadas mas também a coleta de galhos e gravetos caídos, atingindo os camponeses pobres da região, Marx avançou para uma crítica do sentiodo de classe da lei e do Estado, sob o domínio dos interesses da pripriedade privada e dos proprietários. 19
* [Marx] e, com isso, sem emancipar todas essas esferas - uma esfera que é, numa palavra, a perda total da humanidade e que, portanto, só pode ganhar a si mesma por um reganho total do homem. Tal dissolução da sociedade, como um estamento particular, é o proletariado. 20
* [Marx] Como criador de valores de uso, como trabalho útil, o trabalho é, assim, uma condição de existência do homem, independente de todas as formas sociais, eterna necessidade natural de mediação do metabolismo entre homem e natureza e, portanto, da vida humana. 29
* [Marx] Sob o aspecto da matéria, isto é, do modo como esta funciona no processo de produção, todo capital se divide em meios de produção e força viva de trabalho; essa composição é determinada pela proporção entre a massa dos meios de produção empregados e a quantidade de trabalho exigida para seu emprego. Chamo a primeira de composição de valor e a segunda, de composição técnica do capital. Entre ambas existe uma estreita correlação. Para expressá-la, chamo a composição de valor do capital, porquanto é determinada pela composição técnica do capital e reflete suas modificações, de composição orgânica do capital. Onde se fala simplesmente de composição do capital, entenda-se sempre sua composição orgânica. 35
* [Marx] Quanto maiores forem a riqueza social, o capital em funcionamento, o volume e o vigor de seu crescimento e, portanto, também a grandeza absoluta do proletariado e a força produtiva de seu trabalho, tanto maior será o exército industrial de reserva. A força de trabalho disponível se desenvolve pelas mesmas causas que a força expansiva do capital. A grandeza proporcional do exército industrial de reserva acompanha, por, o aumento das potências de riqueza. Mas quanto maior for esse exército de reserva em relação ao exército ativo de trabalhadores, tanto maior será a massa da superpopulação consolidada, cuja miséria está na razão inversa do martírio de seu trabalho. Por fim, quanto maior forem as camadas lazarentas da classe trabalhadora e o exército industrial de reserva, tanto maior será o pauperismo oficial. Essa é a lei geral, absoluta, da acumulação capitalista. Como todas as outras leis, ela é modificada, em sua aplicação, por múltiplas circunstâncias 37
* Na quarta parte do capítulo, antes de enunciar a "lei geral", Marx apresenta sua conhecida taxonomia das "diferentes formas de existência" da "superpopulação relativa". São basicamente três: flutuante, latente e estagnada. A primeira corresponde ao fluxo contínuo de atração e repulsão dos trabalhadores nos "centros da indústria moderna - fábricas, manufaturas, fundições e minas etc.". Já a segunda forma, a latente, corresponde à constante disponibilidade de trabalhadores do campo, "liberados" (proletarizados) pelo avanço da agricultura propriamente capitalista, gerando tanto uma superpopulação latente no próprio campo, cujo fluxo para os centros urbanos acaba por ser - quando possível - uma compulsão fortíssima, diante dos baixíssimos salários e do pauperismo rurais. Por fim, a terceira categoria, a estagnada, é composta do setor ativio da classe trabalhadore que desempenha as ocupações mais irregulares, como trabalho domiciliar, por jornada, etc. 38
* [formas ideológicas pelas quais os homens tomam consciência deste conflito]
Um dos marxistas que mais fizeram avançar o debate sobre essas formas ,mediante as quais os grupos humanos tomam consicência dos conflitos, foi o líder revolucionário italiano Antonio Gramsci. Jan Rehmann observou que os exercícios de tradução que Gramsci fez em seus escritos carcerários se iniciaram justamente pelas Teses sobre Feuerbach e pelo prefácio supracitado. Em uma alteração interessante na tradução, Gramsci verteu para o italiano "as formas ideológicas pelas quais os homens tomam consicência" como "as formas ideológicas em cujo terreno os homens tomam consciência", enfatizando a materialidade do "terreno ideológico". 46
* Sintetizando os Manuscritos, Mészáros observa que o complexo conceito-chave de alienação tem, na obra de Marx, quatro aspectos principais: "a) o homem está alienado da natureza; b) está alienado de si mesmo (de sua própria atividade); c) de seu 'ser genérico' (de seu ser como membro da espécie humana); d) o homem está alienado do homem (dos outros homens)" 49
* [Marx] "Assim como a filosofia encontra suas armas materiais no proletariado, o proletariado encontra na filosofia suas armas espirituais, e tão logo o relâmpago do pensamento tenha penetrado profundamente nesse ingênuo solo do povo, a emancipação dos alemães em homens se completará" 55
* Do ponto de vista das opressões de gênero, há que se reconhecer que as relações entre gênero e classe - ou, dito de outra forma, entre capitalismo e patriarcado/ opressão das mulheres - foram muitas vezes negligenciadas ou secundarizadas pelas análises marxistas, assim como pelas organizações socialistas, contribuindo para o predomínio de um divórcio entre a maioria das análises sociais e perspectivas de luta de marxistas e feministas. 58
* [Abigail Bakan] O racismo é um conjunto de ideiais e práticas institucionais que atribuem divisões de superioridade/ inferioridade de acordo com um conjunto determinado e construído de características biológicas e/ou culturais que são falsamente consideradas como inerentes e permanentes aos subgrupos humanos. O racismo é variável e adaptável, mas se provou notavelmente valioso para os interesses capitalistas e imperialistas através dos séculos. Categoriais espec´ficas sugeridas aqui nessa estrutura de análise são o racismo como codificações de alienção, onde a alienação é articulada como hegemonia branca; o racismo como opressão específica; e o privilégio racial como um categoria historicamente concreta que precisa ser localizada em contextos vividos específicos. 68
* Daí a importância de abordagens como a proposta pela teoria feminista/ marxista unitária, que percebe a elaboração de Marx como "crítica de uma totalidade articulada e contraditória de relações de exploração, dominação, e alienação", para propor a necessidade integração na análise das dimensões produtiva e reprodutiva do trabalho sob o capital. Dessa forma, pode ser possível " interpretarr as relações de poder baseadas em gênero ou orientação sexual como momentos concretos daquela totalidade articulada, complexa e contraditória que é o capitalismo contemporâneo" 68
* É o caso da afirmação de Marx segundo a qual "acumulação do capital é, portanto, multiplicação do proletariado", que é confirmada globalmente pelo crescimento da força de trabalho disponível para a exploração capitalista, acelerada nas últimas décadas. O contingente de mais de 3 bilhões de pessoas ocupadas é complementado por mais de 200 milhões de desempregado,s confirmando também outra teses marxiana relacionada à "lei geral da acumulação", aquela que afirma que "toda a forma de movimento da indústria moderna deriva, portanto, da transformação constante de uma parte da população trabalhadora em mão de obra desempregada ou semiempregada" 90
* O recurso às observações de Marx também nos permite explicar de forma mais satisfatória o aparente descompasso apontado pela OIT por meio da constatação de uma "crescente divergência entre os ganhos do trabalho e a produtividade, com a última crescendo mais rápido que os salários na maior parte do mundo". Mais que um descompasso, essa é a própria lógica sistêmica da acumulação capitalista que Marx explica em sua obra. 91
* A terminalidade do trabalho decorreria de uma "ditadura do trabalho morto". As transformações tecnológicas em curso decretariam o fim da possibilidade de qualquer utopia baseada no trabalho (e, portanto, nos trabalhadores, também eles condenados a perecer). As distinções categoriais entre trabalho produtivo (que gera mais-valor) e improdutivo (que não gera mais-valor), assim como entre trabalho concreto (criador de valores de uso, sociometabolismo da humanidade com a natureza etc.) e trabalho abstrato (produtor de valores de troca, subsumido ao capital, estranhado/alienado etc), presentes na obra de Marx, são desprezadas por uma análise desse tipo. 98
* Marx explicita uma definição de classe em que sua consciência e sua ação coletiva (sua subjetividade, entendida como práxis do sujeito social) superam, ou podem vir a superar, os limites impostos pela lógica do capital. Porém, longe de perceber as lutas dos trabalhadores por melhores salários ou pela redução da jornada de trabalho como elementos que, em última análise, estimulam o desenvolvimento do capital, Marx atribui-lhes um potencial muito mais amplo, justamente porque seu conceito de classe social tem uma dimensão política, cuja relação com a totalidade estrutural do modo de produção capitalista é muito mais complexa. 105
* István Mészáros, numa crítica bem mais contemporânea ao capitalismo atual, mas também à construção societária que se segui à Revolução de 1917 na Rússia, caminha no mesmo diapasão ao reconhecer o caráter contraditório do papel do proletariado como potencial sujeito de uma transformação histórica que, em última análise, significa sua extinção, pois, recorrendo a Marx, "mesmo a 'classe-para-si', na oponião de Marx, só pode existir na pré-história. Ele sempre insiste na necessidade de transcender as classes como condição fundamental para fazer a 'verdadeira história'. 108
* A crítica às teses do fim do trabalho ou da caducidade da afirmação do proletariado como sujeito revolucionário apoia-se em farto debate no campo da teoria social, resenhando e apresentado em sua melhor dimensão no Brasil pela obra do sociólogo Ricardo Antunes. 109
* [Bensaïd] O dogma do trabalho libertador e a profecia do final do trabalho têm em comum sua unilateralidade. O primeiro só considera a dimensão antropológica do trabalho, abstraindo seu caráter historicamente determinado. O segundo só leva em consideração seu caráter concratmente alienado e alienante, abstraindo suas potencialidades criadores. Na realidade, na "imbricação da ação e do trabalho", as dimensões antropológicas e históricas estão estreitamente combinadas. Ainda que a alienação domine o trabalho assalariado há, ao mesmo tempo, um processo de socialização "forçosamente ambivalente". [...]Não se trata de negar essa contradição, mas de se instalar nela para trabalhá-la. Por trás do trabalho imposto persiste, ainda que de forma débil, surda, essa "necessidade do possível", que diferencia a atividade humana da plenitude simplesmente vegetativa. É o sinal, mesmo de sua finitude e de sua capacidade para "ir mais longe", para melhor ou para pior. 113
* Desse ponto de vista, a precarização como regra só pode ser vista como novidade se for abstraída a longa trajetória histórica da classe trabalhadora, desde o tempo de Marx. As possibilidade de iminuir seu impacto sobre a expsriência da classe trabalhadora dependeram sempre de condições históricas específicas, sob as quais a dinâmica desigual e combinada da expansão do capital e a luta de classes têm peso significativo. Nessa linha de raciocínio, em um ensaio crítico em relação ao trabalho de Standing e de outras análises do precariado como "nova classe", Bryan Palmer expõe uma caracterização do proletariado que valoriza a expropriação/desapossamento. Palmer apresenta a expropriação - mais que a condição do mercado de trabalho, a formalização e o setor econômico do emprego, a renda ou mesmo a relação salarial - como o elemento constante de uma classe que foi desde sempre caracterizada pela heterogeneidade e precariade. 114/115
* A LCS, entretanto, não foi a única nem a principal refer~encia de organização da nova classe trabalhadora que se formava naquela virada para o século XIX. Na Inglaterra, depois da aprovação dos Combination Acts (1799-1800) , que suprimiram o direito de associação, foram surgindo, progressivamente, outras formas de organização dos trabalhadores, inicialmente ilegais. Após a conquista do direito de associação (com a revogação dos Combination Acts, em 824), disseminaram-se os sindicatos, lá conhecidos como trade unions. 124
* Ainda em relação à América Latina, foi com a chamada "teoria da dependência", em sua versão marxista, dos anos 1960, que o estudo do caminho espefício mas subordinado de desenvolvimento capitalista nesse espaço periférico começou a libertar-se de forma mais incisiva das tentativas de reprodução do modelo europeu de evolução dos modos de produção. Um dos mais expressivos representates dessa perspectiva foi Ruy Mauro Marini. No que interesse à discussão neste livro, uma das mais importantes sugestões apresentadas pela teoria marxista da dependência tal como desenvolvida por Marini diz respeito às especificidades da exploração do trabalho na periferia capitalista. Premido pela dependência em relação ao imperialismo, um capitalismo periférico como o brasileiro só poderia desenvolver-se extraindo uma quantidade suficientemente elevada de mais-valor, de forma a garantir não só a reprodução do capital internamente mas também a remuneração do capitalismo central, em uma espécie de compensação por suas desvantagens relativas. Essa "transferência de valor" se realizaria, segundo Marini, por meio das "trocas desiguais" que caracterizam o comércio externo (e as remessas de lucros das multinacioanis, pagamento de royalties por patentes, financiamentos externos etc) entre uma economia dependente, com menor composição orgância de capital, e as economais centrais imperialistas. Para compensar essa apropriação externa é necessário, portanto, perenizar formas de "compressão do salário abaixo de seu valor", próprias das economias dependentes, para além das formas de ampliação "relativa" (sempre limitadas pela produtividade inferior à dos países centrais) e "absoluta" do mais-valor. 139