Demorei muito pra ler esse, por causa do mito em torno de “ah, é a Colette dando passos para trás, nesse a Renée casa e isso desmente toda a trajetória de libertação de La Vagabonde.”
Pois me surpreendeu muito positivamente. Claro que, em se tratando da Colette, não ia ser uma simples adesão ao casamento como instituição. Não se trata da “negação” das “conquistas de liberdade” de La Vagabonde, mas um outro lado do pêndulo do amor/erotismo/desejo, cujo movimento é a própria obra de Colette.
Amar é se colocar em risco. Renée sabe disso e oscila entre o seu desejo por fluidez/liberdade/arte/vida/mundo e o desejo erótico/romântico, que não deixa de ser uma das faces do primeiro. Ela sabe que amar é se perder, então foge do amor. Ela tende a ser, no amor, o que o outro quer dela: uma prisão que ela mesma constrói para si — e que não é a “social” da “mulher presa pela casamento”, embora, por vezes, se confunda com ela. Aqui, acho que ela ama alguém livre como ela, sem a crueldade infiel de Taillandy, sem a possessividade de Max. Jean é um espelho do que Renée poderia ser se fosse homem: ele pode continuar a ser vagabond e amá-la. Ela, não. Precisa, mudada, tornar-se sua “seconde”.
O casamento não é um final feliz, não por não ser feliz, mas por não ser um final: não acreditamos em Renée quando ela diz que seus dias de vagante terminaram — as oscilações, o movimento são a personagem.
Só em uma leitura muito superficial pode ser visto como negação do “grande texto feminista” que é La Vagabonde. Primeiro que La Vagabonde não é tão “revolucionário para a época” como se pensa. Em um momento em que as mulheres tinham alguns direitos sociais — sobretudo essas, francesas brancas de classe média na belle époque —, a questão da obra da Colette é: como se relacionar com homens, como se eles fossem iguais? O que fazer com essas tensões do desejo, do amor e, claro, do dinheiro, da posição social?