Quando nada havia para meter na panela de barro, anichada ao canto da chaminé debaixo da trempe de ferro, Maria, protegida pelo lusco-fusco, conseguia ludibriar a patrulha da G.N.R. que, a cavalo, se escondia junto das veredas por onde circulavam vultos de regresso a casa e, tateando com as duas mãos no chão, apanhar algumas boletas, alimentação reservada a porcos, proibida à boca de farrapos humanos. Cozinhava-as com folhas de funcho ou erva-doce para enganar a fome impiedosa que exigia ser contentada. Se a ladra fosse apanhada, seguiria com o produto do roubo à cabeça, entre as duas bestas, até à sede do latifúndio. Na presença do dono daquilo tudo, provocada, humilhada, pediria mil perdões pelo crime cometido, juraria mil vezes não voltar a apanhar o fruto proibido a que só os suínos tinham direito. Maria deveria saber que a natureza criou a boleta para os porcos e os porcos nasceram para a boleta...
Francisco Cantanhede é licenciado em Ciências Históricas. Foi professor de História (3.º ciclo) e de História e Geografia de Portugal (2.º ciclo) durante mais de 25 anos, encontrando-se na situação de aposentado. Autor de manuais escolares de HGP e História, há mais de 20 anos. Formador de professores no âmbito da didática da História. Tem participado com comunicações em escolas básicas e secundárias, nomeadamente, sobre o Estado Novo e o 25 de Abril de 1974, e em colóquios sobre educação. Colabora com o Jornal o Setubalense – Diário Região com artigos de opinião.
Mais que uma leitura, mais que um livro, tratou-se sobretudo de uma viagem no tempo. Revejo-me tanto nesta narrativa, recordei tantas histórias (reais) que is meus avós me contavam. Também eu próprio vivi situações muito semelhantes, embora eu tenha nascido já na "primavera marcelista", ainda senti muito do que era a repressão do Estado Novo. A história que nos é contada, acompanha uma família que sobrevive trabalhando de sol a sol num latifúndio do concelho de Montemor: A Quinta da Torre. Revisitamos o 28 de Maio de 1926 e a chegada do "mago das finanças" ao poder. Primeiro com a pasta das finanças, depois como presidente do conselho de ministros, e foi ficando ... ficando... ficando... Acompanhamos o logro das presidenciais de 1958 em que o "General sem medo" vence as eleições mas é nomeado Presidente da República Américo Tomás após uma fraude eleitoral. Acompanhamos o assassinato do General Humberto Delgado às mãos da PIDE e a mando de Salazar, apenas porque pensava diferente e era considerado um perigo real para o regime. São muitas histórias de miséria e de sobrevivência do povo alentejano que tão esquecidos foi durante tanto tempo. Felizmente que, uns anos mais tarde, outra primavera chegou e com ela muitas promessas de um futuro melhor para todos, onde todos possam caber, onde todos têm o direito de pensar em liberdade. Muitas promessas estão ainda por cumprir mas a diferença é abismal. Naqueles tempos, tal como hoje, quem lê tem sempre uma vantagem enorme. Tem à sua frente a capacidade de por em prática a liberdade que está dentro de nós no instante em que nascemos e que nos vai sendo retirada ao longo das nossas vidas.