“Dizem que o dinheiro não muda ninguém, apenas desmascara; e é num mundo sem máscaras que as predileções humanas ficam mais claras.” Esta é a síntese de um romance em que dois narradores privilegiados se alternam para contar cada um a sua história. Um deles é Egydio, herdeiro de uma empresa de navegação, que cumpre pena em prisão domiciliar após ser flagrado por uma força-tarefa da Polícia Federal; a outra é Marilu, espécie de arrivista em busca da imagem perfeita, mergulhada num presente frenético e incerto. São personagens que não buscam a simpatia do leitor, pelo contrário. Mas seu encanto está justamente no que neles há de corrompido. É necessário considerar as nuances da escrita ― a meio caminho entre a paródia e a crítica, procurando abarcar um contexto muito mais amplo, o do Brasil desse início de anos 2020 ― para que se possa adentrar no coração desta que, sem dúvida, é uma das estreias literárias mais corrosivas e corajosas dos últimos anos.
MARCELO VICINTIN nasceu em São Paulo, em 1981. É formado em administração de empresas pela FGV EAESP, com MBA pelo INSEAD, na França. Nos últimos quinze anos, trabalhou em diversas empresas no Brasil e exterior. Fundou em 2015 a empresa de energia solar Axis Renováveis. As sobras de ontem é o seu primeiro romance.
Se você quer ler um relato ficcional sobre a elite paulistana contemporânea, dar risada e refletir, esse é o livro certo. Cheio de sarcasmo, o humor do texto nos ajuda a digerir o estranho mundo e as digressões das personagens.
O livro é interessante, o tema é pertinente, e é interessante notar que a literatura brasileira começa a se dedicar a relatos mais próximos de nosso momento atual. No entanto, pode ser que eu esteja sendo muito exigente, mas notei uma certa insegurança narrativa, uma falta de uma literatura mais robusta. Nada que impeça a leitura, mas com certeza este autor vai melhorar em seus próximos romances.
Ambientado em 2018, este romance é narrado por dois personagens: Egydio, um empresário milionário, beirando os 40 anos, de família aristocrática, que está cumprido prisão domiciliar após ser condenado por corrupção, e Marilu, uma bonita e cabeça-oca alpinista social que está beirando os 30 anos.
Consumido pelo tédio, Egydio passa seus dias remoendo lembranças do passado, tentando encontrar justificativa para seus atos, enquanto planeja um suntuoso banquete clandestino que pretende dar em seu apartamento.
Os capítulos narrados por Marilu são excertos de seu diário, abordando diferentes fases da sua vida, desde a adolescência até os dias atuais, passando por seus relacionamentos, suas diversas tentativas de se dar bem na vida sem fazer muito esforço.
São personagens, em geral, detestáveis, que não despertam simpatia do leitor, embora ao mesmo tempo tenham um certo charme escondido em suas visões ácidas e irônicas do mundo. Egydio, em especial, é um egocêntrico obcecado por poder e controle, lembrando muito Patrick Bateman, o protagonista de "Psicopata Americano" (inclusive, essa comparação é feita, de maneira muito pertinente, por um personagem secundário em determinada altura de "As Sobras de Ontem".
A partir dessas narrativas, que se cruzam levemente ao longo do romance, o livro expõe de maneira ácida e afiada os podres da elite brasileira, em especial a elite paulistana. Através dos protagonistas e do mundo que os cerca, testemunhamos a decadência moral da alta sociedade brasileira, num retrato que pode parecer até caricato para alguns, mas que me pareceu tristemente verossímil.
Sem querer fazer comparações, mas é um livro que, na minha visão, dialoga bastante com meu romance "Tudo o Que Poderíamos Ter Sido". Egydio é uma espécie de "César on steroids", e Marilu é uma espécie de "Lola menos ingênua". Também por isso, mas não apenas por isso, curti muito essa leitura. E o mais impressionante é que essa é a estreia de Marcelo Vicintin na literatura; estrear já de cara com um romance pela Companhia das Letras não é pra qualquer um.
É um livro com uma história crível, porque é cotidiana em nossa crônica nacional. Muitos lhe concedem qualidade pela posição “insider” tanto do narrador, quanto do escritor, como se falar da elite brasileira - especialmente a decadente e corrompida - demandasse o conhecimento de berço. Ainda que assim o fosse, é uma história rasa, fundamentada em clichês que pouco exploram a profundidade psicológica de seus personagens. É um bom livro para ler de forma despretensiosa, mas não um marco na literatura nacional.
É um bom livro de estreia, mas tenho algumas ressalvas. O livro perde muito tempo com digressões às vezes desnecessárias. Ex: cerca de 8 páginas sobre o interesse do protagonista em matemática. O final achei meio anticlimático.
Os personagens são muito detestáveis, mas bem construídos.
Dá para ver que o autor está inserindo nesse mundo dos ricos só pelas referências utilizadas.