Em O patriarcado do salário, a filósofa contemporânea Silvia Federici apresenta uma formulação do pensamento feminista materialista sob perspectiva marxista. A obra, composta por sete artigos, explora a relação entre trabalho reprodutivo, sexualidade e convivência de classe, além de abordar o movimento ecológico e a construção simbólica do trabalho no contexto capitalista contemporâneo.
Desde as primeiras páginas, deparamo-nos com uma constatação inevitável: Federici se revela uma intelectual de grande voracidade acadêmica, mobilizando vasta bibliografia, dados e análises de modo a estabelecer uma coautoria simbólica com o leitor. Essa característica, entretanto, não se encontra isenta de limitações. O tom professoral da autora, por vezes, conduz à formulação de propostas e soluções que, ou são de difícil aplicabilidade no campo prático das relações sociais sob o neoliberalismo vigente, ou se configuram como utopias desprovidas de sustentação material efetiva.
Outro aspecto problemático refere-se ao caráter anacrônico de determinadas metodologias empregadas, que parecem não acompanhar plenamente as transformações sociais e epistemológicas mais recentes. Esse tensionamento se intensifica na medida em que Federici constrói suas análises a partir da matriz marxista, particularmente da obra de Karl Marx, mas sem superar por completo as limitações e lacunas que emergem dessa apropriação crítica.
Assim, nota-se uma falta de sincronia entre o texto original marxiano, a interpretação de Federici e o produto final de sua elaboração teórica. Essa defasagem gera uma escrita que, ao mesmo tempo em que é potente em termos reflexivos, apresenta inconsistências ao se projetar sobre a realidade contemporânea.
Em síntese, O patriarcado do salário constitui uma obra instigante, de leitura proveitosa e fértil para fichamentos e discussões acadêmicas, ainda que exija do leitor um olhar crítico frente às tensões e limitações internas ao projeto intelectual de Federici. A obra, portanto, reafirma sua relevância, mas também evidencia a necessidade de percursos teóricos anteriores e de uma experiência de leitura consolidada para que se possa extrair plenamente suas especificidades e singularidades analíticas.