“já sócrates alertava contra a esterilidade de uma vida frenética, até porque a meta final da vida é conhecida, única e sem alternativa, como demonstram experiências de milénios no mundo animal.
o homem, porém, é um animal especial que suporta mal as limitações da biologia e da natureza e procura opor-se-lhes, por vezes causando dificuldades e sofrimento a si próprio…”
“dá a ideia de que a cultura como que adoeceu. ou, mais provavelmente, que a doença é crónica e existe desde o começo dos tempos. parece que a cultura não tem força para moderar a agressividade humana, aliás, parece que a cultura é usada para distrair do problema da injustiça social.”
“até o pensamento criativo foi redimensionado e apreciado pelo seu valor de mercado e as instituições culturais, como os museus, sentem a necessidade de animar as suas ofertas com mostras frequentes, amiúde bem menos significativas do ponto de vista cultural do que as obras permanentes do museu. pode acontecer que a multidão vá a correr ver a exposição de um artista menor e ignore grandes obras-primas próprias desse museu. o que conta não é o valor de um quadro ou de uma obra literária, mas a marca de mercado.
a cultura (que incómodo utilizar impropriamente esta palavra), subjugada pelo mundo económico e pelas suas leis, consegue sugerir, quase impor, a definição do que é belo e do que não o é e estabelecer, também, um prazo de validade, pois o mercado quer que o belo seja rapidamente substituído por outro belo. e depois, o verdadeiro por outro verdadeiro, o bom por outro bom, o justo por outro justo, num mercado dos valores que mudam com o critério da
oportunidade. atualmente, tudo se compra e tudo se vende, até a alma!”