Todo Mundo tem uma Primeira Vez é um livro de contos, 6 contos de 6 autores brasileiros.
Sete Frases que Poderiam Mudar Tudo (Vitor Martins) - Um conto leve sobre primeiras vezes de um namoro, inclusive o primeiro término. Acredito que todo mundo vai se identificar pelo menos um pouco com essa história. 3 estrelas
Dança comigo? (Olívia Pilar) - Um conto de representatividade lésbica e bissexual importante já apenas por isso, uma vez que não temos muitos personagens desse espectro na nossa literatura. No entanto, a história deixou muito a desejar. Acredito ser um daqueles famosos casos em que ela não coube no formato de conto, se passa em um período de tempo muito grande e acabou não focando em nenhum acontecimento muito marcante, ficou tudo muito geral. 2 estrelas
O Melhor de Todos (Jim Anotsu) - De fato o melhor de todos os contos. Além das partes técnicas perfeitas, de como o autor desenvolveu com maestria uma história incrível com desenvolvimento de personagens, plot twists e lições sociais no formato de um conto, temos uma história cem por cento brasileira, que se passa em dois momentos marcantes da cultura brasileira, contada de modo verdadeiramente tocante. Ao longo da leitura eu lembrava de quando eu era criança e assistia com a minha família pela tv à corrida de formula 1 de 2008, o desfecho dessa história me fez, depois de anos, rever os meus sentimentos daquele dia sobre aquela vitória. E só essa ideia ," O que se tem pra rever sobre os sentimentos daquele dia?" já não lhe parece algo extremamente curioso e interessante? 5 estrelas e favoritado
O Herói na Sala 307 (Fernanda Nia) - Um conto leve, divertido e criativo sobre fake news (e só por isso muito relevante considerando o atual contexto político brasileiro), a primeira vez que você dá conta que é muito fácil mentir e inventar histórias na internet e que devemos desconfiar de toda e qualquer informação que nos passem. 5 estrelas
Confissões (Bárbara Morais) - Uma história lindinha sobre amizade (sem nenhum pingo de romance, da pra acreditar?) com um quê divertido sobrenatural. A personagem principal aqui é alguém com uma personalidade muito destacante e diferente do que costumamos ver, e eu adoraria ler outras histórias com ela, pena que o final ficou muito corrido. 4 estrelas
Cangoma (Ale Santos) -Em uma palavra: POLÊMICO. Gente, o que foi isso? Meus sentimentos estão muito confusos com relação a essa história, eu acho que poderia escrever um artigo inteiro sobre ela. Primeiramente sobre o mundo criado, o autor escolheu um cenário futurístico distópico, se utilizando de algumas palavras novas para se referir as tecnologias desenvolvidas, o que entendo já pode fazer muitos leitores se afastarem da história, mas particularmente é um cenário que adoro, e achei que todo esse mundo foi perfeitamente introduzido nesse único conto. Focando apenas na história desenvolvida e na mensagem que interpretei dela achei tudo de uma coragem incrível, mas também muito perigoso, e até , talvez, meio imprudente (?). Vou explicar: O conto é a história de um menino que vive em uma comunidade muito pobre e majoritariamente negra (pelo que entendi são as favelas futurísticas). Esse garoto vive de acordo com as leias implantas pelo governo (ou seja, a galera branca e rica do centro) e almeja alcançar uma vida melhor e sair dessa comunidade através de seus esforços nos estudos. Ele sabe que sua comunidade está em constante revolta e guerra contra o governo devido ao desprezo e as contantes repreensões dirigidas a eles, alem de, nesse mundo existir um sistema de escravidão baseado em dívidas (bem parecido com um que já vimos na história real), no entanto, o protagonista despreza qualquer atitude fora da leia. Até que ele próprio é alvo de uma atitude (em grande escala) de preconceito e desumanização, e toma parte na revolta. Eu sempre discuti com meus amigos sobre como algumas revoltas urbanas são totalmente compreensíveis (e portanto até aceitáveis?) por não serem apenas atos de violência, mas sim reações de pessoas por gerações oprimidas, e ainda sou dessa opinião, não é apenas violência é reação do oprimido. E é basicamente essa a história do conto, o estouro de uma revolta sanguinolenta do ponto de vista dos oprimidos, marginalizados e desprezados. No final eu entendi a narrativa quase como um chamado à revolta," se rebelem!", e eu achei essa proposta muito perigosa, pois, imaginem só um adolescente inspirado nessa história resolver enfrentar a polícia e acabar com um tiro na testa? Sem contar que um chamado para causar uma guerra já é uma ideia pesada por si só, ainda que a condição de vida dessa comunidade antes da guerra também seja algo muito pesado e desumano, só não tão visível (?) quanto uma guerra (está vendo? é confuso, complicado!). No final o autor também passa a mensagem de que " não existe nada mais revolucionário ou rebelde do que se manter vivo e ter ambições em um mundo que te odeia", mas ainda assim, acredito que a mensagem mais forte foi esse chamado pra rebelião.
Há também os elementos de cultura indígena e africana que o autor usou pra representar o grupo rebelde, os Malungos, que, pra mim, casou muito bem com o cenário futurista e deu um toque muito mais interessante à história, acrescentando um sentimento e uma força ancestral a toda rebelião que ocorria na história. No entanto o estouro da revolução no final me pareceu ter acontecido de modo muito rápido, o protagonista saiu do prédio e tudo já estava um caos.
Preciso comentar que toda a história me lembrou um pouquinho aquele filme brasileiro de 2019 "Bacurau", alem de personagens entre os quais acredito podermos traçar paralelos, as duas narrativas se trata de uma comunidade pequena e muito bem instruída que se revolta de modo bem sanguinolento contra um outro grupo de pessoas que estavam assassinando as pessoas e sua vila, e eles estavam errados em reagir de tal modo? Quem eram os vilões nessa história? A comunidade só estava se defendendo, não acham? Não sei quantas estrelas dar! 4, mas com muitas ressalvas?